Resenha: O mau exemplo de Cameron Post – Emily M. Danforth

Cameron Post é uma garota que se descobre gay já ao final de sua infância, um pouco antes de completar 12 anos. No dia em que seus pais morrem, Cameron estava na casa de sua amiga, Irene, e a noite entre as duas parecia ser promissora. Cameron, no entanto é levada subitamente e sem muitas explicações pelos pais de Irene de volta à sua casa. Como nenhum adulto parece confortável em lhe dirigir a palavra, apenas dizendo que sua avó iria conversar com ela, Cameron passa o caminho todo até sua casa acreditando que tinha sido descoberta, que estava tudo acabado e que jamais poderia ver Irene novamente. Quando Cameron recebe a notícia de que seus pais haviam morrido em decorrência de um acidente de carro, Cameron, em primeiro lugar, se sente aliviada, porque seus pais jamais precisariam saber que ela era gay. Passado esse alívio, porém, Cameron se vê dividida entre a culpa por ter se sentido aliviada e a busca do autoconhecimento, de sua identidade. Nesse meio tempo, Cameron vem a se tornar amiga de Coley, e essa amizade também parece que vai dar em algo mais. Mas quando parece que esse algo mais está prestes a acontecer, Cameron é despachada por sua tia Ruth, sua guardiã legal, para uma espécie de escola interna a fim de se “curar” de sua homossexualidade.

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Vou dar um tempo para vocês digerirem essa sinopse.

Fiquem à vontade para checar se vocês leram tudo certo.

Ok, prontos? Podemos continuar?

Sim, é uma sinopse pesada. Assusta um pouco no começo. Mas a minha sinopse não é muito diferente da que vem na contracapa do livro.

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Então, sim, é isso mesmo que vocês leram. Se vocês acharam pesado o fato da protagonista ter sentido alívio com a morte dos pais, ainda que só num primeiro momento, imagina a culpa que Cameron carrega por conta disso. Agora… cura gay? Sério? Infelizmente, esse pensamento intolerante soa mais real do que parece. Vide o ódio disseminado por vários representantes na nossa política. Mas nem quero falar disso por ora.


Esse é o primeiro romance de Emily M. Danforth, que é mestre em ficção pela University of Montana e doutora em escrita criativa pela University of Nebraska-Lincoln. Atualmente ela leciona aulas de literatura e escrita criativa na Rhode Island College (RIC). Parte desse romance teve influência em experiências próprias da autora, então achei que seria legal falar um pouquinho dela.

 

Emily nasceu e cresceu em Miles City, em Montana, nos EUA. Além dos títulos acadêmicos obtidos acima, ela também recebeu prêmios por outro trabalho, o International  Queer Writing Award, da Chroma Magazine e o George Garret Award, da Willow Springs.

Embora o livro O mau exemplo de Cameron Post tenha sido lançado no Brasil agora só em 2018, ele foi publicado nos EUA em fevereiro de 2012, também pela HarperCollins, dos EUA.


O livro é dividido em três partes. Todas as três partes têm uma narrativa lenta, sem pressa alguma. Mas, diferente dum estilo Tolkien ou Claire Fuller, que é descritivo, Emily M. Danforth realmente narra fatos, mas em minúcias, o que pode ser bem cansativo para quem gosta de uma história mais dinâmica. Eu aprecio muito esse tipo de narrativa, de um modo geral, porque dá ares de realidade (sou mais do tipo que curte Manchester à Beira-Mar que Velozes e Furiosos, entende?).

Pensem só comigo: dificilmente o dia a dia de alguém é extremamente agitado, mesmo o das pessoas mais aceleradas que eu conheço. Basicamente, para sair da descrição enfadonha da rotina, as pessoas tendem a contar o que lhes ocorreu de extraordinário durante o dia, o que, num dia normal, são coisas que se dão em torno dos diálogos ou pensamentos que a pessoa teve, certo? Resumindo, é mais ou menos essa a ideia da narrativa de Emily. E por isso é tão real. O extraordinário, no entanto, fica por conta do preconceito da sociedade americana provinciana dos anos 90 acerca da homossexualidade.

Devo dizer que, qualquer que tenha sido a experiência que influenciou a criação do enredo deste livro, não consigo imaginar que tenha sido agradável à Emily.

Justamente por isso, creio que a terceira parte seja a mais difícil. Porque, pelo menos para mim, foi a mais revoltante. Há uma série de comentários absurdos advindos dos outros personagens, principalmente da família de Cameron e dos responsáveis pela escola da “cura gay”. Mas o pior de tudo é saber que ainda hoje, e fora da ficção, existem milhares de pessoas com os mesmos pensamentos retrógrados e palavras cruéis na boca de tais personagens, prontas para serem despejadas. Faz nos lembrar que, infelizmente, a arte de fato imita a vida.

No mais, reforço que o livro é bem parado, e é escrito de um jeito que aparenta que não vai levar a lugar algum, mas é uma leitura sem dúvida interessante, que gera muita reflexão (ou pelo menos deveria) e cujo tema do preconceito, assim como já falei em outras resenhas que tratam do tema, é de imperiosa discussão.

O desfecho também não é dos melhores, e pode decepcionar, principalmente se o leitor não levar em conta que é justamente o itinerário, o percurso do enredo que mais importa no livro. Esse livro foi muito diferente de tudo o que eu já li na minha vida. Enquanto estava lendo, eu realmente não conseguia me decidir se estava gostando ou não da leitura. No começo podia afirmar que sim, mas porque havia muita expectativa, e muitas páginas com potencialidade de preenchê-la. Mas conforme eu ia avançando na leitura e não parecia haver muita progressão, fui ficando em dúvida. Foi um fato inédito. Eu só realmente me decidi quando terminei o livro, e percebi que queria compartilhar com meu marido algumas falas de personagens que achei absurdas. Quando vi que o livro tinha mexido demais comigo, tomei consciência do quão bom era o material que tinha em mãos. Mas por eu ser ser chata com desfechos de histórias, apesar do estilo da narrativa casar bem com meu gosto literário e do livro ter me provocado, levou 4 estrelas no meu Goodreads.

Alguém mais leu esse livro? Queria muito saber a opinião de outras pessoas.


Este livro foi uma cortesia da editora

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Informações adicionais sobre o livro:

Capa comum: 448 páginas

Editora: HarperCollins; Edição: 1ª (12 de janeiro de 2018)

Título original: The miseducation of Cameron Post

ISBN-10: 8595080984 – ISBN-13: 978-8595080980

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