Herdeiras do Mar – Mary Lynn Bracht

Quando o título do livro na tradução fica melhor que no original

Herdeiras do Mar é uma ficção histórica, que conta pelos olhos de Hana e Emi os horrores da guerra.

Toda guerra faz muitas vítimas; uma baixa muito além das vidas perdidas por quem a enfrenta no frontão. E é por isso que retratar os efeitos devastadores de uma guerra desconhece um ponto final. Inúmeras são as histórias, fictícias ou reais, que precisam ser contadas. Cada narrativa trazida alcança um pouco mais de justiça por toda a tristeza e crueldade que macula a nossa ridícula passagem, como espécie, pela Terra. 

Hana e Emi são irmãs. Suas perspectivas se alternam ao longo do livro. Hana é mais velha, e jurou à mãe sempre proteger Emi. Elas são haenyeo, isto é, mulheres mergulhadoras da Ilha de Jeju na Coreia. Formam uma comunidade semi-matriarcal, afirmando-se livres e independentes, não se submetendo a ninguém, nem a seus maridos. Pescam seu próprio sustento, mergulhando até 10m de profundidade, e passando 7 horas no mar todos os dias.

A história das irmãs se inicia já dentro do contexto de domínio do império japonês sobre a Coreia, durante também a Segunda Guerra Mundial. Nesse periodo, cerca de 200 mil mulheres coreanas e chinesas foram levadas pelo exército japonês como escravas sexuais, denominadas “mulheres de consolo”. 

Um dia na praia, Hana vê um soldado japonês caminhar em direção à sua pequena irmã. Hana não sabia o que o homem poderia fazer com Emi então sai da água o mais rápido que pode para que ele a encontre antes da irmã. Sua mãe sempre aconselhava às filhas nunca ficarem sozinhas com um soldado japonês, mas nunca teve coragem de dizer o porquê, torcendo para que elas nunca precisassem saber. Hana é levada, e ali a história das irmãs se separa bruscamente.

O horror que foi ler esse livro eu não sou capaz de pôr em palavras. Sei que levei 15 dias para concluí-lo porque houve vezes que eu precisei dar uma pausa de alguns dias para poder retomá-lo. 

Pra quem chegou aqui movido pela curiosidade de saber um pouco mais sobre o livro, quero comentar um pouco sobre a escrita da autora e do porquê achei o título perfeito em português.

Em geral, achei a narrativa muito boa. Mary Lynn consegue criar as nuances da atmosfera narrativa, ora nos proporcionando alegria, ora repugnância, ora raiva, ora tristeza… um espectro de sentimentos se alastra por nosso corpo durante a leitura. Eu só  não consegui dar nota máxima para a experiência de leitura (5 estrelas) porque houve algumas passagens que eu cheguei a me questionar como podia aquela mesma pessoa ter escrito daquela forma nesses trechos. Foram trechos que achei preguiçoso. Talvez o propósito da autora tenha sido passar o cansaço de Hana, mas fui contaminada também e não via a hora de superá-los. De resto, tenho certeza que a leitura vai rondar ainda muito tempo em sua cabeça, como continua ainda assombrando a minha mente, 1 semana ainda após sua conclusão.


Esta não é uma história feliz, preciso ser sincera. Mas traz um pouco de paz sim, ao sabermos que existem pessoas dispostas a reviver seus terrores para que suas histórias sirvam de alerta dos erros que não podemos continuar repetindo. 


Mary Lynn não é uma sobrevivente da Coreia sob domínio japonês, mas foi graças a mulheres que em 1991 resolveram quebrar o silêncio e contar como foram obrigadas a servirem de escravas sexuais que ela pôde fazer chegar a conhecimento de outras pessoas uma faceta da história que continua não só invisibilizada como ainda negada pelos japoneses. Sim, até hoje o governo japonês não reconheceu sua responsabilidade pelo “Sistema de Conforto”. Houve um acordo entre Coreia e Japão, mas que basicamente pedia que os coreanos deixassem esse capítulo da história de lado. 

Algumas pessoas devem pensar: “Ah, mas isso foi há tantos anos atrás, realmente, as pessoas de hoje não devem se responsabilizar pelos erros cometidos no passado”. Errado. Isso se chama reparação histórica. Quem vive hoje deve sim se responsabilizar pelos erros passados, como uma forma de compensar as vítimas por uma injustiça cometida contra determinada comunidade ou grupo social. Mas, infelizmente, não é o que a Constituição do Japão dos dias atuais diz. Admitir a ocorrência de um capítulo da história de um país, por mais atroz que seja, é o primeiro passo para mostrar solidariedade às vítimas e familiares, mas não deve se limitar a isso. São as políticas de reparação e as campanhas por conscientização os instrumentos necessários para buscar mitigar os efeitos devastadores dos erros de nossos antepassados e combater quaisquer outras injustiças que os reforcem, os mantenham e que os tornem uma repetição na história. 

Por isso acredito que o título em português ficou tão perfeito. É impossível restaurar toda dor e sofrimento infligido às vítimas, é impossível trazer de volta vidas inteiras perdidas, mas é possível trazer dignidade a elas. Se no legado da história de comunidades como a das haenyeo há um capítulo tão sangrento que não pode ser desfeito, que lhes sejam dadas outro legado, ainda que somente como título de uma história fictícia: o mar que sempre lhes pertenceu.  


Dados Técnicos do Livro:

Capa comum ‏ : ‎ 304 páginas
Autora: Mary Lynn Bracht
Editora ‏ : ‎ Paralela; 1ª edição (9 junho 2020)
Tradução: Julia de Souza
ISBN-10 ‏ : ‎ 8584391746 – ISBN-13 ‏ : ‎ 978-8584391745
Título original: White Chrysanthemum

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