Resenha dupla de “Senhor das Moscas” – William Golding

Senhor das Moscas foi um livro lido de forma compartilhada, uma proposta sugerida pela minha parceira de Instagram, a Marie, do @literalmentemarie.

Partindo-se da brincadeira de que “casal que lê junto permanece junto”, a partir do Dia dos Namorados eu e meu marido (e eterno namorado) leríamos o mesmíssimo livro que escolhêssemos. Cada um o leria à sua maneira e no seu próprio ritmo. Não seria uma competição para ver quem terminava antes. O interessante, justamente, era que a leitura caminhasse, na medida do possível, de forma parelhada, já que isso permitiria que nós dois discutíssemos os acontecimentos do livro sem dar “spoiler” um ao outro.  Eu lia, na maior parte das vezes, de manhã, e meu marido, à noite. Trocamos algumas ideias durante a leitura, mas todas as vezes eu que tive de instigá-las; creio que porque eu tive mais dificuldades, enquanto para ele era apenas mais um entretenimento cultural de boa qualidade, digamos assim.

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As discussões giraram basicamente em torno de esclarecimentos de alguns pontos que fiquei em dúvida sobre o que realmente havia acontecido (se eu tinha entendido certo), eu explicando pro meu marido porque entendia algo de uma forma e não de outra e ele  me lembrando de algo que eu havia deixado passar batido ou realmente já não me lembrava mais e era importante para alguma análise. Foi bem legal ter alguém com quem eu pudesse conversar durante a leitura. Ler é um exercício de solidão, vocês concordam? Mas nessa experiência de leitura compartilhada, essa assertiva se mostra inverídica.

Agradeço muito meu marido por termos lido juntos esse livro, que, aliás, foi uma leitura iniciada às vésperas do Dia dos Namorados e encerrada às vésperas de completarmos 2 anos de casados! E o resultado dessa experiência literária, eu compartilho aqui com vocês, em forma de resenha dupla (minha e dele)!


Sinopse: 

Durante a Segunda Guerra Mundial, um avião cai numa ilha deserta, e seus únicos sobreviventes são um grupo de meninos em idade escolar. Eles descobrem os encantos desse refúgio tropical e, liderados por Ralph, procuram se organizar enquanto esperam um possível resgate. Mas aos poucos − e por seus próprios desígnios − esses garotos aparentemente inocentes transformam a ilha numa visceral disputa pelo poder, e sua selvageria rasga a fina superfície da civilidade, que mantinham como uma lembrança remota da vida em sociedade. 


Resenha por mim (Isa):

Não creio ter lido em minha vida outro livro tão cheio de símbolos quanto este, que surgem ao longo da história de forma tão genial e natural, e num curto espaço de apenas 217 páginas de narrativa.E não é à toa também que esse livro é selecionado em muitos cursos de graduação para ser amplamente debatido, nem me parece grande surpresa que William Golding tenha sido agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1983 pelo conjunto de suas obras. Senhor das Moscas foi seu primeiro romance (e infelizmente, até o momento, o único que li), mas se todas as demais obras tiverem que seja apenas uma fagulha da maestria de sua escrita, é compreensível e mais que justo seu reconhecimento.

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A história de Senhor das Moscas, numa análise superficial, não tem nada de mais, e eu tenho pra mim que grandes obras são assim mesmo: geniais, mas travestidas de simplicidade. Contando a história, grosso modo, temos um bando de meninos numa ilha deserta, sem supervisão de um adulto, e que com o tempo vão perdendo as estribeiras e enlouquecendo. Mas seria ridículo se, depois de uma leitura compartilhada e a promessa de um review duplo, isso fosse tudo que eu tivesse a dizer sobre o livro.

Senhor das Moscas me parece uma alegoria sobre muitas coisas: a perda da inocência, a índole do homem, a disputa pelo poder, o pacto social, etc. E por isso mesmo ele inflama tantas discussões. Os símbolos no livro estão por toda parte, desde a concha que se mostra como um frágil instrumento da democracia; até a pintura dos meninos transformados em selvagens que lhes dá anonimato suficiente para encobrir não apenas suas peles, mas também a culpa, a responsabilidade, o juízo, o bom senso − chamem como vocês quiserem. Outro símbolo muito importante, e que aparece das mais diversas formas no livro, é o medo: o monstro, o sorriso da cabeça de porco na estaca, o próprio Senhor das Moscas e várias outras. Aliás, não só o medo se mostra como símbolo, mas também como um gatilho para os eventos abomináveis que vêm a ocorrer na ilha, seja ele representando o mau, seja ele representando a histeria.

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Ademais, cada personagem, dentre os que recebem atenção suficiente no livro para terem nomes (Ralph, Porquinho, Jack, Roger, Simon, Sam, Eric, etc.) abre a possibilidade para inúmeras outras interpretações, mas que não pretendo fazer aqui para não se tornar algo exaustivo. (Sério, leia o livro e faça suas próprias análises deles, vale a pena).

