O peso da Inexistência – Amélia Greier

Ao vasculhar sites por vagas de emprego, uma mulher se vê esvaziada de qualificações, e depara-se com a tela que solicita seja preenchido um título para o envio de seu formulário. Porém, assim como milhares de mulheres no Brasil, e mundo afora, ela sustenta o lar com inúmeras qualificações e títulos invisíveis ao mercado. São mães, esposas, noras, cozinheiras, trabalhadoras domésticas, cuidadoras, etc. Uma infinidade de funções que poderiam preencher uma página inteira, mas que ainda assim as assombram com dúvidas e frustrações ao se sentirem invisíveis em seus papéis.

Em “O peso da Inexistência”, acompanhamos uma família em que a mulher, anônima aos leitores, faz-se gigante em seu protagonismo. Ela é sim a mãe de João, Pedro e Bruno, e esposa de Carlos. Mas é sobretudo ela que, em meio à turbulência da instabilidade financeira em que vivem, segura as pontas. Carlos acaba de perder seu emprego, e entre tentar fechar as contas da casa, manter todos emocionalmente seguros, ela também anseia por encontrar seu lugar no mundo, vivendo, claro, como é corriqueiro entre as mães, culpando-se por ter de deixar seus filhos em troca de um ganha-pão.

Há uma tensão constante na história, ainda que, lembremos, esse seja o cotidiano de muitas famílias brasileiras. Pequenas ocorrências que, somadas, totalizam um problema difícil de ser ignorado. As pequenas alegrias também estão presentes, claro, mas nem todas as famílias têm o privilégio de deixar-se contagiar por elas. Aliás, se tem um ponto decisivo nessa história, é que nossa protagonista mantém a família unida e estruturada; o que muitas vezes, é a parte mais difícil num lar que diariamente resiste às incertezas do amanhã. Aproveito aqui para deixar uma reflexão. Na maioria dos lares, quando tudo parece implodir e o caos se instala, quem é a pessoa que geralmente não pode se dar o luxo de simplesmente se retirar e recolher-se até a tempestade passar? Eu adoro que há uma cena muito clara na história que retrata esse recolhimento do homem, enquanto à mulher, sobra o verdadeiro malabarismo de equilibrar todos os pratinhos: acolher os sentimentos dos filhos, arrumar a bagunça, pensar soluções para a falta de dinheiro, e até permitir que o marido se recomponha emocional e psicologicamente. Mas, afinal, quem cuida daqueles que cuidam?

Numa visão mais geral da história, então, assistimos angustiados à ilusória mobilidade social da família. Há dias em que as corridas de Carlos e as encomendas de doces da esposa lhe rendem o suficiente para garantir um belo almoço com bife para todos. Mas há muitos dias de escassez que cada entrada na conta só diminui infimamente o saldo devedor. Quando um deles consegue um emprego, os meninos podem voltar para as aulas de inglês, somente para dali a um tempo, terem de abandoná-las, porque tornam-se um luxo impensável. E cresce, principalmente, na leitora um desgosto incrível pela expressão “fiz o que pude”.

A escrita também deve agradar aos leitores que, assim como eu, atentos ao bom emprego da gramática, deleitam-se com as estruturas que constroem a narrativa. A vida é incerta, mas a gramática é rigorosa. Esta tem alicerces firmes, e, aliada à semântica, as qualificações que a protagonista não encontra para si são preenchidas pelo sensível arranjo das palavras da autora.

“Uma função. Uma qualificação. Uma palavra chamativa qualquer! Nada. Seu coração batia mais rápido do que o ritmo da barra piscante, mas nenhuma letra ousou aparecer. É difícil enumerar predicados, quando o mundo a fez oculta e você não é, sequer, sujeito.”

A composição, que parece se repetir na labuta incessante do dia a dia, abre constantemente espaço para as inquietações na mente da mulher, não deixando que nossa protagonista se perca em meio ao que ela chama de “trabalho de Sísifo”. Se ela sente sua existência ignorada em tantos momentos, não é assim que nós leitores a tomamos. E no final, ela não decepciona nos decepciona, pois sua presença é mais forte que nunca. Recomendo muito a leitura.


Dados Técnicos do Livro:
  • Capa comum‏: ‎146 páginas 
  • Editora: ‎Podletras, 1ª edição (13 de outubro de 2025)
  • Autora: ‎Amélia Greier (Carolina Frutuozo)
  • ISBN-13: ‎ 978-6501146744

Deixe um comentário