A desumanização – Valter Hugo Mãe

Este mês de novembro selecionei o livro A desumanização, de Valter Hugo Mãe para o Clube do Curinga. É a primeira vez que tenho contato com a escrita do autor português, e que experiência a deste primeiro contato!

Sinopse:

Na paisagem gélida da Islândia, a menina Halla, de apenas onze anos de idade, busca compreender os sentimentos que surgem com o falecimento de sua irmã Sigridur. Vivendo a divisão permanente das “crianças espelhos”, Halla nos guia por impressões de transitoriedade e perda a partir do seu ponto de vista infantil e, por isso mesmo, cheio de uma simplicidade profundamente poética.

O sofrimento do luto, a solidão e a violenta frieza da mãe se misturam com a paisagem inóspita da Terra do Gelo e, somados à narração lírica e melancólica de Valter Hugo Mãe, em que o desamparo dos personagens é superado por uma compreensão sublime e bela de sua condição, transformam esta obra em um primor da literatura contemporânea.


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Halldora, conhecida como Halla, tem apenas 11 anos de idade quando perde sua irmã gêmea, Sigridur. Dizem que a conexão entre gêmeos é algo único e incomparável com qualquer outro vínculo. Não tenho gêmeos na família, e nem amigos que sejam gêmeos, então tenho muita pouca familiaridade no assunto, apenas presunções.

Mas o próprio Valter Hugo Mãe nascera sem a vida de seu gêmeo Casimiro como companhia. Não sei como é crescer imaginando como seria essa convivência que nunca existiu, mas VHM com certeza passou muito tempo assombrado por tais pensamentos, e diz que sempre combateu suas tristezas com as músicas do islandês Hilmar Örn Hilmarsson, a quem igualmente dedica a obra, lado a lado a seu gêmeo Casimiro.

A desumanização é um romance sobre o luto. Não consigo descrever de forma mais clara e simples, e creio assim bastar, porque o luto já é um sentimento muito complexo. E ninguém ousa duvidar.

As coisas mais difíceis escapam todas à ciência.

Em termos de narrativa, não há verdadeiramente um enredo, embora possamos perceber a passagem do tempo e a tomada de ações majoritariamente (auto)destrutivas. São os personagens vivendo o luto cada um à sua maneira.

Nessa tentativa de retomar-se o sentido, o sentimento de nexo e continuidade de suas vidas, a mãe de Halla torna-se agressiva, principalmente com a filha “não morta”, tomada pela dor sem igual de ter de enterrar uma filha e inverter a ordem do que assumimos como natural.

A minha mãe, confessei, corta-se e odeia-se. Odeia-me também. Como não me multiplico, sou uma metade insuportável que prefere não reconhecer.

O pai de Halla, que sempre conseguiu expressar-se maravilhosamente, através de suas falas-poemas, praticamente se anula, calando não apenas sua voz, mas também fechando o cais do porto seguro que Halla encontrava nele.

O meu pai, de nervoso passara a contido, um bicho circunscrito, como uma raposa que se domesticasse, procurando esquecer a sua própria natureza. Na verdade, nada me parecia natural nos modos abreviados e higienizados da casa […] A minha tia corrigira mais do que os erros. Ela retirara identidade, para que não se sentisse nada senão a pragmática sucessão dos dias.

Halla também procura preencher seu lado vazio, da cama, do espelho, da vida. E isso, para mim, não acontece de modo confortável. Na verdade, nada me parece confortável em suas trajetórias de luto, mas há beleza onde quer que a procuremos, inclusive nesse processo de desumanização pela qual os personagens são transformados, pelo menos da forma como VHM captura o luto.

Mas eu não queria aprender tudo acerca da tristeza. Não poderia suportar o fardo de a conhecer por inteiro. Revelar o seu segredo seria como carregar para sempre a possibilidade de lhe sucumbir.

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Fiquei fascinada pela beleza de sua escrita. Algumas passagens são pura poesia, mesmo em meio à toda dor, a todo horror. As gélidas paisagens da Islândia acentuam o tom cinzento da narrativa, mas este também encontra contraste no calor humano, que insiste em emergir mesmo das mais profundas ranhuras da alma.

Para mim, até a edição foi cuidadosamente pensada, para que fosse capaz de transmitir de forma visível, ainda que apenas parcialmente, um vislumbre dessa beleza que existe mesmo nas cores frias (azul e verde). Quem olha para o livro pode não imaginar a poética que encerra em si, mas quem passa a lê-lo, talvez consiga enxergar a expressividade e simbolismo que permeiam a obra em todos seus alcances possíveis. Um livro para ser sentido, e não apenas lido.

Vou deixar abaixo mais alguns trechos dentre os muitos que destaquei ao longo da leitura:

O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. Perece como uma coisa qualquer.

A esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos. Que acreditem em nós. Dizermos algo que se toma como verdadeiro porque o dizemos simplesmente.

Dizemos palavras para sentir que as coisas aparecem pela primeira vez. Só porque falamos delas a primeira vez. Só porque nunca antes se usara uma expressão para alguma coisa que, afinal, não precisa de qualquer expressão. É um tipo de amor muito bonito.

Queria proteger contra o esquecimento. A maior vulnerabilidade do humano, a contingência de não lembrar e de não ser lembrado.

A felicidade das coisas erradas era uma mistura de bem e de mal que deixava quem assistia num impasse, entre permitir-se seguir na diversão ou ficar preso no receio.

Sei que o livro pode não agradar a muitas pessoas, justamente por ter uma pegada mais introspectiva e ser bem parado, o que não quer dizer nem um pouco que se trata de uma leitura leve. Mas eu simplesmente me apaixonei pelo livro. Ainda, devo acrescentar que ler uma obra de uma beleza singular no português lusitano só tornou essa experiência ainda mais rica e grandiosa.

Quem já leu Valter Hugo Mãe, o que acharam da escrita dele? Sabem me dizer se outros livros dele também são tão belamente escritos como este? Anseio muito por ler outras obras dele e agora entendo por que o escritor é tão aclamado.


Informações adicionais sobre o livro:

Capa comum: 192 páginas

Editora: Biblioteca Azul; Edição: 1ª (30 de março de 2017)

ISBN-10: 8525063274 – ISBN-13: 978-8525063274

6 comentários Adicione o seu

  1. Excelente obra escrita durante e após o autor passar uma temporada na Islândia.

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  2. Tatianices disse:

    Não conhecia essa obra do autor – que tem uma escrita ímpar – e me parece realmente linda. Obrigada pela resenha

    Curtido por 1 pessoa

    1. Isa Ueda disse:

      Que outro livro dele você leu e indica?

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      1. Tatianices disse:

        Já li dois livros: O paraíso são os outros – uma leitura super rápida e linda – e o apocalipse dos trabalhadores – que é uma leitura mais densa e que nos faz refletir. São livros bem diferentes entre si

        Curtido por 1 pessoa

      2. Isa Ueda disse:

        Ahh quero muito ler O paraíso são os outros. Esse Apocalipse eu não conhecia ainda. Obrigada!

        Curtido por 1 pessoa

  3. Creio que depois de ler esta resenha, este será um bom livro para conhecer a escrita desse autor. Sempre achei bem impressionante essa conexão que existe entre gêmeos, parece algo místico, sobrenatural e fascinante. Amei!♥

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