A Mística Feminina – Betty Friedan

Pegue seu caderno de anotações, canetas grifa-textos, lápis, post-its e tudo o mais que você se utiliza para leituras que exigem e merecem constantes apontamentos e considerações. Assim será acompanhar as cerca de 500 e poucas páginas de texto de A mística feminina.

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Iniciei a sua leitura sem grandes expectativas; o lançamento do livro pela Editora Record foi bastante comentado e comemorado, mas eu estava bem alheia às razões para tanto. Quando me apresentaram a sinopse do livro, ela me pareceu interessante o suficiente para despertar minha curiosidade e querer lê-lo assim que chegasse em casa, mas só. Até que comecei a ler e fui imediatamente fisgada para dentro de suas páginas.

Você já ouviu falar de A mística feminina?


Sinopse:

“Publicado nos Estados Unidos em 1963, A mística feminina descreveu o “problema sem nome”, resultante de crenças e instituições insidiosas que minaram a confiança de mulheres heterossexuais brancas de classe média, com ensino superior, em sua capacidade intelectual e as mantiveram restritas ao lar. Em uma época em que as mulheres se casavam na adolescência e 60%  das estudantes abandonavam a faculdade para se casar, a autora Betty Friedan, capturou as frustrações e ambições de uma geração e mostrou às mulheres como elas poderiam recuperar a própria vida. Meio crônica social, meio manifesto, A mística feminina é repleta de histórias e entrevistas fascinantes, além de ideias que continuam a inspirar. Esta edição comemorativa de 50 anos de publicação apresenta textos ainda inéditos da autora.”


A necessidade de fazer anotações veio logo no primeiro capítulo. Eu que não gosto de rabiscar e grifar livros (só colar as notas autoadesivas), me rendi, nessa leitura, a essa praticidade, porque A mística feminina acabou se tornando para mim mais um livro de estudo que uma leitura por pura reflexão.

Betty Friedan começou uma pesquisa em 1957 sobre uma insatisfação que acometia mulheres brancas, casadas, mães, nos EUA. Ela mesma sofria seus efeitos, ao se sentir culpada por não passar tanto tempo em casa, como esposa e mãe, quanto poderia se não estivesse fazendo uso de suas habilidades e capacidades para um trabalho que a tirava do lar. Uma insatisfação que, além de demorar a ser vista nesta dimensão séria (por praticamente todas as mulheres dentro deste perfil), também demorou a ser encarado diretamente como um problema real, e quando começou a ser levado a sério, o assunto foi lidado da pior forma possível. Demorou porque cada mulher, esposa e mãe, sofria calada, solitária, sem sentir o eco da mesma insatisfação retumbando entre as outras mulheres nas mesmas condições, e muitas vezes nem sabendo realmente o que estava lhe afligindo. Nesse sentido, a pesquisa de Betty Friedan serviu para mostrar que cada uma dessas mulheres insatisfeitas não estavam sós. Betty Friedan, após iniciar sua investigação, que deu origem a este precioso livro, denomina tal descontentamento de o problema sem nome.

Acho que o parágrafo a seguir, extraído logo do início do livro, é uma ótima forma de não apenas apresentar sobre o quê tratará esta leitura, mas também já fornecer elementos suficientes para que você mesmo(a) possa tentar dar nome ao problema:

“O problema permaneceu oculto, silenciado, por muitos anos na mente das mulheres estadunidenses. Era uma inquietude estranha, uma sensação de insatisfação, um desejo que afligia as mulheres na metade do século XX nos Estados Unidos. Cada dona de casa suburbana lidava com ele sozinha. Enquanto arrumava as camas, fazia compras, escolhia o tecido para forrar o sofá, comia sanduíches de pasta de amendoim com as crianças, fazia as vezes de motorista de escoteiros, deitava ao lado do marido à noite… temia fazer a si mesma a pergunta silenciosa: “Isso é tudo?”.” p. 13

