O sentido contrário da estrada de voltar – Julianne Veiga

O tempo, frequentemente representado por uma linha, também muitas vezes confunde-se com o próprio trajeto. Nessa representação, sobretudo numa era que se apropria da noção de tempo como métrica de produtividade, e vive-se uma verdadeira cultura da velocidade, “O sentido contrário da estrada de voltar”, é um convite para desacelerarmos.

Seus textos, tidos como crônicas, variam em extensão e temas, mas sempre abrigam em si a percepção do tempo. Ora a autora memora-se da infância, como no encantador Cadente, ou deixa-se divagar, como em Nome dado ao abstrato – um ensaio hipotético sobre o tempo, que o faz num monólogo cujo nome já revela sua ânsia em estender-se sobre o tema.

O título da obra é belíssimo, e o chamariz perfeito para conclamar sua leitura. Gosto especialmente como, em seu desfecho, ele é finalmente esclarecido, num tom ao mesmo tempo casual de quem proseia, mas também de quem delineou sua narrativa com esmero, regando-a com abstrações filosóficas que se estruturam através da concretude de uma estrada – aquela que leva, mas também traz de volta. O texto, homônimo ao seu título, conclui o livro levando o leitor a uma perspectiva mais cíclica da vida – e, portanto, que não carece de tamanha pressa. Essa apreensão cíclica do tempo, porém, é traçada em muitos momentos do livro, por vezes de forma mais evidente, como em Ciclicidade, mas outras vezes de forma mais tênue, como neste trecho de Mata ciliar:

“Os jaburus batem suas longas asas para levantar voo, feito isto, planam a maior parte do tempo. Voltam a bater as asas quando se faz necessário o reencontro do fluxo do vento. Sábios, os jaburus servem-se do vento. Em círculos, deixam-se levar cada vez mais alto pela corrente de ar.”

Num momento em que somos diariamente arrebatados por tanta informação aleatória, em que somos forçados a estarmos em constante movimento visando produtividade e consumo desenfreados, leituras como essa podem nos enraizar e nos conectar com aquilo que nosso corpo e mente realmente almejam: profundidade e essência.

Um livro para se ler com calma e atenção, e que permite muitas reflexões.


Dados Técnicos do Livro:
  • Capa Comum: ‎88 páginas
  • Autora: ‎Julianne Veiga
  • Editora: ‎Editora Patuá, 1ª edição (22 de novembro de 2025)
  • ISBN-10: ‎6528102775 – ISBN-13: ‎978-6528102778

Livro recebido em parceria com a Oasys Cultural. Esta resenha representa a opinião sincera desta leitora, não se tratando de conteúdo pago.

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