Resenha: Manhãs Descafeinadas – Fernando Fiorin

Manhãs Descafeinadas é a continuação de Noites Londrinas, do meu amigo e autor Fernando Fiorin. Quem quiser saber mais, já teve resenha do primeiro livro aqui no blog. Mas, só para dar uma mãozinha, vou deixar hoje a sinopse de ambos, pegando o gancho logo em seguida para trazer minhas impressões dessa sequência.

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Sinopse de Noites Londrinas:

Noites Londrinas é um daqueles romances que começam tocando sutilmente o cotidiano que existe à nossa volta, mas, a cada parágrafo, o ritmo vai aumentando, se aproximando cada vez mais do obsceno e do absurdo.  O romance narra a história de Jorge, um homem ambicioso e manipulador que utiliza a influência e poder para adquirir o que deseja de seus clientes e amigos, família e até desconhecidos.

Sinopse de Manhãs Descafeinadas:

Manhãs Descafeinadas mostra a outra face de Londrina, diurna e banhada pelo sol. Tomada por jovens universitários e acadêmicos, que buscam nesta “pequena Londres” um espaço para viver e ser feliz.

No meio desta multidão, se encontra Flávio, um professor universitário idealista e de posições fortes e marcantes, em constante luta contra o conservadorismo e o pensamento  reacionário das pessoas a sua volta, sejam os colegas de profissão ou os amigos mais próximos, tudo isso permeado por suas angústias e limitações. Situações que são pontuadas em seus momentos de crise e desespero. Antes de vencer o mundo e seus inimigos, que carregam defeitos que este considera imperdoáveis e o arrastam para uma situação delirante, Flávio precisa vencer a si mesmo e a falta de confiança que o acompanha e o torna debilitado nos momentos em que mais precisa estar forte para lutar contra o mundo que o tenta engolir em sua roda materialista.


Minhas Impressões do livro:

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Como acho que vocês puderam perceber, o primeiro e o segundo livros são contrastes gritantes entre si, e esse jogo de oposições se dá em praticamente todos os sentidos: nos títulos, nas capas, nos enfoques das histórias, nos personagens e até na linguagem. Se Noites Londrinas foi um livro pesado e repulsivo, Manhãs Descafeinadas é um livro mais leve, com um quê de idealismo, e com espaço até para um pouco de romance. Aliás, a forma como o romance é abordado no livro soa sincera e nada piegas, prova de que bons relacionamentos na ficção (e na vida real também) não são nem complicados, nem espalhafatosos. Um tema muito importante que é abordado no livro, e para o qual deixo todos meus elogios à obra, é o transtorno de ansiedade, uma condição de saúde mental que Flávio, o protagonista, precisa lidar cotidianamente. O título, assim, se torna autoexplicativo ao longo da leitura, já que tomamos conhecimento de que Flávio não ingere café ou outros estimulantes por recomendação médica.

Flávio, ao reencontrar Jorge (que é o protagonista do primeiro livro), tem um motivo a mais para se sentir perturbado e ansioso, e, assim, sua luta diária contra a ansiedade ganha um novo tom de desafio, fazendo com que o leitor siga lendo o livro até o fim, sem largá-lo.

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Sou uma pessoa que deixou de acreditar na humanidade há algum tempo, mas que se mantém crente nas pessoas que ainda têm fé na humanidade, se é que eu me fiz compreendida. A questão é: mesmo que eu me enquadre na categoria de pessoas não-pessimistas, confesso que gostei mais do primeiro livro. Por quê? No primeiro livro fui consumida pela raiva (e me perdoem, mas só alguém muito, muito mau caráter o terminaria de ler e aprovaria o desdobramento da história), mas me atraiu bastante a ideia geral do livro, como uma construção fictícia crítica e atenta à realidade. E muito embora o segundo livro também não termine em confetes e arco-íris, ainda assim sua história é menos atraente, mas essa é uma crítica apenas em termos de criatividade.

Já deixei meus elogios quanto ao foco na saúde mental do personagem, mas há outros pontos positivos no livro. Um deles é o destaque da própria companheira de Flávio, sua namorada Júlia. Achei muito bom que o livro traga uma companheira compreensiva e que, no final das contas, encare a doença de Flávio como algo completamente normal. O mundo precisa de mais pessoas assim, sem preconceitos e com mais amor. Outra grande sacada de Fiorin foi mostrar que não devemos ser maniqueístas — fazendo, creio eu, uma crítica ao cenário político atual —, lembrando também que todos nós carregamos nossas luzes e nossas trevas, e que ninguém é inteiramente bom ou inteiramente mau.

O projeto gráfico do livro, que não poderia deixar de falar, ficou lindíssimo! De encher os olhos de qualquer leitor e também foi bastante elogiado já no Instagram quando fiz a divulgação da leitura.

Por fim, e apenas por questão de coerência, como critiquei duramente a revisão do primeiro livro, deixarei aqui também minhas observações quanto à de Manhãs Descafeinadas. Realmente, melhorou bastante, mas ainda não está perfeita. Creio, porém, que quem quer se tornar um escritor por profissão e não por hobby tem toda uma trajetória a se percorrer, e, sim, Fernando, você se encontra nela. Espero sinceramente que continue escrevendo, porque há um trabalho de lapidação em andamento, e haverá sempre uma história sua, tenho certeza, que mereça ser contada. Ter um professor como protagonista é algo que eu desejava muito ler com uma frequência maior, e se foi possível eu ter essa experiência novamente foi graças a esse livro, portanto, não deixe de escrever e nos mostrar mais trabalhos assim. Todo mundo tem uma história que precisa conhecer. A próxima delas sempre pode ser a sua.


Curiosidades:

Ambos os livros se passam na cidade de Londrina/PR, minha terra natal e residência atual. Ler histórias que se passam na minha cidade sempre dão um gostinho extra de nostalgia e pertencimento. Em Manhãs Descafeinadas, o que mais gostei foi de ser transportada para minha adolescência e época da graduação, quando ia muito a alguns dos lugares citados no livro: os sebos do centro da cidade, o calçadão, o Kiberama, a UEL (Universidade Estadual de Londrina); realmente, são essas coisas que nunca mudam que fazem Londrina ser lembrada como Londrina.

Fernando Fiorin é formado em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Londrina e Doutorando em Educação pela USP. É professor de Ciências, Pesquisador e Escritor.


Informações adicionais sobre o livro:

Capa comum: 117 páginas

Editora: Madrepérola – 1ª edição (2019)

ISBN-13: 978-85-69839-83-5

3 comentários Adicione o seu

  1. Achei bem positiva essa questão do segundo livro ser bem diferente do primeiro, assim tira um pouco aquela cara de livros em série. 🙂 🙂 Gostei tb dessa parte em que os protagonistas dos dois livros de encontram e da abordagem que o autor fez sobre o transtorno de ansiedade. Parabéns pela resenha muitíssimo sincera. 🙂 🙂 ♥

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    1. Isa Ueda disse:

      Sim, eu gostei que não pareceu uma série mesmo hahaha, porque às vezes fica um pouco chato isso de série de livros.
      Obrigada, Gio!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Monica disse:

    Como mencionado, o post remete às lembranças, experiências percorridas na minha cidade natal. Só por esse fato, aguçou a curiosidade de ler o livro!

    Curtido por 1 pessoa

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