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Chame o problema como você quiser. Afinal, por que estas mulheres padeciam desse mal sem nome? Por que elas simplesmente não iam viver suas vidas também fora dos lares e das obrigações domésticas como mãe e esposas? Por causa de um fenômeno que Friedan chama de mística feminina:

“As respostas dadas por duzentas mulheres a questões íntimas e abertas me fizeram perceber que o que havia de errado não poderia estar relacionado com a educação como ela era concebida na época. O problema e a satisfação em sua vida, e na minha, e o modo como nossa educação tinha contribuído para isso, simplesmente não se encaixavam na imagem da mulher estadunidense moderna como descrita nas revistas femininas […]. Havia uma estranha discrepância entre a realidade de nossa vida como mulheres e a imagem à qual tentávamos nos adequar, imagem que passei a chamar de mística feminina.” p. 9

Assim inicia a proposta do livro, e os próximos capítulos irão se aprofundar em cada uma das questões que conjuntamente contribuíram para a perpetuação da mística feminina e explicar por que era tão difícil simplesmente vencer sua força.

Embora o livro foque num fenômeno que parece exclusivo dos EUA, a verdade é que ainda em muitas sociedades (inclusive na nossa, brasileira), podemos associá-lo a alguns pensamentos e práticas que ainda permanecem. Se você ainda torce o nariz para a expressão “feminismo”, por exemplo, talvez devesse se perguntar se você não é uma das pessoas que perpetua tais pensamentos e práticas que sustentaram por tanto tempo a mística feminina.

O mais curioso é logo de início observar que houve um retrocesso em relação às décadas anteriores à de 1950. Betty Friedan também tece sua interpretação sobre isso, corroborada por muita pesquisa, mas antes de eu me enveredar pelos capítulos que ajudariam a formar uma visão mais completa de todo esse passo para trás, muitos questionamentos já começaram a surgir em minha mente, e foi assim, impulsionada pelo anseio de ver minhas dúvidas esclarecidas que a leitura se moveu de forma muito instigadora e cativante.

Inicialmente, a imagem que foi se formando em minha cabeça era a de que essas novas mães insatisfeitas pelo problema sem nome vinham de famílias cujas mães tiveram muito menos direitos anteriormente, e pelos quais estas tiveram de lutar (direitos de propriedade, de educação superior, de terem empregos, de votar, etc.). E isso gerou um conflito entre tais gerações. As mães dessas novas mães assistiam indignadas suas filhas se casando cada vez mais cedo e estipulando como meta de vida e um sonho a ser realizado o de simplesmente se casar e ter filhos. As novas mães, por sua vez, não entendiam o que mais poderiam almejar: elas tinham um bom marido, filhos maravilhosos, a tecnologia dos eletrodomésticos que tornavam as tarefas dos lares mais fáceis, comidas prontas nos mercados, poder de decisão em pé de igualdade em casa com o marido, e todos os direitos por quais suas mães já haviam lutado; mas abriram mão de pelo menos dois deles: continuar os estudos e trabalhar fora.

Quando finalmente se evidencia que há um problema, o que se percebe é que as soluções, na verdade, parecem apenas gravitar em torno dele. Era mais fácil até falar abertamente de temas como satisfação sexual do que efetivamente lidar com a real frustração das mulheres.¹ As revistas femininas começaram a publicar matérias do tipo “talvez os eletrodomésticos não sejam assim tão eficientes ou eficientes demais”, ou “talvez a longa distância percorrida entre a escola e a suas casas suburbanas seja responsável por essa insatisfação”, e quando Freud entra na jogada e seus adeptos passam a interpretá-lo literalmente, tudo só piora.²

Mas isso tudo é apenas o começo do livro. Entendam que meu objetivo aqui não é esmiuçar capítulo por capítulo e apresentar cada uma das questões levantadas por Betty Friedan. Meu propósito não é de resumir o livro, mas de partilhar minha experiência de leitura e, se possível, instigá-los a lerem-no também, para que vocês possam chegar às suas próprias conclusões e terem suas próprias e singulares experiências de leitura.

