Sinopse:
Mãe e filha voltam a viver juntas, mas quanto uma pode ser desconhecida da outra? Neste livro sobre conflitos geracionais, assistimos ao relacionamento de mãe e filha que se afastam pelas diferentes maneiras de encarar o mundo, mas são mais parecidas do que talvez a própria mãe consiga admitir.
Trecho do livro na contracapa:
“Uma menina para quem a mãe era tudo nesse mundo. Uma menina que cresceu absorvendo como esponja tudo o que eu dizia. Uma menina que aceitava um não como não e um sim como sim. Uma menina que sempre pedia desculpas e voltava atrás. Agora ela está na minha frente. Agora castigos e cara feia não fazem mais efeito. Agora o mundo da minha filha está demasiadamente afastado do meu. Ela nunca mais voltará para debaixo das minhas asas.
Talvez o erro seja meu.”
A narrativa parte da própria mãe, como é de se esperar pelo título, e sim, traz um relato sincero sobre a filha. Na verdade, aparentemente, o livro é todo dedicado à mãe expondo seus incômodos e incompreensões com relação à filha, tentando entender por que são tão diferentes e por que é tão difícil para ela, como mãe, compreender a filha. O que mais a perturba é que ela não consegue entender por que sua filha é homossexual. No início, a mãe não esconde sua frustração pelo fato de a filha estar sempre precisando de dinheiro, mas num segundo momento, ela se questiona sobre a orientação sexual da filha, e culpando-se pelo que teria dado “errado” no meio do caminho.
A honestidade da mãe chega a ser desconfortável, mas é carregada de questionamentos e um sentimento de culpa que só posso chamá-los de legítimos. Há uma ambiguidade dentro dela que vai se amontoando, à medida que a própria vida, como cuidadora de idosos, a faz questionar sobre a dignidade das pessoas, que não permite ela dizer a si mesma palavras como “lésbica”, etc, mas não se conforma com o tratamento insalubre que os pacientes idosos recebem na clínica onde trabalha. É nessas passagens que uma das falas da filha se faz ecoar:
“Tá, tá. Eu sei. Eu sei muito bem como você me criou. É por isso que faço o melhor que posso. O que mais você espera que eu faça?”
Green, como a filha é chamada pela companheira, talvez responda às próprias dúvidas da mãe – “talvez o erro seja meu”, como se lê da sinopse acima. Sim, talvez o erro seja da mãe, por criá-la com os valores que criou, e, como Green questiona: “O que mais você espera que eu faça?”.
Enquanto Green luta pelo tratamento digno e justo dos professores horistas que estão sendo discriminados e despedidos sem justa causa na universidade por sua orientação sexual, a mãe protesta num nível mais pessoal sobre a condição de sua paciente. São as pequenas e as grandes injustiças o combustível que move as ações de mãe e filha, mas entre elas, ainda há muitos desentendimentos. Em meio a essa tensão entre ambas e as lutas de cada uma delas, há a namorada de Green, que é muito diferente das duas. Ela é carinhosa, atenciosa, e não espera que a mãe de Green goste dela, apenas que as aceite como elas são. Apesar de seu jeito pacificador, tal como Green, ela é incisiva em suas falas, as quais sempre deixam a mãe pensativa e contribuem para a crescente ambivalência de seus sentimentos e pensamentos internos.
O livro é bem curto, e tem um final aberto, deixando espaço para o leitor acomodar seus próprios pensamentos. Pra mim, foi um livro muito bem escrito, e que me passa a ideia de que as grandes mudanças não acontecem de uma hora para a outra, mas que se as pessoas se mantiverem críticas e abertas a novas ideias, há esperança sim para um amanhã melhor.
É um livro que recomendaria a leitura por conta desse distanciamento que parece acometer pais e filhos pela forma como foram criados, mas para jogar luz sobre como na verdade, talvez tenhamos mais coisas em comum do que às vezes imaginamos.
Dados Técnicos do Livro:
- Capa comum: 144 páginas
- Editora: Fósforo Editora, 1ª edição (15 setembro de 2022)
- Autora: Kim Hye-jin
- Tradução: Hyo Jeong Sung
- ISBN-10: 6589733694 – ISBN-13: 978-6589733690
Apesar de ter a edição física, confesso que só consegui terminar de ler graças ao e-book estar disponibilizado no Kindle Unlimited, já que é muito mais fácil para mim ler entre pequenos intervalos, e o celular está sempre à mão.