Quanta diversidade há nas estantes de livro de sua casa? Aqui procuro diversificar bastante, e as parcerias são particularmente boas neste quesito, porque acabo tomando conhecimento de livros com que muitas vezes não toparia, infelizmente, por aí, em livrarias ou até mesmo na comunidade booktagrammer, onde também acaba sendo reproduzido o recorte do perfil da sociedade mais normativo possível: autores homens, brancos, héteros.
Então me chegou a conhecimento essa delicadeza: um livro de contos-poesia escrito por uma mulher sapatão. A delicadeza repousa tanto em seu tamanho (60 páginas), quanto em suas palavras, produzindo sensações das mais completas e habituais possíveis: empatia, riso, amor e tristeza. São textos onde encontramos identificação, mas que fogem da heteronormatividade. E livros assim precisam ser mais lidos e mais divulgados, mesmo que não seja a sua realidade. Quando as vozes das minorias não são ouvidas pela maioria, a empatia desse último grupo tende a ficar restrita apenas dentro daquilo que seus integrantes já conhecem, e não conseguem encontrar pontos em comum com perspectivas diferentes, mesmo quando eles existem.
Pontos em comum? A liberdade de se perder em terras longínquas, como na beira do Douro, ou quem sabe, a dor que é buscar-se a si mesmo depois de um término de relacionamento, encaixotando os pertences para deixar uma casa que um dia já foi nosso lar, como vemos em “danza”.
Mas é onde somos diferentes que eu encontrei uma beleza ainda maior, sobretudo em “pollocks” e “cabo das tormentas”, pela forma que Evelyn Silva procura se expressar, entre sutilezas e eufemismos (ah, essa palavra – quero aqui toda carga não pejorativa dela!), para contornar peles, corpos, mas quiçá também, estranhamentos, evidenciando o amor que cabe em toques e carícias.
O livro não conta com um prefácio, mas o texto de orelha, pela vereadora Monica Benicio (Rio de Janeiro – RJ), supre essa ausência para aqueles que, como eu, são amantes de um bom introito. Eu amo introduções, porque, quando bem feitas, têm o condão de nos preparar, com maior ou menor suspense, para imergirmos propriamente nas páginas de uma nova leitura. Assim, como de praxe no meu ritual de iniciar um novo livro, eu percorri as orelhas do livro, tentando adivinhar o que nele eu encontraria em seguida. Senti que ali encontraria paixões e sentimentos. E de fato, encontrei. E, assim como Evelyn em Porto, fui feliz.
Sobre a autora
Evelyn Silva (biografia extraída do próprio livro)
“48, paulistana de nascimento, carioca por usucapião, botafoguense e comunista. Cenógrafa, iluminadora e dramaturga, trabalhou com Antônio Abujamra, Denise Stoklos, André Paes Leme e Alcione. Fez a dramaturgia de Patativa do Assaré, o desenho de iluminação de Surto e consultoria dramatúrgica/letrista de A hora e vez de Augusto Matraga. Largou todo o glamour da vida artística para ser assessora parlamentar, sem arrependimentos. Satisfação garantida e nenhum dinheiro de volta.”
Dados técnicos do livro:
- Capa comum: 60 páginas
- Autora: Evelyn Silva
- Editora: Editora Urutau (1ª edição, maio de 2022)
- ISBN: 978-65-5900-252-8
*Exemplar recebido em parceria com a agência literária Oasys Cultural. Adquira o seu no site da editora.