Traveling Practice – Yusuke Norishiro

Um escritor e sua sobrinha, Abi, partem numa jornada pela zona rural do Japão durante a pandemia da Covid-19. Ele é um escritor que descreve paisagens, e somos agraciados com essas descrições ao longo da narrativa. Ela, uma jovem que acabou de prestar seus exames para ingressar no Ensino Fundamental II japonês (junior high school) e pode finalmente focar no que mais gosta: futebol. Tanto que o único exame de admissão que ela prestou era para uma escola particular com boa reputação no programa de futebol feminino.

Antes do período de provas, durante as férias de verão, Abi foi para um acampamento de treino de Futebol em Kashima, e lá ela pega um livro da biblioteca e não o devolve. Com peso na consciência, ela conta a seu tio que precisa devolvê-lo, mas sem levantar suspeitas em seus pais. O tio concorda em irem até Kashima devolver o livro, e se decidem por uma data que haverá uma partida de futebol com o Kashima Antlers vs Kashima Reysol. Mas então vem a pandemia, e com ela, o anúncio de que, para evitar a disseminação de novo coronavírus, as escolas permanecerão fechadas. Escolas, clubes, torneios, todos cancelados.

Mas o tio tem uma sugestão para ainda assim irem até Kashima: uma viagem de treinamento. Eles irão andando até Kashima, margeando o Rio Tone, ela driblando a bola ao longo do dia, com a condição de pararem de tempos em tempos para que ele possa se sentar e escrever um pouco. É, portanto, essa a jornada deles, uma viagem para ambos praticarem suas atividades.

“So we keep doing this ‘til we reach Kashima?” (Tradução livre: “Então a gente vai fazer isso até chegar em Kashima?”)

“Yep, walking, writing, kicking.” (Tradução livre: “Sim, caminhando, escrevendo, chutando.”)


O livro tem uma cadência mais lenta, dada a proposta de retratar com profundidade a caminhada de ambos rumo a Kashima. É o trajeto o que mais importa, embora o destino seja uma espécie de conquista. Eu quis ler essa história justamente porque esperava encontrar essa leitura mais introspectiva e reflexiva. Eu gostei muito de ir conhecendo as paisagens do Japão pelas descrições cuidadosas do tio, que aliás, é o narrador. Gostei tanto dessa questão de sentar-se e escrever o que os olhos veem no momento, que o livro me levou a também criar meu diário de leitura. Não escrevo todos os dias nele, mas quando leio em casa, fica mais fácil de simplesmente abri-lo e anotar algum pensamento que me veio à mente durante alguma passagem de um livro.

Abi também é uma grande apreciadora de “omurice”, um prato típico japonês que leva gohan (arroz glutinoso), ovo (omelete), ketchup, frango e ovo. Ela come com tanto gosto que eu fiquei realmente curiosa pelo prato e fui atrás de receita, mas ainda não tive a oportunidade de testá-la. Enfim, essas pequenas coisas em histórias com cenários, cultura e gastronomia diferentes da minha realidade são talvez o que eu mais goste de aprender quando vou atrás de livros com essa vibe de literatura de viagem, ainda que fictícia.

De uns tempos para cá também comecei a me interessar muito por ler livros que se passem durante a pandemia da Covid-19. Em um mês, li duas ficções que se passam, pelo menos em parte, durante a pandemia da Covid-19. É um tempo que para mim ficou congelado, ainda que eu tenha vivido um dos momentos mais especiais da minha vida. Ganhei meu filho, acompanhei-o ao lado do meu marido ininterruptamente por 2 anos, até que as atividades presenciais foram retomadas. Mas voltar toda minha preocupação e meu olhar em cuidar daquela nova vida que saiu de mim também me deixou um pouco alheia ao mundo lá fora. E acho que me esqueci um pouco da realidade. Então essas leituras vêm preenchendo um pouco esse bloqueio. Consigo visualizar outras pessoas também passando por esse mesmo período, mas sendo afetadas de formas diferentes.

Aqueles foram tempos de muitas incertezas. Pelo menos pra mim foi. E a história de Abi e seu tio foca num objetivo claro e simples, dadas as circunstâncias. E acho que foi assim que muitas pessoas conseguiram levar suas vidas nesse período, pensando apenas em um dia de cada vez, tendo metas diárias pequenas, objetivando algo um pouco maior, nada muito ambicioso, mas desafiador o suficiente para se poder pensar num amanhã.

Ao final, o livro me derrubou. Houve uma calmaria, um sentimento de superação e amadurecimento, sobretudo de Abi, mas o plot-twist inesperado me pegou realmente desprevenida. Eu posso não ter nem amado e nem favoritado o livro, mas posso afirmar que ele mexeu muito comigo e eu sinto que saí outra pessoa depois dele. Eu o recomendaria para pessoas que gostam de narrativas mais descritivas ou como eu, de literatura de viagem, ou talvez de esportes.

Foi muito legal conhecer mais sobre o Zico, aliás, um ex-jogador de futebol brasileiro, conterrâneo dessa leitora que vos escreve. Famosíssimo, e entendo porque ele é tão querido no Japão. Eu realmente não esperava vê-lo no livro. Uma boa surpresa.

Gostaria apenas que o livro tivesse um mapa, mostrando o percurso de Abi e seu tio até Kashima, porque eu acabei recorrendo inúmeras vezes ao Maps para tentar entender melhor o trajeto, já que só disponho da imaginação e zero conhecimento pessoal sobre reconhecimento do local. Também senti falta de divisões em capítulos no livro, mas isso já é uma questão de gosto pessoal.

No geral, o livro me causou uma impressão muito boa. A capa é muito linda, e ilustra uma espécie de ave que aparece volta e meia na jornada de Abe e seu tio. Fiquei muito reflexiva, principalmente ao final da jornada de Abi e sobre a forma como seu tio escolhe narrar a história dessa viagem.


Dados Técnicos do Livro*:
  • Autor: Yusuke Norishio
  • Editora: ‎Honford Star, 17 de julho de 2026
  • Idioma: Inglês
  • Tradução para o Inglês: Takami Nieda
  • E-book para Kindle: 142 páginas
  • Tamanho do arquivo: ‎1.8 MB
  • ISBN-13: ‎978-1915829375
  • ASIN: ‎B0GNTQWC87

Este livro foi lido através da plataforma NetGalley, tendo como única contrapartida meu feedback para publicação no NetGalley. A resenha será postada aqui em português (mas facilmente convertida em inglês por meio de tradução pelo Google, a quem interessar), e lá no NetGalley propriamente, diretamente em inglês.

*Os dados referem-se à edição e-book para Kindle, lançada no Reino Unido – já disponível para compra também na Amazon BR.

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