Onde Vivem as Monstras – Aoko Matsuda

Tenho aqui mais um perfeito exemplar de livros que só li por causa do meu filho. Destrinchando essa afirmação, explico. Não é que esse livro jamais entraria no meu radar de leitura pelos seus próprios méritos, mas é que ele certamente pegou um atalho por conta dos interesses da criança aqui em casa, e eu pelo menos amo mergulhar no universo dele. Já falei por aqui algumas vezes o quanto meu filho é fissurado em monstros. É uma fase que permanece, embora os tipos de criaturas tenham variado até aqui: kaijus (tipo Godzilla), vampiros (ele ama Hotel Transilvania), Kraken, etc. E agora, ele está descobrindo os Yōkais. E então esse livro que estava aqui parado estava clamando para que eu o lesse, porque o timing não poderia ser melhor.

Yōkais são criaturas ou fenômenos folclóricos japoneses, geralmente monstros, demônios (mas diferentes dos da crença cristã) ou espíritos/fantasmas, que possuem alguma habilidade sobrenatural ou poder. Eles podem ser assustadores, mas também brincalhões. Assim como muitos folclores, os Yōkais eram utilizados para explicar alguns eventos e fenômenos no Japão, mas o certo é que, atualmente, eles refletem os medos e a cultura japonesa de um modo geral.

Através dos contos de “Onde Vivem as Monstras”, conhecemos algumas criaturas desse imenso e riquíssimo folclore, mas com um viés feminista. As criaturas que aparecem nos livros são mulheres, e todos os acontecimentos são centrados nessas figuras femininas. Então, você não verá, por exemplo, criaturas como o Kappa, que é um dos mais famosos Yōkais do folclore japonês. Meus contos preferidos foram o homônimo “Onde Vivem as Monstras”, “A vida de Kuzuha”, “O que arde é o coração” e “Meu superpoder”. A inspiração para cada uma das criaturas que aparece nos contos pode ser encontrada ao final do livro, e tratam-se das notas da tradutora da edição em inglês (EUA), Polly Barton. É interessante que nessas notas, destaca-se também a origem de cada história de onde a personagem foi tomada emprestada, sendo ora do folclore em si, ora de peças de kabuki (teatro japonês), ora de rakugo (espécie de comédia japonesa). Assim, deve-se entender que as personagens não estão inseridas em meras reproduções da lenda ou da história originária numa versão atualizada; elas foram escolhidas a dedo pela autora para ilustrarem histórias diversas que preservam suas características originais mas também possibilitam uma nova perspectiva sobre suas motivações ou para receberem talvez um final mais feliz e justo, tudo nessa roupagem feminista.

Quem não for de ler muito histórias de fantasmas porque não lê livros de terror, pode ficar tranquilo que, apesar do tema e do título, o livro não se insere nesse gênero fictício. Os contos têm, obviamente, um toque sobrenatural, devido às personagens e suas características, mas na verdade, eu diria que eles são, em grande parte, divertidos. Enfim, o teor sobrenatural fica bem próximo ao de contos fantásticos, bem leve para os menos entusiasmados com o terror (estou inserida nesse grupo). Porém, fica a dica: se você realmente não gosta de histórias de terror, não vá atrás das lendas originais de cada Yōkai. Eu prefiro ficar com as versões trazidas por Aoko Matsuda e me simpatizar por algumas dessas criaturas, sonhando também com o dia em que a sociedade japonesa estará realmente aberta ao prestígio das mulheres como a literatura por lá parece já despontar.


Dados Técnicos do Livro:
  • Capa comum: ‎ 224 páginas
  • Editora: ‎Gutenberg, 1ª edição (30 outubro 2023)
  • Autora: ‎Aoko Matsuda
  • Tradução: ‎Rita Kohl
  • ISBN-10: ‎858235715X – ISBN-13: ‎978-8582357156

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