Trechos de Fantasmas, de Daniel Munduruku

Quando um livro é pequeno mas recheado de passagens que a gente quer marcar, a gente sabe que seu verdadeiro peso não corresponde à carga exercida sobre nossas mãos.

Eu comecei o livro em casa, e depois, por conta do feriado, transportei-o junto comigo para a casa da minha mãe, mas me esqueci de carregar também as flags que eu amo usar para marcar meus trechos favoritos nos livros. Então, ele ficou apenas metade destacado. Ainda assim, são muitas as passagens, considerando que o livro tem somente 144 páginas. Selecionei algumas delas para compartilhar com vocês, e assim, quem sabe, incitá-los a lê-lo também.


Sinopse:

“Fantasmas” aborda, de modo parcialmente epistolar, a história de um jovem indígena que se encontra preso. Ele escreve a seu advogado, o Dr. Salomão, para que este consiga trabalhar melhor na defesa de seu cliente, tentando entender sua visão de mundo e suas motivações. Mas a verdade é que o jovem indígena já perdeu muito. Toda a sua gente, sua terra. Para ele, não existe vitória. Por outro lado, o advogado passa a enxergar sob outra lente, sobretudo quanto à nossa noção de justiça e leis, de uma forma diferente, o que talvez acenda uma chama nos corações da nossa chamada “civilização” quanto à imperiosidade do respeito aos povos originários. Na orelha da capa do livro, a antropóloga Maria da Conceição de Almeida destaca ainda que a obra “reivindica uma política de respeito mútuo entre povos de origens distintas, demarcando uma posição contra todos aqueles que agem para dizimar povos, culturas, saberes e práticas milenares”.


Excertos:

“[…] não sabia se eram homens ou monstros. Depois descobri que eram as duas coisas juntas no mesmo corpo. […] as outras histórias que ouvi e vivi com pessoas iguais ao senhor nunca me deixaram dúvidas de que um mesmo corpo pode hospedar o bom e o ruim dentro dele.” p. 12

“Meu avô me ensinou que a palavra não tem volta, ela só tem ida. Quando alguém quer desdizer o que já foi dito, é como fazer a palavra voltar pro começo. Isso não é possível, doutor.” p. 20

“Nossa gente quer terra. Não terra para chamar de sua, mas para se enterrar nela como parte do seu ser. Quando a gente mergulha na terra, a gente passa a fazer parte dela pra sempre.” p. 30

“Vocês não olham a natureza com os mesmos olhos que nós. Vocês aprenderam a ser donos dela. Quando a gente é dono de alguma coisa dá a impressão que tudo foi criado para servir a gente. Tudo fica menor e tudo poder ser explorado.” p. 33

“Mãe que carrega o filho perto do peito não é apenas para ter facilidade quando a criança tem fome, mas é pra que aquela pessoinha sinta a batida do coração e nunca mais perca essa lembrança quando se sentir sozinha no mundo, ou com saudades de casa.” p. 41

“Depois que a gente se descobre parte deste mundo, a vida da gente passa a ser pura ação. A gente tem que agir para que as coisas ganhem sentido.” p. 48

“Tem vezes que os humanos não conseguem dialogar com eles mesmos e nem com os outros seres que habitam nosso planeta. Talvez seja por isso que os fantasmas se sentem poderosos, achando que são donos de tudo. Chegam até a acreditar que existe um plano de alguma divindade que os deseja ver ricos e poderosos. Justificam a injustiça de uns terem mais que os outros como vontade divina.” pp. 60-61

Espero que essas passagens tenham de alguma forma tocado vocês que se dispuseram a ler até o fim. Se não como forma de incentivá-los a ler o livro também, pelo menos para que a reflexão encontre moradia em vocês. E para quem ficou curioso pela escrita de Daniel Munduruku, encontrei este texto dele: A literatura indígena não é subalterna.

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Dados Técnicos do Livro:
  • Autor: Daniel Munduruku‎
  • Editora: ‎Record, 3ª edição (20 de outubro de 2025)
  • Capa Comum: 144 páginas
  • ISBN-10: ‎8501924342 – ISBN-13: ‎978-8501924346

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