Resenha: Haru e Natsu – As Cartas que não chegaram – Sugako Hashida

Oi, gente! Tudo bom?

Hoje, dia 18 de junho, comemora-se o Dia da Imigração Japonesa. Em 18 de junho de 1908, há 110 anos, portanto, chegava ao Brasil, no Porto de Santos, o primeiro navio com imigrantes japoneses, o famoso Kasato Maru, com 165 famílias japonesas a bordo.

Muitas outras famílias de japoneses foram chegando ao Brasil depois disso, com certa irregularidade, porém, principalmente nos períodos de Grandes Guerras Mundiais.

A maioria dos japoneses que veio ao Brasil tinha o intuito de fugir da pobreza extrema que assolava o Japão. Muitos vieram com a ideia fixa de que em poucos anos de trabalho como colonos no Brasil, conseguiriam juntar dinheiro e voltar para o Japão economicamente restabelecidos. A verdade é que a maioria dos que vieram nunca voltaram ao Japão. E infelizmente, também, muitos japoneses, lá no Japão, se esqueceram desse difícil período pelo qual o Japão passou.


Pensando nessa data comemorativa, resolvi, então, trazer a resenha de um livro que considero muito especial.

Eu já havia dito que falaria dele, no post dos biscoitinhos amanteigados, lembra? (clique aqui para vê-lo).

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Pois bem, finalmente lhes falo de verdade um pouquinho de Haru e Natsu – As Cartas que não chegaram.

Em primeiro lugar, quero ressaltar que o livro se trata de uma adaptação do roteiro original que foi utilizado na filmagem da minissérie homônima. Em comemoração ao centenário da Imigração Japonesa ao Brasil, a minissérie, filmada no Brasil (Campinas/SP) e no Japão, foi transmitida simultaneamente em 2005 em ambos os países. Considero esse projeto um lindo intercâmbio cultural. Na verdade, trata-se de um projeto cultural pioneiro, pois envolveu um árduo trabalho de ambos os países, com roteiro bilíngue e, em relação à filmagem em si, foi um feito inédito na história cultural Brasil-Japão.

Outra coisa, que acho muito importante frisar, é que a tradução do livro foi dedicada à Tomi Nakagawa, que em 2005 era a única imigrante vinda no Kasato Maru (1908) ainda vida. Tomi Nakagawa faleceu em 13 de outubro de 2006, e infelizmente não chegou a ver as comemorações do centenário. De todo modo, achei a homenagem linda.

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Outra coisa que vim a descobrir só mais recentemente (já é a segunda vez que leio o livro), é que uma parente minha trabalhou na edição dele (mais especificamente na capa), então, se antes eu já tinha gostado do livro de um modo geral, agora, tenho um sentimento de carinho ainda maior por ele.


A Grande Depressão afetou a economia mundial, como é de nosso conhecimento. No Japão, os efeitos da crise de 1929 também foram sentidos: as taxas de pobreza e desemprego no país aumentaram de forma drástica, e, como toda crise, afetou mais os de classes mais baixas. Além disso, a população rural no Japão ainda vinha se recuperando de uma recessão crônica desde 1918.

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A história fictícia de As Cartas que não chegaram vai retratar justamente uma família de japoneses que decide deixar o Japão por um tempo para trabalhar nas lavouras de café no Brasil e, assim, conseguir se recuperar financeiramente e voltar a ter uma vida digna no Japão.

Prometia-se, à época, que num período estimado de três anos, a família conseguiria juntar dinheiro o suficiente para voltar “rico” ao Brasil. O próprio Japão tinha uma política emigratória e estava enviando japoneses ao Brasil. Assim, aqueles que decidissem partir, nem sequer despesas teriam.

Impulsionados por essa promessa, a família Takakura decide emigrar para o Brasil. Porém, ainda no Porto de Kobe, a família Takakura, composta de 8 membros que iriam emigrar, viu-se obrigada a ter de deixar Natsu, a mais nova da família, para trás. O Brasil não estava aceitando imigrantes com problemas sérios de saúde. Natsu, de 7 anos apenas, estava com tracoma, e foi barrada ainda no Japão. A família, sobretudo Haru, sua irmã mais velha, que era sua grande protetora e amiga, havia prometido a Natsu que voltaria ao Japão após 3 anos, e todos voltariam a ser felizes novamente. Mas a promessa não é cumprida, por inúmeras razões, e as irmãs se veem apartadas por longos 70 anos.

O livro inicia-se já com o reencontro delas, após estes 70 anos de separação, com muitas tristezas, mágoas, ressentimento e culpa acumulados em seus corações.

Natsu, que fica no Japão, como já adiantei para vocês no post dos biscoitinhos amanteigados, vem a se tornar presidente de uma das maiores indústrias de doce no Japão. E qual não é a surpresa de Haru ao tomar conhecimento deste fato? Ficou curioso sobre esse encontro? Bom, leia o livro!