No entanto, seja uma alegoria da perda da inocência, do pacto social… uma coisa que o livro deve fazer o leitor se perguntar é: somos essencialmente maus? Esse é um questionamento que assombra inclusive um dos personagens, depois de vivenciar os horrores na ilha. E há uma clara disputa em sua consciência entre aceitar e refutar tal ideia. Foi assim que me senti também.

Uma das coisas que mais gostei dessa leitura compartilhada, como havia dito, foi sanar algumas dificuldades que tive, com a ajuda do meu marido, dificuldades essas todas decorrentes da mesma fonte: o narrador. Mas é justamente nesse Narrador que eu penso que reside a excelência da obra. Ela é a revelação da escrita magistral, habilidosa e perspicaz do autor. Um enredo simples recheado de símbolos não faz uma grande obra. A escrita sim.

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O que é esse narrador que confunde o leitor? Não uma confusão a ponto de você não entender o que está acontecendo na história; mas confusa o suficiente para você ora nele confiar, ora não. Ele descreve os fatos ora tal como eles parecem realmente acontecer, mas então, quando você resolve se entregar à sua fidelidade, lá está o danado do narrador rendendo-se à psicologia da turba, mesclando suas próprias impressões com às do grupo de meninos. Alguns podem chamar o narrador apenas de onisciente, que sabe tudo quanto se passa no mundo quanto na mente dos personagens. Eu, porém, preferi vê-lo um pouco além, como vocês podem perceber, e a implicação, ao aceitar esse meu posicionamento, é que o próprio narrador dificulta (ou não) respondermos à pergunta se temos uma essência boa ou má. Aceitar significa que o narrador  também sucumbe à perda da inocência e do juízo. Descartar tal hipótese significa que ele está acima disso. Eu até gostaria de deixar um trecho do livro que, a meu ver, sustenta minha impressão quanto ao narrador, mas estaria dando “spoilers” e sou contra eles.  Seja como for, a escrita de Golding é incrível, e só realmente lendo o livro, sempre muito atento aos mínimos detalhes, é que você vai entender a genialidade dessa obra.


Resenha por João:

Senhor das Moscas é uma leitura poderosa em tempos de ascensão dos discursos de ódio, dos linchamentos e da adoração do autoritarismo e dos regimes de exceção. É uma história de leitura fácil, bastante fluida, e capaz de nos lembrar da fragilidade da razão frente aos impulsos animalescos do ser humano.

A saga dos meninos ingleses abandonados à própria sorte depois de um acidente de avião transita bem entre a tentativa inicial de estabelecer uma ordem social, a disputa aberta em torno das prioridades do grupo (a fogueira ou a caça) e o surgimento de um novo arranjo coletivo baseado na força. O conflito entre Ralph e Jack, e deste com Porquinho, coloca várias questões de fundo prático, político e moral às quais é difícil ficar indiferente: a divisão (social) do trabalho, a partilha dos suprimentos, o estabelecimento de normas de convivência, a possibilidade de autonomia subjetiva frente ao grupo… Além disso, a história de Simon não deixa de ser significativa para nós: o destino do desencantamento do mundo frente à histeria coletiva.

 

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É bem verdade que uma narrativa diz mais sobre as concepções de seu autor e o contexto em que ele escreveu do que sobre o mundo em si. Mas a literatura é um espaço privilegiado para quem deseja pensar problemas para os quais as ciências e a filosofia não podem, não querem ou ainda sequer consideram dar respostas. Na companhia de outros clássicos modernos, como 1984, Admirável Mundo Novo e Fahrenheit 451, Senhor das Moscas diz muito sobre questões importantes que enfrentamos hoje. É um livro que mostra bem a potência da literatura e da arte em um mundo obcecado pela magia da racionalidade técnica e da tecnologia.


Informações adicionais sobre o livro:

Capa comum: 224 páginas

Editora: Alfaguara; Edição: 1 (1 de agosto de 2013)

ISBN-10: 8579622875 – ISBN-13: 978-8579622878

Título original: Lord of the Flies

4 comentários Adicione o seu

  1. Joni disse:

    Isa e João, achei interessante a resenha em dupla, em que cada um descreve e transmite as sensações que o escritor quis passar ao leitor.
    Parabéns!

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  2. Joni disse:

    Isa e João, achei interessante a resenha em dupla, em que cada um descreve e transmite as sensações que o escritor quis passar ao leitor.
    Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Oii…
    Eu amei sua resenha (suas, no caso). Amo esses livros que tem criticas sociais que sejam comuns e ao mesmo tempos poderosas para a sociedade. Fiquei com bastante vontade de conhecer a obra.
    Beijos.

    https://fanficcao.wordpress.com/

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