A escrita de Friedan é tranquila, e bem acessível. Pode ser que em alguns momentos a leitura se torne um pouco cansativa, por ser recheado de informações e se prestar justamente a provocar uma análise crítica, mas essa sensação enfadonha não se prolonga em nenhum dos capítulos. Mesmo em alguns momentos em que eu iniciava um capítulo um pouco preocupada com o número de páginas ainda para caminhar, quando menos dava por mim, ele já estava chegando ao fim, tamanha minha absorção pelo livro. O que ajuda muito a manter o(a) leitor(a) focado(a) é justamente as inúmeras perguntas retóricas ao longo do livro e que geram, obviamente, essa necessidade constante de atenção e reflexão.

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Esta é uma leitura em formato jornalístico que mistura pesquisas, entrevistas, mas também duras críticas e opiniões — das quais nem sempre compartilho, mas que são em sua esmagadora maioria justas — apresentadas de forma muito coerentes e abordadas numa coesão muito forte entre seus capítulos, e o resultado dessa junção é um ar inegável também de manifesto ao livro. Não é um livro perfeito, e deve-se lê-lo com senso crítico, levando em consideração a época em que foi escrito, pensando em como ele desafiou os padrões da época, mas não esquecer que as opiniões de Friedan apenas se dirigem a uma fatia das mulheres (branca, classe média, suburbana).

No entanto, quem o ler ciente de todas suas imperfeições extrairá dele muitas informações interessantes que constituem um verdadeiro aprendizado e certamente terá muito ainda sobre o que refletir depois.


Notas:

1. E nem me utilizo aqui do “até” com a intenção de tornar o sexo um tabu, mas a fome por sua discussão imprimiu uma camada de tinta tão espessa que inviabilizou que as mulheres realmente buscassem explicações assexuais para suas insatisfações como seres humanos, e que, conforme bem disse Betty Friedan à época:

“[O] sexo nos Estados Unidos da mística feminina está se tornando uma compulsão nacional estranhamente triste… […] Sexo se tornou despersonalizado, visto nos termos [de] símbolos exagerados […]. E, conforme as estadunidenses voltavam sua atenção para essa busca de realização sexual exclusiva, explícita e agressiva, ou a performance dessa fantasia sexual, o desinteresse sexual do homem estadunidense e sua hostilidade para com as mulheres também aumentaram”. pp. 324, 325

2. Gostaria de deixar bem claro que Betty Friedan não questiona a aplicação da teoria freudiana em termos terapêuticos, e que ela ressalta que dizer que tudo começou com Sigmund Freud seria apenas uma meia verdade. Seja como for, ao ser interpretado tão literalmente por supostos especialistas em revistas populares, voltadas para um público que não era em sua maioria formado por analistas, o resultado foi desastroso.


Dados Técnicos do Livro:

Capa comum: 560 páginas

Autora: Betty Friedan

Editora: Rosa dos Tempos; Edição: 1 (23 de março de 2020)

ISBN-10: 8501117587 – ISBN-13: 978-8501117588

Título original: The Feminine Mystique

Edição recebida em parceria com o Grupo Editorial Record.

Adquira o seu exemplar preferencialmente no site da editora.

 

4 comentários

  1. Uau! Já quero!
    Eu li essa frase “Você já ouviu falar de A mística feminina?” e pensei imediatamente em “Você tem um minuto para ouvir a palavra da Mística Feminina, senhora?” hahahaha
    Parece exatamente o tipo de livro de não-ficção que eu amo, meu Deus, necessito!

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  2. Gosto muito de livros que, em geral, abordam os direitos das mulheres e que envolvam o universo feminino. Bem curiosa para ler. ♥

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