Het Spinozahuis – A casa de Baruch Espinoza e O Mundo de Sofia

Quando eu e meu marido estávamos na Holanda, ele disse que devíamos conhecer a Casa de Espinoza, que foi inclusive uma recomendação de um professor dele, o qual queria muito ter visitado a Casa, mas acabou não conseguindo.

E então lá fomos nós dois conhecer Het Spinozahuis – literalmente, A Casa de Espinoza.

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Het Spinozahuis, Rijnsburg

Há atualmente na Holanda duas casas que se tem certeza que foram moradias do filósofo: uma em Rijnsburg e uma em Haia.

A Casa que fomos conhecer é a de Rijnsburg, que fica perto de Leiden (ou Leida, em português). Ela fica num bairro muito bonito e é bem fácil chegar de ônibus vindo da estação Leiden Centraal, e o custo de admissão à casa é de €3,50 por pessoa.

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A rua, bem bonitinha

Espinoza morou por três anos (1661-1663) nessa casa, já depois de ter sido excomungado da comunidade judaica de Amsterdam, e antes de se mudar para Haia. A Casa em Rijnsburg, datada de 1660, pertencia a um médico, chamado Herman Hooman, de quem Espinoza alugava um quarto.

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Obviamente a casa não está da mesma forma de quando Espinoza morou. Para falar bem a verdade, como ele sempre morou em casas de outras famílias, alugando quarto, até hoje não se sabe bem ao certo qual era o quarto que ele ocupava, mas eles têm lá as suas suspeitas, digamos assim.

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E é muito curioso saber como foi que descobriram que aquela era uma das casas onde Espinoza morou.  Um físico de nome Johannes Monnikhoff (século XVIII) havia feito uma descrição da casa onde Espinoza havia residido de 1661 a 1663, deixando uma nota dizendo que a ela continha uma placa com versos de um poema de Dirck Rafaelsz:

Ach! waren alle Menschen wijs, 

En wilden daarbij wel!

De Aard waar haar en Paradijs, 

Nu isse meest een Hel.

Oh! Se todos os homens fossem sábios

E se todos fossem bem intencionados

A Terra seria um Paraíso 

Enquanto que agora  é nas mais das vezes um Inferno.

E, então, em 1896 foi posta à venda uma casa em Rijnsburg que continha de forma já pouco legível tais versos, e um especialista em Espinoza lembrou-se da nota de Monnikhoff.

Outra coisa MUITO impressionante é que, na casa, fizeram uma réplica do acervo pessoal de livros de Espinoza. Através de um inventário, feito logo após a morte do filósofo, em 1677, conseguiram adquirir, pouco a pouco, exemplares das mesmas edições que Espinoza possuía. Assim, muito embora não se tratem exatamente dos livros que pertenceram a ele, é o mais próximo possível disso, e o acervo constitui uma coleção única no mundo! O mais incrível é que a casa é mantida por voluntários, que formam a Sociedade Spinozahuis, existente desde 1897. A casa, hoje restaurada, abriga um verdadeiro museu dedicado ao fundador do criticismo bíblico.

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Tá, legal, Isa.. mas o que a Casa de Espinoza em Rijnsburg tem a ver com O Mundo de Sofia? Só porque é filosofia? Bom, também… mas quem leu o livro deve se lembrar que Alberto Knox, o professor de filosofia de Sofia, lhe fala sobre Espinoza, fazendo uma observação de como há algo de simbólico no fato de que o filósofo holandês viveu de polir lentes.

“When things got really tough, Spinoza was even deserted by his own family. They tried to disinherit him on the grounds of his heresy. Paradoxically enough, few have spoken out more powerfully in the cause of free speech and religious tolerance than Spinoza. The opposition he was met with on all sides led him to pursue a quiet and secluded life devoted entirely to philosophy. He earned a meager living by polishing lenses” […]

“A philosopher must help people to see life in a new perspective. One of the pillars of Spinoza’s philosophy was indeed to see things from the perspective of eternity”. *

“Quando a situação se tornou mais grave, Espinosa foi inclusivamente abandonado pela família. Queriam deserdá-lo por heresia. O paradoxo disto era que poucas pessoas tinham defendido tão energicamente a liberdade de opinião e a tolerância religiosa como Espinosa. As numerosas oposições com que teve de lutar levaram-no por fim a escolher uma vida tranqüila, inteiramente dedicada à filosofia. Ganhava o seu sustento a polir vidros óticos. […]”

“Os filósofos devem ajudar os homens a ver a realidade segundo uma perspectiva nova. E é fundamental para a filosofia de Espinosa o desejo de ver as coisas sob a “perspectiva da eternidade”

Bom, então, essa é justamente uma das casas onde ele, tranquilamente, polia suas lentes e escrevia seus pensamentos. Lá, inclusive há em exposição alguns instrumentos próprios do ofício de polir lentes. Infelizmente, não encontrei nenhuma foto em nossos álbuns.

O atendimento lá na casa/museu também foi excelente! A funcionária que nos recebeu foi muito atenciosa e ficou surpresa que éramos do Brasil (acho que mais por nossa cara de japonês do que por falta de visitantes brasileiros – pelo menos é o que eu gosto de acreditar). Acho que vale a pena uma visita se você passar por Leiden! Eu achei muito emocionante. E claro, é um principalmente um passeio voltado para pessoas que gostam ou de filosofia ou dos grandes pensadores ou simplesmente para apreciadores da cultura ocidental.

Essa foi uma das visitas mais inusitadas que já fiz em minha vida, e certamente uma das quais me recordo com mais emoção até hoje. É bem verdade que sei praticamente nada sobre Espinoza, e que meu marido, historiador, aproveitou o passeio muito mais que eu. Mas é verdade também que, se não fosse meu encanto juvenil pelo trabalho de Jostein Gaarder e O Mundo de Sofia, eu talvez nem houvesse me interessado pela visita, ou talvez teria sido um passeio sem grandes significados para mim. Então, sim, tenho muito a agradecer a Jostein! Eu AMO o Jostein Gaarder, e, claro, AMO O Mundo de Sofia. Foi um livro que marcou muito a minha adolescência, e que eu acredito já ter lido pelo menos umas 6 vezes.

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Dica na Spinozahuis: Há um livro de visitas que vão pedir para você assinar, assine! Entre para a história também! Estou brincando, mas estou falando sério também. Existe um desses livros de visita (guestbook) que está exposto na casa, e que contém as assinaturas de visitantes ilustres: nada mais nada menos que Einstein e Max Weber! Achei o máximo! Quem sabe um dia seu nome também não fique num livro de visitas assinado por outro visitante renomado? Me pergunto se o próprio Jostein já não visitou o lugar.

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Achou a assinatura de A. Einstein?

Informações adicionais sobre Het Spinozahuis:

Endereço: Spinozalaan 29, 2231 SG Rijnsburg

Horário de funcionamento: de terça a domingo, das 13:00 às 17:00. Fechado às segundas.

Entrada: €3.50 por pessoa

2 comentários Adicione o seu

  1. Monica disse:

    Sensacional o post! Quero muito conhecer a Holanda. Quem sabe num futuro próximo!? Ah sim, precisarei de um guia para conhecer esses lugares fantásticos 😉😍🔝

    Curtido por 1 pessoa

    1. meisauedaoh disse:

      Podemos servir de guia hahaha, com o maior prazer

      Curtir

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