Harry Potter depois de 20 anos

Preciso lhes confessar uma coisa: até julho de 2017 eu ainda não havia lido todos os livros de Harry Potter. Precisamente, no dia 18 de julho de 2017, eu terminei de ler o sétimo e último livro da série criada por J.K. Rowling.

Hoje, passados mais de 20 anos desde a publicação do primeiro livro (no original), e quase 18 anos no Brasil, conto para vocês como foi a experiência de só ter lido os livros tanto tempo depois.

Na verdade, eu cheguei a ler o primeiro e o segundo livros da série na época em que saíram no Brasil. Em 2000 eu tinha 12 anos, quando saiu o primeiro livro. Ainda não era uma pessoa dada à leitura (sim, mudar é possível). Mas li mesmo assim. Não devorando como todo mundo que eu conheço o fez, lendo num único dia. Eu lembro de ter passado uns 5 dias lendo o livro. Pegando e largando. Não por ser ruim, nem por não estar curtindo. Eu sempre li assim. Eu leio assim até hoje. É meu jeito. Eu o respeito. E realmente terminei o livro concluindo que tive um momento divertido, enquanto o lia.

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Saiu o segundo livro, minha mãe comprou também para lermos. E eu li. Morrendo de medo. Sim, a narrativa da J. K. Rowling à época me assustou bastante. Eu não tenho pavor de cobra como alguns amigos meus, mas só aquele suspense, da situação de pessoas sendo petrificadas, de inscrições na parede feitas com sangue, eu imaginando os gritos da Murta Que Geme… sempre fui muito medrosa. E eu devo tudo isso à minha mente fértil, que sempre imagina um cenário pior do que está sendo descrito.

Mas aí eu vi os dois primeiros filmes. O primeiro foi divertidinho, e o segundo não me deu medo, como eu imaginava. Na verdade, foi ali que eu percebi que havia distorcido talvez um pouco as coisas, imaginando cenas muito mais tétricas.

E depois, minha mãe não comprou o terceiro, nem o quarto, nem o quinto, nem o sexto, nem o sétimo livro. Enfim. Mãe, não estou colocando a culpa em você, de forma alguma. Eu poderia muito bem ter pedido emprestado livros de amigos, colegas, da biblioteca. A questão é que não fiz isso. E por quê? Porque eu sempre fui meio inerte. Muitas coisas legais e boas que eu acabei tendo acesso na minha vida se devem basicamente a parentes e amigos bem-intencionados, que queriam tanto compartilhar algo legal que eles tinham visto/lido/ouvido, que eles simplesmente me emprestavam ou me davam (VHS, cds de MP3, DVDs, livros, etc.). E confesso que muitas vezes eu começava algo relutante. Mas no fim, sempre acabava adorando – isso quando não me tornava mais fanática que a própria pessoa que havia inicialmente insistido tanto para eu dar uma olhada/escutada naquilo que tinha em mãos.

E, como ninguém me emprestou espontaneamente o resto dos livros, eu simplesmente não terminei de ler a série. Fiz isso com muita coisa, principalmente com j-dramas (ou “doramas”) e animes. E sempre me perguntam: “mas você não ficava curiosa pelo final?” Não. Pelo menos nunca o suficiente para sair da inércia. Sou uma pessoa muito ansiosa em geral, e isso já me deu muitos problemas de saúde: todas minhas gastrites nervosas que o digam. E, então, perceber que pelo menos para algumas coisas eu fico em paz, mesmo quando deveria estar ansiosa, me dá uma tranquilidade incomparável.

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Mas então por que decidi terminar finalmente a série?

Bom, tem três motivos graduais, passados tantos anos:

  1. Eu havia finalmente me tornado uma leitora.

Eu só comecei a ler mais no ensino médio; mais especificamente, a partir do terceiro ano do ensino médio (era 2005). Lembro-me de ver pessoas no colégio lendo os livros em inglês, inclusive. Pessoas que às vezes eram péssimos alunos, mas que estavam tão ávidos para saber da continuação da história que me impressionaram lendo aquele livro volumoso em inglês!

Mas já havia passado muitos anos, e eu não tinha lido mais nenhum, e ainda não comprara nenhum livro. Então, mesmo tendo começado a ler, a série do “menino que sobreviveu” não estava nas minhas prioridades de leitura. Assim, só ter me tornado uma leitora, não bastou.

2. Eu havia me casado e ganhado a série de livros completa do meu marido.

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Ok, terminei o ensino médio, depois a faculdade, me formei e comecei a trabalhar. Ou seja, muitos anos se passaram. E mais alguns anos ainda, eu me casei e meu marido me comprou a série completa de Harry Potter. Agora vai! Certo?

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Bom…… se o problema era que eu era uma pessoa inerte, então finalmente ter os livros a um palmo de distância de mim resolveu o impasse, certo? Certo… em partes. Claro que eu havia me comprometido a lê-los, pois realmente, não havia mais nenhum impedimento. Mas eu não os li logo de cara, e nem os devorei um atrás do outro. Na verdade, eu não os li até o terceiro e verdadeiro motivo, que é o de baixo. Sempre havia outros livros em prioridade na lista de leituras, ou quando terminava um, não queria ler outro tão logo em seguida. Queria poder ler outros livros, porque também tinha o compromisso de fazer vídeos de review de livros para um canal do YouTube, e não ia fazer sobre Harry Potter. Afinal, todo mundo já conhecia a série e então eu não podia me dar o luxo de só ler Harry Potter. Até porque, diferente de muita gente, embora hoje eu goste muito de ler, ainda leio os livros no mesmo ritmo de antes, como já disse um pouco à cima. Em média, eu levo 05 dias para ler um livro. E com Harry Potter não foi diferente.

