Resenha: À Espera de um Milagre – Stephen King

À Espera de um Milagre ficou muito conhecida pela aclamadíssima adaptação cinematográfica com  Tom Hanks no papel principal. Assim como a maioria dos filmes de hoje em dia, o filme nada mais é que baseado num romance, anterior ao filme. Até aí nenhuma novidade. O que talvez muitos não saibam, porém, é que o romance foi publicado em forma de “folhetim”, bem estilo século XIX. Stephen King chama esse formato de “romance seriado de pequenos livretos”. O “romance seriado” foi publicado em 6 etapas, e fez bastante sucesso na época.

P_20180725_072246_vHDR_Auto

Sinopse:

No ano de 1932, o condenado John Coffey chega à Penitenciária Estadual de Cold Mountain. Paul Edgecombe, chefe dos guardas e superintendente do bloco E, onde fica o “corredor verde” – a versão do “corredor da morte” de tal penitenciária–, é o encarregado de receber os novos criminosos condenados à morte pelo Estado e lhes explicar como as coisas funcionam no bloco. Paul também é o narrador da história, contando-a de sua velhice, muito tempo depois de ter deixado Cold Mountain. Desde a chegada de Coffey, Paul fica intrigado com sua aparência e comportamento, que não condizem com a de um assassino e estuprador de meninas de 9 anos. Aos poucos, Edgecombe e os outros agentes penitenciários passam a testemunhar eventos sobrenaturais que aumentam sua suspeita de que Coffey é inocente.


Para quem viu o filme, ao ler o livro, vai encontrar todo mundo ali também:  Harry Terwilliger, Brutus Howell, Diretor Moores, Percy Wetmore, o condenado Delacroix, o perturbado Billy the Kid, e até o sr. guizos (o ratinho de Delacroix), e todos eles são muito bem trabalhados no livro (e eu diria que suas atuações no filme são excelentes e reportam muito bem às descrições no romance!).

Para mim, esse é um daqueles casos em que o livro e o filme são de níveis de excelência equivalentes, cada  um com seus prós e contras, claro. Irei focar na análise do livro, porém, daqui pra frente.


A edição: 

Essa edição ebook da Editora Suma que li está muito bacana. Tem uma Introdução, do próprio King, nos contando da ideia inicial dele para um romance que envolvia um personagem chamado Luke Coffey (que mais tarde viria a se tornar John Coffey) e uma cadeira elétrica, conhecida como Velha Fagulha (“apelido” que foi aproveitado em À Espera de um Milagre) e em que contexto surgiu a proposta para que ele escrevesse um romance seriado. Depois, há um Prefácio, que é uma verdadeira Carta aos leitores. Eu gostei muito desse material extra em especial, porque ele me deixou mais à vontade com a minha estranha mania de ler capítulos e trechos de livros em voz alta para quem quiser ouvir (por enquanto, só meu marido, mas ele não tem opção). Nessa Carta, King rememora suas leituras de infância, quando se lia Dickens (que também publicava seus romances de forma seriada) em sua casa – ele, sua mãe e seu irmão revezando a cada noite na leitura em voz alta –, e nos convida a ler em nossos lares também À Espera de um Milagre dessa mesma maneira. Não foi exatamente o que fiz, mas o fiz como pude, e agradeço pela experiência e sugestão do próprio autor.

P_20180725_072402_vHDR_Auto


Stephen King tem uma escrita bastante fluida e versátil, pelo menos essa foi minha impressão com a leitura desse romance. Ele intercala facilmente momentos de pura beleza em sua narrativa com elementos grosseiros que são exigidos para uma atmosfera que envolve criminosos, e o dia a dia de agentes penitenciários. Como Paul Edgecombe nos narra a história do “corredor verde” também escrevendo um livro, King o utiliza também como um emissário de suas próprias notas mentais, penso eu, sobretudo quando diz ao leitor sobre o ato da escrita em si:

Se eu soubesse que a história ia ser assim tão comprida, talvez nunca a tivesse começado. O que não percebi foi quantas portas o ato de escrever vai abrindo, como se a velha caneta-tinteiro de meu pai não fosse realmente uma caneta, mas alguma estranha espécie de chave mestra. 

Bom, seja ou não a minha impressão verdadeira, me diverti bastante sozinha com esse pensamento.

