“Em narrativa melancólica, o leitor é conduzido ao submundo das memórias perdidas. Em tom de ficção cientifica, uma ilha governada por policiais que buscam vestígios de lembranças. “Na ilha, os objetos, casas, e famílias inteiras somem sem deixar vestígios. Sem que as pessoas sequer se atentem, e notem os desaparecimentos, pois as lembranças furtivamente também já se foram. Na trama, uma escritora tenta manter intactos resquícios de histórias, de algo que possa permanecer. Não é fácil, já que tudo ao redor desaparece, e ela não pode contar sequer com a própria memória.”
Minhas Impressões de Leitura:
Há duas vozes narrativas no livro. Uma é a da própria protagonista, que é uma escritora; a outra, da personagem da história que a romancista está escrevendo. No romance no qual trabalha, embora os personagens não percam a memória como os habitantes da ilha, sua protagonista perde a voz, ficando esta aprisionada numa máquina de escrever. Há um paralelo e uma semelhança inegável entre o que acontece ao redor da escritora, na ilha, e com a personagem que cria. Ambas vão lentamente desaparecendo de suas próprias histórias.
Se você ficou um pouco confuso, saiba que eu também ficaria (e fiquei). Até me situar na leitura, foi preciso uns bons pares de capítulos. Mas, eventualmente, entendi o que estava rolando, e tenho certeza que esse meu desconcerto não vai acontecer com a maioria dos leitores. Meu maior problema é não conseguir ficar lendo por horas a fio todos os dias e às vezes ficar uns 2, 3 dias sem nem pegar o livro para retomá-lo. É um hábito de leitura muito fragmentado o meu.
Enfim. Basicamente, a premissa é: uma ilha de onde as pessoas não podem sair, e onde a polícia vai decidindo por livre arbítrio o que irá sumir – para sempre – da ilha, e também da memória das pessoas. Depois, fica um vazio, um leve estranhamento e, por fim, no decorrer do tempo, uma ausência indistinta, como se aquilo nunca nem tivesse existido. Mas há aqueles que nunca se esquecem, e esses são perseguidos pela polícia.
“Não chega a ser uma violência, mas cada desaparecimento é um evento total, súbito, inexorável. Não conseguimos preencher esses vazios com outras coisas; a ilha está se tornando um lugar cheio de vãos.”
Eu queria muito concluir logo o livro, embora eu não pudesse ler numa sentada só, como disse. Queria ver como ele terminaria, já que parece muito difícil viver perdendo alguma coisa sempre. No início, as coisas não vão sumindo da ilha (e consequentemente da memória das pessoas) tão rapidamente. Mas conforme a trama vai avançando, até para convencer sobre a permanência dos sumiços como um status quo da ilha, a frequência dos sumiços vai aumentando muito, e parece impossível que a história possa continuar. Mas ela continua, até não poder mais. Penso ser inevitável fazer uma reflexão sobre as coisas que não queremos esquecer, além de comparar a perda total de coisas com a morte. O que sobra depois que partimos? E quanto às memórias de alguém sobre nós depois que elas também se vão?
Há uma beleza tão grande nesse livro, ao mesmo tempo em que há uma crueldade tão gritante. A polícia seria como o tempo? Feroz e imparável, devastando tudo que toca? Ou somos nós humanos que temos essa necessidade tão grande de preservar nossas reminiscências que nos faz ver a “polícia da memória” como algo tão violento e injusto?
Também há referência ao mito da caverna, de Platão, já que aqueles que nunca se esquecem parecem viver uma realidade luminosa, enquanto os que se esquecem veem apenas uma distorção dela, impossibilitando a própria existência pela perda não apenas de suas memórias mas do conhecimento de tudo que os cercam. Afinal, somos também nossas próprias memórias.
Isso mostra as muitas possibilidades de se interpretar o livro, e me parece uma ótima opção para ser colocado num debate, por exemplo. No momento em que escrevo este texto, ainda não conferi nenhuma outra resenha, mas sei que tão logo disponibilizá-lo para a postagem, vou atrás de outras opiniões, porque foi muito intrigante essa leitura, diria que a melhor leitura do ano até agora.
“E quando minhas bochechas sumirem, para onde irão minhas lágrimas? O que ele vai acariciar quando eu não tiver mais rosto?”
Dados Técnicos do Livro:
E-book para Kindle: 320 páginas, 1ª edição (11 maio 2021)
Olá, eu sou a Isa. Sou apaixonada por livros, viagens, culinária, e, claro, pelo meu amor maior, meu filho. Decidi juntar todas essas paixões num blog só, e aqui estamos.
Minha paixão por livros se deu tardiamente, na adolescência, mas quando aconteceu, foi de forma arrebatadora. Já viajar eu gosto desde bebê (até onde me contam). E cozinhar é uma terapia. Ansiosa e tímida por natureza, meu meio de comunicação preferido sempre foi a escrita. O blog me ajuda a manter a calma e ainda me permite compartilhar meus pensamentos e me sentir menos sozinha nessa trilha da maternidade.
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