Sinopse:
Duas mulheres têm um encontro marcado. Elas não sabem disso quando a história em “Vapor de Dendê não tem cor” inicia. Pudera, o encontro é desses, em que a própria vida se encarrega de unir. Uma passa boa parte da história anônima, ainda que seja a detentora das rédeas da narrativa. De sua voz, parte a contar sua jornada, desde a saída do sertão baiano nos anos de 1950 com sua irmã para a capital, Salvador, até os últimos dias de sua vida. Paralelamente a essa condução em primeira pessoa, acompanhamos o percurso de Tieta, uma jovem que também, com as sofridas economias de sua mãe, se muda para Salvador na confiança de que sua vida poderia ser melhor. Entre idas e vindas, a vida de uma esbarra na da outra de leve, até que se enredam e se afastam.
Minhas Impressões sobre o livro:
Leituras como essa sempre despertam em mim uma inevitável reflexão sobre a vida. O livro mostra como as vidas das pessoas se tocam em inúmeros pontos de trajetórias aparentemente distantes, e também como, pela complexidade humana, acabam se enroscando, às vezes num emaranhado difícil de compreender ou acreditar. É assim a história de “Vapor de Dendê não tem cor”. Essa é uma premissa forte por si só, mas a pergunta a ser feita é: “distante para quem?”
Ambas as personagens vêm de uma mesma origem humilde. Ambas se dirigem à capital, uma cidade grande “cheia de oportunidades” para tentar uma melhor sorte, e ambas acabam ganhando a vida com o trabalho doméstico.
A história que temos em mãos deixa muito clara como as desigualdades sociais, de raça e de classe social, se dão e se perpetuam. Se a injusta estrutura sobre a qual a sociedade se alicerça é invisível no cotidiano de classes mais abastadas, essa é uma leitura que pode abrir os olhos para os problemas sociais que não chegam a algumas camadas senão somente em sua superficialidade.
Também pela leitura, é possível entender por que a religião, em termos de igreja, é tão importante na vida de muitas pessoas, sobretudo em classes mais vulneráveis, porque é ela quem está presente quando tudo o mais está ausente. É ela que muitas vezes oferece o sentimento de pertencimento numa comunidade que todo dia encontra dificuldades e, com seus inúmeros tombos, tem que continuar se reerguendo e se reinventando.
Mas, independente do que o leitor acredita, essa também é uma leitura que mostra que não há nada mais humano do que nossos próprios dilemas. Há cenas no livro que são perturbadoras, não importa quão ferrenhamente o leitor defenda ou não o ab0rto, por exemplo (e já deixo aqui o alerta de gatilho de ab0rto). Porque o buraco é mais embaixo. Há outras questões a serem discutidas como sociedade. Onde é que estamos errando quando uma mulher decide não ter um filho por causa do tom da pele que o filho terá? É isso que me dói mais. A revelação do título também nos corrói por dentro.
Este foi, portanto, um livro que teve um sentimento crescente em mim de reflexão. Não é uma mera história que mostra o encontro fortuito ou não de pessoas. É uma história que, com uma escrita envolvente, explicita por que alguns fios da vida se embolam num nó tão difícil de se desvencilhar. É a vida de muitas mulheres deste país, presas à estrutura que lhes é dada desde antes mesmo de sequer nascerem. Quanto mais eu lia, mais os fragmentos se juntavam e formavam um arranjo difícil de ignorar o quanto estamos falhando como sociedade.
O único porém de toda a leitura é algo bem pessoal. Tenho um pouco de dificuldade quando há muitos personagens secundários, e, portanto, confesso, que em alguns momentos tive de voltar algumas páginas para entender quem eram as pessoas em determinadas cenas, pois há alguns nomes parecidos, embora em contextos completamente diferentes. Isso não costuma ser nenhum problema para pessoas que conseguem inclusive visualizar os personagens na cabeça. Eu não tenho essa questão visual quando leio, o que fica mais difícil de administrar nomes em histórias mais ricas e detalhadas, como é o caso.
Apesar dos temas sensíveis tratados e da carga de denúncia social, ora velada, ora nem tanto, a leitura é cativante. Lara Tironi equilibra perfeitamente o uso de expressões da oralidade, que aproximam o leitor da narrativa, com passagens de grande densidade poética, assentando no coração do leitor um peso emocional diferente. É uma ótima leitura e que me comoveu muito.
Dados Técnicos do Livro:
- Capa comum: 264 páginas
- Editora: Editora Patuá, 1ª Edição (16 de abril de 2026)
- Autora: Lara Tironi
- ISBN-10: 6558641089 – ISBN-13: 978-6558641087
Edição recebida em parceria com a Oasys Cultural. Adquira o seu exemplar preferencialmente em livrarias ou pelo site da editora.