Aliás, o fato de ter escolhido o chefe Edgecombe como narrador foi uma solução que King encontrou para a cada nova publicação da parte seguinte do romance seriado. Hoje em dia, quando assistimos às séries de TV, temos sempre uma retrospectiva a cada nova temporada (previously on…). King também teve que dar um jeito de reavivar a memória de seus leitores. A estranheza fica por conta de que nós não o lemos de forma seriada, mas sim numa compilação dos 6 livretos, o que, sim, pode ser um pouco entediante, já que Paul Edgecombe, em sua velhice, escreve o livro e tenta se lembrar em que ponto da história havia parado antes de ser interrompido por algo que lhe ocorre no presente, já num asilo. Esse, aliás, foi o único ponto negativo para mim da leitura (e também não agradou totalmente ao próprio King). Mas nada que, justamente, levar em consideração o formato original de “folhetim” não seja o suficiente para afastar o incômodo.

Também não sei quanto a você, mas eu não tenho problema nenhum em ler livros depois de já ter assistido ao filme, mesmo quando a história é mantida de forma muito fiel (e até o final é igual). Até prefiro, na grande maioria das vezes, seguir essa ordem: primeiro o filme, depois o livro, para não me decepcionar com o filme. Se não há estímulo o suficiente para você pela falta de surpresas, caso você já tenha visto o filme, minha dica é ler À Espera de um milagre lembrando-se das feições e muitas caras e bocas dos atores, e perceber como o trabalho de todos envolvidos foi incrível: King com a maestria de sua escrita, os atores pelo brilhantismo de suas atuações, e o roteirista Frank Darabont pela afiada percepção de que o material que tinha em mãos era poderoso demais para grandes mudanças.

Espero poder ler mais Stephen King de agora em diante, após essa leitura incrível e completa. Com esse livro, eu dei risadas, fiquei enojada com a maldade das pessoas, esperançosa com a bondade de outras, estupefata também com essa dualidade coexistente nelas (e em nós mesmos, afinal), tensa, aflita e triste quando Edgecombe contava como se deu a execução de algum condenado, e chorei copiosamente em determinado momento, tamanho o poder de uma boa escrita (e também porque já estava num dia bastante vulnerável, não minto).

Além de tudo isso, muitos temas podem ser debatidos do livro. A citar alguns, temos o dilema moral dos agentes penitenciários, o preconceito, o cenário da Grande Depressão como pano de fundo da história, o carinho com que King descreve os personagens femininos (ele também menciona a própria mulher no material extra como a grande responsável pela enorme aceitação popular do livro, o que eu achei muito fofo, de verdade), e até o questionamento sempre existente entre todos os leitores: “toda leitura é válida”? As figuras cruéis de Percy Wetmore e Brad Dolan, que inclusive se confundem na cabeça de Paul Edgecombe, talvez possam responder a essa pergunta, mas para você debatê-la comigo, eu o convido, sinceramente, a ler o livro.


Informações adicionais sobre o livro (ebook):

Formato: eBook Kindle

Tamanho do arquivo: 1736 KB

Número de páginas: 232 páginas

Editora: Suma (21 de fevereiro de 2000)

Vendido por: Amazon Servicos de Varejo do Brasil Ltda

Sobre a versão física:

Capa comum: 400 páginas

Editora: Suma de Letras; Edição: 1 (2 de maio de 2013)

ISBN-10: 8581050379 – ISBN-13: 978-8581050379

Título original (ambos formatos): The Green Mile

5 comentários Adicione o seu

  1. Joni disse:

    Este livro deve ser bom de ler, 400 págs, iria adorar ler.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Joni disse:

    Este livro deve ser bom de ler, 400 págs, iria adorar ler.

    Curtir

  3. Monica disse:

    Assim como seu pai, adoraria ler o livro. Fica a dica. Assisti o filme inúmeras vezes e adorei.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Esse foi o primeiro livro que li do Stephen King. Já tinha assistido o filme, mas era muito jovem para entender a complexidade da obra. O livro é muito envolvente, recomendo!

    Curtido por 1 pessoa

    1. meisauedaoh disse:

      Obrigada pelo comentário! Eu adorei o livro e também recomendo! Foi o primeiro romance dele que li. Fora isso, li o o conto “The Body”, que considero também muito bom.
      Obrigada pela visita e volte sempre.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s