S. Bernardo – Graciliano Ramos

[Cortesia do editor]

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Olá, meus leitores lindos!

Hoje compartilho com vocês o segundo livro que li dentre os recebidos graças à minha parceria com o Grupo Editorial Record — GER: S. Bernardo, do escritor alagoano Graciliano Ramos.

Sinopse:

A nova edição de um dos maiores romances de Graciliano Ramos.

No declínio de um atribulado percurso de vida, Paulo Honório, poderoso fazendeiro do sertão alagoano, conta a sua história.

O narrador revisita dramas da sua vida e conflitos internos que permanecem inexplicáveis até o momento em que suas memórias estão sendo escritas. Nem a fazenda S. Bernardo, que Paulo Honório comprou por preço irrisório, nem a professora Madalena, a quem contratou para alfabetizar as crianças do seu empreendimento rural e com quem acaba se casando, deram-lhe o sossego que tanto buscava. A escrita, então, é o que lhe resta, na tentativa de ter de volta a paz desejada.

Da elaborada teia existencial desenvolvida ao longo da trama – com os conflitos entre as visões de mundo incorporadas pelos personagens –, destaca-se um texto riquíssimo, principalmente nas falas de Paulo Honório, construído em metáforas surpreendentes, ainda que disfarçadas pela concretude das palavras.

Este ano, conforme a própria sinopse, a Editora Record veio com um projeto gráfico novo para os livros de Graciliano, e brindou seus parceiros com as novas e belíssimas edições de Angústia e S. Bernardo. Embora eu tenha recebido Angústia antes, fico feliz de ter lido S. Bernardo primeiro, já que, cronologicamente, esta obra foi escrita anteriormente. Em geral, não ligo de ler livros de um mesmo autor fora da ordem cronológica de suas publicações — desde que não façam parte de uma série, claro —, mas Graciliano é um autor consagrado em nossa literatura e que vale um zelo maior nosso quando nos colocamos diante da leitura de suas obras.

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Nem digo isso como uma crítica literária. “Não sou crítica literária, sou leitora”, palavras que tomo emprestada de Camilla Dias. Digo como alguém que tem amor pela potência da escrita, como alguém que ama livros e quer extrair o máximo deles dadas as circunstâncias. Bom, e as circunstâncias são: recebi Angústia e S. Bernardo, e decidi que poderia ser mais interessante ler este primeiro.

S. Bernardo é um romance que foi escrito em 1934, enquanto que Angústia foi escrito em 1936. Muitas águas rolaram nesse ínterim de 2 anos, mas num resumo bastante grosseiro e apressado, é de se destacar que Graciliano foi preso em março de 1936 sob a alegação de ser comunista, em plena Era Vargas, e em agosto do mesmo ano, ainda preso, publica Angústia.

Ciente do contexto em que nasceu a obra S. Bernardo, segundo romance de Graciliano, entendo a importância e prestígio que se dá a ela.

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Paulo Honório, o narrador-personagem, foi criado por pais adotivos; o homem era cego e a mulher, velha Margarida, vendia doces caseiros e deu duro na vida para criá-lo. Na juventude, Paulo Honório se relaciona sexualmente com uma moça (“Germana, cabritinha sarará danadamente assanhada […]”) e acaba matando um rapaz com quem Paulo diz que a moça se engraça. Paulo é preso, e na cadeia, aprende a ler. Posto em liberdade após “três anos, nove meses e quinze dias”, fixa na cabeça a ideia de ganhar dinheiro. Nessa fixação pela riqueza, almeja compras as terras de São Bernardo, o que ele consegue à certa altura da vida, sem escrúpulos para tanto.

Ocorre que, após atingir seus objetivos, passando por cima de tudo e todos, Paulo Honório depara-se com o vazio e tenta encontrar a paz, algum sentido na vida por meio da escrita, ainda que ele não pretenda, com isso, “bancar escritor”.

O livro também me parece carregado de simbolismos: iniciando-se pela divisão de tarefas ao se pôr a escrever o livro, há uma forte carga político-social. A coruja representando a chegada da noite, e seus pios, a insônia, a perturbação. Movido por um ciúmes doentio que sente por sua esposa Madalena, Paulo Honório vai se transformando num monstro, num sentido figurado, mas que ele mesmo caricatura ao constatar que suas mãos são “enormes”, ainda que essa visão se dê de forma exagerada de sua parte.