3. Eu acabei visitando o Parque do Harry Potter, na Universal Studios de Orlando- FL

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Quando minha família decidiu passar o natal (de 2016) nos Estados Unidos, meus irmãos trataram logo de encaixar  na programação um dos parques da Disney e também os dois parques da Universal Studios. Claro que eu e meu marido quisemos ir junto. Então nós compramos ingressos para os parques. Fizemos 2 dias de Universal, um parque para cada dia.

A estratégia da Universal é bem inteligente, em termos de “como ganhar dinheiro”. Há coisas de Harry Potter em ambos os parques. E se você quiser ver tudo, e ainda andar por tudo, vai precisar de dois dias para aproveitar bem. E claro, sempre tem aquele “combo”, comprando dois dias de ingresso sai mais barato que comprar apenas para um dia. E é impossível fazer os dois parques num único dia. Não tem sentido comprar para um único dia.

Mas então, eu finalmente fui ao parque. E eu ainda não havia lido nenhum dos livros. Sim, nenhum. Tudo bem eu havia lido os dois primeiros, como eu disse para vocês, já que li eles na época certa. Mas, mesmo depois de já ter ganho os livros do meu marido, e ter decidido lê-los, já que íamos aos parques do Harry Potter, eu já tinha voltado de viagem e ainda não tinha lido.

Mulher, qual é o seu problema?

Na minha vida, quando nem a quebra da inércia resolvia, outra coisa sempre resolveu: vergonha.

Sou uma pessoa não só tímida. Acredito que de tímido, todo mundo tem um pouco, para algumas situações específicas ao menos. Mas não se trata apenas de timidez. É vergonha! Vergonha é um sentimento que nos invade como uma sensação de estarmos fazendo algo errado, imoral ou pecaminoso. É mais que um rubor nas maçãs do rosto, é querer fazer algo a respeito do sentimento dentro de nós que nos consome: cavar um buraco até a China e sumir – o famoso “queria morrer”. É horrível!

Mas a Vergonha já fez muito por mim. Vou contar um “causo” rapidamente.

Eu roía as unhas quando criança. E mesmo levando bronca, não conseguia parar. Até que eu comecei a fazer inglês com pessoas um pouco mais velhas que eu, pois eu acabei entrando na mesma turma que meu irmão mais velho. E as meninas lá estavam em outra fase da vida, enquanto, por mim, eu ainda estaria brincando de Barbie. Na sala, eu me recordo muito bem, havia uma garota linda, e que estava sempre com as unhas impecáveis, esmaltadas, geralmente de vermelho. Um dia, do nada, quando olhei para aquelas unhas perfeitas, brilhantes e vermelhas, e depois olhei para as minhas, ou o que restava delas, carcomidas, nossa, aquilo me consumiu de vez. Eu fiquei constrangida com a feiura dos meus dedos. E logo a feiura pareceu me cobrir o corpo todo. Eu me senti feia. Mas não era uma questão de autoestima. Era uma vergonha, por um comportamento que me pareceu de repente muito errado. E a partir daquele dia, eu nunca mais roí as unhas.

E sim, então voltando ao Harry Potter, só a vergonha resolveu. Eu fiquei com vergonha de ter me comprometido a fazer algo e não o ter feito. Eu fiquei com vergonha de que havia ido ao parque, como uma fã, mas que nem conhecia de verdade aquele universo de fantasia criado. Eu me senti uma farsa. E pior, eu me senti mal, porque sei que teria aproveitado muito mais o parque se já soubesse da história completa. E só então, em janeiro de 2017, é que comecei a ler os livros. E ainda, do jeito descrito acima. Mas terminei! E adorei. Chorei nos momentos que tinha de chorar, ri muito nas horas que deveria rir, e decidi até que a série deveria se chamar Hermione Granger, que aliás hoje eu a considero uma das personagens que mais admiro. Claro que me arrependi, como sempre, de não ter lido os livros antes. Nem precisava ter sido entre os anos de 2000 e 2007, apenas antes de dezembro de 2016. Mas também nunca fui de chorar pelo leite derramado.

 

Eu só espero não ter que novamente passar por 3 longas etapas parecidas para finalmente fazer algo que vá me trazer algo de bom, entendem?

Hoje eu me considero finalmente uma fã de Harry Potter, com orgulho. Passados 20 anos, não foi apenas a série que marcou a mudança de uma geração. Afinal, muitos adolescentes passaram a se interessar pela leitura graças à J.K. Rowling. Mas eu também mudei. Não por causa dela, infelizmente, já que eu perdi toda essa transformação da literatura infanto-juvenil na hora certa, mas porque vendo pelos meus olhos de adulta de hoje, eu amadureci. Ter lido Harry Potter com uma cabeça adulta pode não ter criado em mim o mesmo sentimento de nostalgia que invade essa geração, mas ao menos me faz perceber que, mesmo fora do tempo, sempre é possível apreciar uma boa história, e que posso afirmar que Harry Potter é um legado também para as próximas gerações.

 

2 comentários Adicione o seu

  1. Monica disse:

    O seu post ē inspirador como sempre!!!
    Desculpe por não ter comprado os demais volumes. Acho que na época estava chegando em RO e muitas mudanças ocorreram.
    Fico feliz que tenha concluído a leitura deles.

    Curtido por 1 pessoa

    1. meisauedaoh disse:

      Já falei que não é culpa sua, hahaha ❤️
      E sim. Foi bem na época das grandes mudanças mesmo.

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