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Esta é, sem dúvida, uma história muito emocionante. Eu chorei da primeira vez que li e chorei de novo, ao relê-lo. Quis ler o livro pela segunda vez para poder trazer minhas impressões sobre essa linda história de forma mais viva para vocês.

De um modo geral, sei que houve muitas outras imigrações, mas, por ser descendente de japoneses, a que eu tenho realmente mais familiaridade é com a desse povo do “Sol Nascente”. Na minha família mesmo há histórias emocionantes sobre a vinda dos primeiros membros ao Brasil, então, de certa forma, eu me vejo fazendo parte de uma longa cadeia histórica, e isso é muito gostoso. Não entendo pessoas que não se interessam pela história de seus antepassados. Afinal, viemos todos de algum lugar. Assim, ler a este livro me faz pensar em todos os desafios enfrentados pelos meus bisavós, que foram os primeiros de minha família a virem para o Brasil, e me fez situar, de alguma forma, na história do mundo.

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Embora se trate de uma história fictícia, nota-se uma pesquisa profunda para sua escrita, para dar ares de veracidade e conscientizar tanto os brasileiros e os japoneses das dificuldades enfrentadas pelos imigrantes japoneses aqui no Brasil.

Logo de cara, havia o empecilho da língua, muito diferente para os japoneses; a maioria nem sequer sabia ler o alfabeto ocidental quando chegou, e aqueles que vieram com a firme convicção de que logo voltariam ao Japão, ludibriados de certa forma, e não fizeram questão de aprender o idioma português, foram os que mais sofreram. Também, com o fim da segunda guerra mundial, houve um verdadeiro conflito entre os imigrantes japoneses que levou muitos deles à morte, uma verdeira guerra entre eles: os que acreditavam que o Japão tinham ganhado a Guerra (Kachigumi), e os que aceitavam a derrota do Japão (Makegumi). Foi um episódio bem triste e sangrento entre os imigrantes japoneses, e que não passa batido no livro Haru e Natsu.


Como houve também a minissérie, que foi transmitida simultaneamente no Japão e Brasil, foi a primeira vez, de fato, que muitos japoneses tomaram conhecimento da situação precária e sofrida que levavam as famílias que vieram para o Brasil trabalhar nas culturas de café. Nós brasileiros temos algum conhecimento, porque temos colônias enormes de japoneses por aqui e sempre ouvimos suas histórias. Na minha cidade, inclusive, brincamos que basta olhar para o lado para vermos japoneses. Mas muitos japoneses que ficaram por lá, tinham uma impressão totalmente errônea dos que emigraram. Achavam-nos sortudos e felizardos, traidores da pátria, dentre uma série de coisas. Não conseguiam entender, por falta até da possibilidade de comunicação entre os próprios parentes, cada um de um lado do globo terreste, das dificuldades que passaram as famílias no Brasil. Então, creio que tenha sido uma experiência cultural muito importante, tanto a transmissão da minissérie como a adaptação para livro, em japonês e português. Hoje, assistimos a um fenômeno em rota contrária, de brasileiros indo trabalhar no Japão. Mas, a história nos mostra que o passado foi diferente.

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No livro tem esse mapa bem interessante, sobre as rotas dos imigrantes japoneses ao Ocidente

Independentemente da sua descendência, é um livro muito interessante, e que recomendo muitíssimo. A história é envolvente, muito rápida de se ler, e escrita de uma forma muito informativa. Mas, se você tem coração, prepare-se para lágrimas.

E, se você também conhece algum livro de ficção que fale sobre a imigração japonesa, ou até de outros povos que vieram ao Brasil, por favor, comente embaixo. Vamos compartilhar as histórias de nossos antepassados, vamos descobrir mais sobre as pessoas que fizeram e fazem nosso Brasil!

E, por fim, feliz 110 anos da imigração japonesa!


Informações adicionais sobre o livro:

Capa comum: 410 páginas

Editora: Kaleidos-Primus; 2005

Título Original: Haru to Natsu: todokanakatta tegami

Tradução: Masato Ninomiya e Sonia Regina Longhi Ninomiya

*Comprei meu exemplar num sebo aqui em Londrina. Caso se interesse, você pode procurar no Estante Virtual, ou mesmo entrar em contato comigo. 

 

4 comentários Adicione o seu

  1. Bia Ribeiro disse:

    Que história triste e linda! Obrigada pela dica ❤

    Curtido por 1 pessoa

    1. meisauedaoh disse:

      É linda mesmo, e realmente triste. Muitas lágrimas caíram durante a leitura 😢

      Curtido por 1 pessoa

  2. Monica disse:

    A resenha me faz lembrar das historias que conheco ! E a mais emocionante que conheço é a de minha avo materna.
    Aprendi que a falta de comunicação ou a comunicacao equivocada pode mudar toda a historia de vida de alguém!

    Curtido por 1 pessoa

    1. meisauedaoh disse:

      Sim, a história de sua baachan daria um bom livro também!

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