A linguagem do livro, porém,  ainda é o que mais me impressionou. Não é à toa que a crítica o toma como “a mais importante obra de ficção do movimento modernista envolvendo o regime fundiário e os conflitos sociais do Nordeste brasileiro”. A obra atende reivindicações de autores contemporâneos como Mário de Andrade e Manuel Bandeira, e o próprio Graciliano escreveu à sua esposa que o romance foi traduzido para “brasileiro”¹.

Realmente, estamos diante de uma obra que traz muitos elementos da fala para a escrita, ainda que seja a fala principalmente da região Nordeste. No começo, confesso que senti um pouco de estranheza com o vocabulário, já que fazia muito tempo que não lia algo da nossa riquíssima literatura agreste, mas não foi nada que me impediu de compreender tranquilamente a narrativa. Os capítulos também são bem curtos, o que acaba por deixar fluir naturalmente a leitura e torná-la muito prazerosa,  impelindo o leitor a querer sempre ler “só mais um capítulo”, e assim seguir até o seu fim.

Aliás, a leitura foi tão prazerosa, que só aumentou minha curiosidade pela obra Angústia, além de uma possível releitura de Vidas Secas, que ficou apenas na memória dos meus tempos de ensino médio.

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Não sei vocês, mas eu gostava muito das aulas de literatura na escola, mas foram bem poucos os livros daquela época que reli hoje, com um olhar adulto: O Ateneu e Memórias Póstumas de Brás Cubas são os que me vêm à tona agora.

Este ano me propus a ler mais livros nacionais, principalmente contemporâneos, mas não vejo problema algum em adentrar os grandes nomes de nossa literatura moderna.

Você se interessa pelos livros da nossa literatura? Ainda que seja mais acessível, em todos os sentidos, a literatura contemporânea, há algumas obras da escola moderna cuja leitura valem uma chance. S. Bernardo é uma delas.


Nota:

¹ Posfácio por Godofredo de Oliveira Neto, em S. Bernardo.


Informações adicionais sobre o livro:

Capa comum: 287 páginas

Editora: Record – 102ª edição (2019)

ISBN-13: 978-85-01-11619-2

 

6 comentários Adicione o seu

  1. Já tinha visto esse livro, mas não sabia nada dele. Parece bem brasileiro, mesmo, e do melhor.
    Suas resenhas parecem estar sendo cada vez melhor escritas.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Isa Ueda disse:

      Depois dessa leitura, que foi apenas minha segunda experiência com Gracialiano Ramos, posso afirmar: é realmente parte do melhor da literatura brasileira, e, ouso até dizer, mundial. Deveríamos ler mais nossos clássicos. Agradeço enormemente o elogio! Ainda não me sinto totalmente à vontade escrevendo sobre livros tão importantes assim, mas creio que faça parte dos desafios de quem se aventura por blogs literários hahaha

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  2. Eu nunca tido lido nenhuma resenha de S. Bernardo, pois tenho muita vontade de lê-lo e tinha medo de pegar spoilers. Sua resenha está perfeita, só fez aumentar a minha vontade de conhecer esta história. Parabéns! 🙂 ♥

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    1. Isa Ueda disse:

      Ai, que bom, Gio, eu fico sempre muito preocupada com spoilers, mas ao mesmo tempo com receio de ficar superficial demais. Acho que vc tem que ler mesmo, pq vai gostar! Obrigada ❤

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  3. Monica disse:

    São Bernardo remete ao tempo da graduação e da leitura imposta, martírio para muitos.
    A resenha, por sua vez, aguça o interesse e conduz à leitura. Parabéns!!!

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  4. Oies Isa! Eu simplesmente amo a escrita do Graciliano Ramos, já li “Vidas secas” 3 vezes e é um dos meus livros favoritos da vida ❤ Comprei "São Bernardo" no ano passado, mas não li ainda, estou me guardando para este momento, rs, mas sua resenha me deixou mais interessada ainda! Obrigada! . "Angústia" eu li há uns 2 anos e a sensação é a mesma do título, e demorei mais tempo para conseguir finalizar a leitura. E por fim, estou apaixonada por essas novas edições que a Record bem fazendo ❤ ❤
    Bjos

    Curtido por 1 pessoa

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