Resenha: A Boa Filha – Karin Slaughter

Já disse o quanto esse livro me deixou tensa, né? Pois bem. Não foi apenas tensão que ele me causou. Mas segue comigo que vou falar mais dele.

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Sinopse:

Charlotte e Samantha eram apenas adolescentes quando invadiram sua casa em Pikeville à procura de seu pai Rusty, um advogado de defesa odiado por algumas pessoas da cidade que o viam como “a mão direita do Satanás” por defender todo tipo de criminosos.

Ele estava no fórum quando dois homens descontaram seu ódio na família — matando sua esposa, atirando na cabeça de Samantha, deixando-a à beira da morte, e aterrorizando Charlotte. 

Afastadas pelo trauma, as irmãs precisam se reencontrar após um crime hediondo em uma escola. Charlotte é a primeira a chegar ao local do crime e revive a violência de seu próprio passado. Após tantos anos de segredos e silêncio, a família é obrigada a lidar com o caso em uma história de intrigas e reviravoltas que mostra que nem tudo é o que parece. 

Na capa do livro, podemos ver a crítica: “Leio tudo que ela escreve”, dito por uma das mais bem cotadas escritoras de thriller atualmente, Gillian Flynn, autora dos best sellers  “Garota Exemplar”, “Objetos Cortantes”, dentre outros. E não é por menos. Karin Slaughter impressiona demais. Para quem gosta de thriller intenso e de qualidade, não pode deixar de ler “A Boa Filha”.


Minhas impressões:

Não me recordo do último livro que li e demorei tanto. E há um bom motivo para essa demora toda: achei ele pesado demais.

Não me levem a mal, quero que isso soe como um elogio, ok? Porque, de verdade, para quem AMA histórias do gênero, esse livro é uma ótima pedida, senão perfeito.  Para quem gosta ou gostou de livros como “Os Homens que não amavam as mulheres”, de Stieg Larsson, devo dizer que estamos diante de um estilo bem parecido. Mas apesar de os livros da trilogia Millenium também serem bem pesados, eu não tive tanta dificuldade em seguir a leitura hora após hora, sem ter de fazer tantas pausas como fiz dessa vez.

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Karin tem uma narrativa bastante fluida, e, mesmo em meio à toda tensão que a história carrega, ainda há uma carga de drama e de beleza indiscutível. Penso até que é todo o drama familiar existente que faz toda a diferença nesse livro. Não que seja apenas mais um livro com um crime bárbaro e briga de advogados na defesa de acusados. Tem tudo isso, sim, mas vai muito além disso.

A começar por dizer que há personagens incríveis nele. A mãe de Samantha e Charlotte, Harriet Quinn, por exemplo, desafia o clichê da figura de mãe convencional, esposa devota e dona de casa impecável. Ela veio a se tornar a minha personagem favorita do livro, mas que infelizmente teve pouco tempo de vida ficcional, já que Gamma, como as filhas a chamavam, é assassinada logo no começo do livro, quando todo o drama da família Quinn se inicia. Nessa mesma esteira, levando em conta a genialidade de Gamma, seu talento como atleta, e sua atuação num campo notadamente machista, ela deu a suas filhas nomes que poderiam ser no mínimo irônicos em ambientes misóginos: Samantha fica mais conhecida como Sam, e Charlotte como Charlie, ambos nomes masculinos e que, segundo Gamma, “Sam Quinn era um nome bem mais respeitável do que Samantha Quinn jamais seria”. Triste verdade.

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O próprio Rusty, pai das garotas, é um personagem que conquista a simpatia do leitor e ao qual eu não esperava me afeiçoar da maneira como aconteceu. Se o título do livro é “A Boa Filha”, em contrapartida, digo que Rusty é um bom pai, pelo menos foi a conclusão a que eu cheguei.

Charlie é o maior foco da história, e, após o episódio horrendo do dia em que sua mãe fora assassinada, sua alegria fácil fora roubada e a culpa que sente a impede de ser feliz.

Sam, por sua vez, mostra-se resiliente, porém orgulhosa, ao tentar levar sua vida da melhor forma possível, mesmo após o tiro em sua cabeça ter-lhe surrupiado o brilhantismo intelectual  e físico herdado de Gamma. E, ainda que caminhe com a ajuda de uma bengala, sua mente se porta muito acima da média intelectual das pessoas.

Fora essas 4 figuras, membros da família Quinn, há outros personagens (passageiros ou não) pelos quais é impossível não se apegar, e descobrir que, apesar de toda maldade que existe no mundo, há ainda pessoas boas, inspiradoras, verdadeiros alentos da humanidade: falo de Lenore e de Ben, que acabam compensando personagens repugnantes como Zachariah Culpepper.

Além do muitíssimo bem construído drama familiar — o verdadeiro satélite dessa narrativa , elaborado e transmitido às minúcias ao leitor, há muitos temas girando em torno de tal satélite: ética profissional, respeito à diversidade de gênero, que inclui de certa forma o machismo (já comentado acima), traumas psicológicos, e outros.

Uma coisa que me incomodou um pouco na narrativa, mas que parece funcionar muito bem em outros formatos (talvez em filme, ou em séries), foi como Karin se utilizou do recurso de “contar realmente aquilo que aconteceu”. Quando estamos vendo um filme ou uma série, é muito comum que sejam feitos cortes estratégicos em alguma cena para ocultar o “porvir”, e, num outro momento, mais oportuno, essa mesma cena ser repetida, mas daí sem os cortes, mostrando o que houve depois realmente. Num texto, ou numa narrativa, melhor especificando, esse efeito pode ser obtido repetindo-se o texto, mas acrescentando aquilo que foi omitido. Eu particularmente achei cansativo isso no livro, já que Karin faz uso dessa repetição em dois momentos, mas, abordando o assunto com meu marido, não chegamos a uma solução melhor para isso, então acabei confiando que minhas 5 estrelas foram uma nota mais que justa ao livro.

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Eu fiquei tensa, me recusei a pegar o livro algumas noites em que precisava dormir melhor (porque sei que me daria insônia), tive sonhos um pouco perturbadores nas noites que não levei à risca essa estratégia, dei algumas risadas (não gargalhadas, mas risadas afetuosas, de quem entende as estranhas formas de amor que nossos pais têm para conosco filhos), e também chorei. Chorei copiosamente, sim, numa cena específica do livro, que não posso revelar para evitar spoilers. Da mesma forma, até acabei destacando um trecho do livro que jamais imaginaria encontrar num thriller, que é uma fala de Rusty (que também contém spoiler e por isso não vou reproduzi-lo), mas que achei muito triste, belo e profundo.

Se você gosta de thrillers, ficam todas as minhas recomendações do livro, porque a Karin sabe como conduzir uma história. Mas se você abomina livros com assassinatos, perversão, maldade crua, e demais podridões das quais só o ser humano é capaz, talvez este não seja o livro mais indicado para você. Eu terminei o livro esgotada, e preciso urgentemente de uma leitura bem leve.

Este livro foi uma cortesia de:

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Informações adicionais sobre o livro:

Capa comum: 464 páginas

Editora: HarperCollins (15 de agosto de 2018)

ISBN-10: 8595082561 – ISBN-13: 978-8595082564

Título original: The Good Daughter

Tradução: Zé Oliboni

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