Crias do Titanzim – Cláudio Rodrigues

E chegou nossa primeira leitura em parceria com a Editora Boitatá!

Crias do Titanzim é o primeiro lançamento de 2026 da Boitatá, e fiquei muito feliz de recebê-lo. A ansiedade para lê-lo era grande, depois da prévia que pude acompanhar pelo Instagram e pela Newsletter da editora. Vocês seguem eles? Eu vinha acompanhando a newsletter antes mesmo da parceria, porque os títulos infantis dele ganharam instantaneamente meu coração, renovando-se em amor a cada nova leitura para o meu pequeno.

E, sim, com Crias do Titanzim, esse amor segue firme e forte.


Sinopse e contextualização

Titanzinho é uma comunidade litorânea de Fortaleza, e, como se depreende da leitura, uma área muito visada para empreendimentos, sobretudo de construção de estaleiros, o que tiraria as ondas das quais a comunidade local desfruta para a sua atividade predileta, o surf.

Quim, nosso protagonista, é um menino que por lá vive. Titanzinho é também uma comunidade periférica, e portanto mais vulnerável, mas, por ora, ainda uma área protegida por lei que impede a ação de projetos como a do estaleiro. O mar ali, com ondas perfeitas para o surf, e a beleza natural de sua paisagem, constituem bem de uso comum do povo, de livre acesso a qualquer pessoa. Titanzinho cresceu como uma tradicional vila de pescadores, e onde, apesar da pobreza, o surf vem se desenvolvendo e se destacando internacionalmente, graças a escolas e associações de surf que almejam profissionalizar a juventude e tirá-las do ócio através do esporte. É, portanto, uma comunidade que vive a resistência diariamente.

Quim, como muitas crianças ali, vive com a cabeça nas ondas, literalmente e figurativamente. Mas está também em idade escolar, na fase de alfabetização. Distraído pensando sempre no surf, tem tido dificuldade com as letras. Até que ele conhece Ocy, um carangueijo surfista e rapper que lhe ajuda a não vacilar na escola.


Como foi nossa leitura

Há dois pontos que gostaria muito de comentar sobre a experiência deste livro com meu filho. A primeira foi que o livro chegou num momento muito bom. Nosso menino está encantado com o som do rap. Tudo bem, é um rap num idioma completamente diferente (coreano), mas ele está fascinado com a rapidez que as palavras podem atingir e impressionado com o ritmo que elas impõem à música, com seus sons e rimas. Então, eu não tenho dom nenhum para rap, embora seja apaixonada por poesia desde criança, mas tentei ler as falas de Ocy como se interpretando um rap, e meu filho adorou. Talvez não meu rap, ok, mas o fato de haver um rapper na história.

Segundo ponto, é o lugar, que eu queria até desenvolver melhor falando sobre como o tema do letramento é explorado no livro.

Assim como o Titanzinho é tido como patrimônio cultural aos olhos de seus habitantes, ler e escrever também o são. E, estes dois, patrimônios culturais que vão muito além de desempenhar funções curriculares, diga-se. O ato de escrever e de ler não devem ser vistos como objetos exclusivos da escola. Há inúmeros saberes diferentes, tão múltiplos quanto os espaços sociais existentes.

A formação de um indivíduo e seu desenvolvimento dá-se imerso em diferentes espaços sociais, para muito além da sala de aula. Quim passa a ler porque, além do que lhe é ensinado na escola, o meio para onde esse aprendizado se estende também importa muito. Como aparece na sinopse do livro no site da editora, “leitura e identidade se entrelaçam”.

Não tenho formação pedagógica ou na área de educação, então só posso compartilhar minhas vivências de casa. Mas quando meu filho descobriu que a história do livro trazia um lugar que existe de verdade, e que ainda por cima fica no Brasil, ele ficou muito empolgado. Essa proximidade soa diferente de alguma maneira, mas não tenho embasamento para explicar o porquê. Imagino, apenas, que na alfabetização, e ainda maior que isso, no letramento, dá-se um fenômeno parecido. Meu filho ainda não sabe ler ou escrever. Ele está aprendendo as letras na escola, então não sabe formar palavras. Mas ele quer muito escrever. Não as coisas que são pedidas a ele para escrever, como nas tarefas. Ele as faz sem reclamar, mas os olhos dele brilham diferente quando me pergunta como escreve o nome da banda preferida dele, ou do personagem preferido dele, por exemplo. Porque essas referências importam para ele como contextos nos quais ele realmente se vê inserido. Há um propósito ali.

É assim com Quim também, quando consegue ler o mundo ao seu redor. Tudo muda de tamanho, porque ao ler, as possibilidades se tornam infinitas e parece haver uma espécie de magia acontecendo. Inserido naquela comunidade, ao lê-la, ele se vê como pertencente àquele lugar, se enxerga como uma cria de Titanzim. O rap, por sua vez, cuja origem remete às ruas e periferias, carrega ainda esse símbolo da luta social, vivida pelas pessoas ali, mas também se mostra como poesia, que, marginal ou não, insere-se no contexto de múltiplos saberes e espaços sociais.

Ao fim, com tudo isso, fiquei imaginando como será quando meu filho também for capaz de ler pela primeira vez. Se a alegria dele vai ser como a de Quim, cujo sorriso, tão contagiante, faz meu filho sorrir só de vê-lo.

Adorei conhecer a comunidade de Titanzinho, na companhia de Quim e Ocy, e adorei também ler mais a respeito sobre o surf no local nas explorações ainda válidas da Internet. O bom livro intermedeia essa aquisição de conhecimento e mostra-se sempre rico, permitindo ainda novas narrativas, mesmo que sejam essas como a de uma mãe que tentou – e falhou – em cantar rap para o filho.

Procurando livros infantis brasileiros? Eu agora vou sempre recomendar este, para começar.

Quer saber mais sobre a obra? veja esse post da editora:


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Dados Técnicos de Crias do Titanzim:

  • Editora: ‎Boitatá, 1ª edição (26 fevereiro 2026)
  • Autoria e ilustrações: ‎Cláudio Rodrigues
  • Capa brochura: ‎40 páginas
  • ISBN-10: ‎6557175068 – ISBN-13: 978-6557175064
  • Idade de leitura: ‎3 – 5 anos

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