Resenha: Sem Lugar no Mundo – Françoise Frenkel

Não sei quanto a vocês, mas tenho alguns temas preferidos de leitura: tudo que envolva a Segunda Guerra Mundial e também livros que falem de livros e livrarias. Pois quando me deparei com “Sem Lugar no Mundo: Relato de uma livreira judia em fuga na Segunda Guerra Mundial”, foi impossível resistir e não levá-lo comigo para casa.

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Sinopse:

“Livreira judia de origem polonesa e apaixonada pela literatura, Françoise Frenkel abre a primeira livraria francesa em Berlim no começo dos anos 1920, fazendo do lugar um ponto de encontro da intelectualidade local e de famosos escritores da França. Com a ascensão do nazismo na década de 1930, Françoise começa a viver o terror das perseguições. Graças à ajuda do governo francês, consegue fugir para a França em um dos últimos trens autorizados a deixar o país com estrangeiros de origem judaica. Em Paris, a cidade de seus tempos de estudante, ela percebe rapidamente que não estaria a salvo. Com a ocupação alemã, a capital seria apenas mais uma entre as diversas escalas que precisaria fazer, sozinha, para escapar da iminente deportação e da morte.”

Foi a própria Françoise quem escreveu o livro, relatando todos seus horrores, medos, e esperanças vividos e sentidos ao longo de sua fuga, praticamente sem um dia de paz desde Berlim. Polonesa, nascida em 14 de julho de 1889, seu nome real era Frymetta Idesa Frenkel, e era claramente uma livreira apaixonada por livros e por sua livraria:

“Compreendi naquela noite [entre 9 e 10 de novembro de 1938] porque eu tinha sido capaz de suportar a atmosfera asfixiante dos últimos anos em Berlim[…] Eu amava minha livraria da mesma maneira que uma mulher ama, com amor verdadeiro. Ela tinha se tornado a minha vida, a minha razão de ser.”


Minhas impressões: 

O fato de eu também amar estar rodeada de livros me fez sentir a leitura de forma ainda mais intensa. Esse livro foi minha companhia de viagem de férias — nas longas horas de espera entre um voo e outro —, mas enquanto eu estava lendo por passatempo, os relatos de Frenkel traziam à tona uma viagem incessante, na qual a livreira não tinha tranquilidade alguma.

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O que mais me impressiona no relato de Frenkel é a sua capacidade de, mesmo em meio ao seu sofrimento, medo e exaustão, ela nos entrega uma obra objetiva mas indiscutivelmente bela. Essa é a maior prova para mim de que aqueles que têm um coração bom encontram a beleza até nas situações mais desoladoras.

Quando estava em Vichy, na França, Frenkel nos conta como eram os dias em frente ao Correio, e da alegria “quando o Correio por fim foi reaberto”. Veja você mesmo, leitor, se o modo de Frenkel narrar seus dias não é lindo:

“O correio não era apenas  o grande contato com o mundo, a invenção maravilhosa de onde chegavam a voz de um desaparecido, um apelo, uma resposta – ele igualmente preenchia as horas em que o vazio era esmagador. Provia os solitários de uma vaga esperança e gerava solidariedade humana entre os seres reunidos diante do guichê. As pessoas conversavam ao sair ou se cumprimentavam na rua.

A solidão daquelas semanas era um infortúnio terrível que marcava os rostos na estação de trem, no Correio, nos bancos, nos terraços, por todo lado.”

“Sem Lugar no Mundo” é, graças a essa objetividade e beleza, uma leitura que flui facilmente para o leitor, mesmo aos que não sejam muito dados a biografias em geral, mas gostem de ler simplesmente.

Ela começa nos relatando como tudo começou: quando resolveu se tornar uma livreira, e o porquê de abrir uma livraria em Berlim, contando-nos também como foram os gloriosos dias a que a livraria no endereço Passauer Strasse 39 assistiu, com a presença de diplomatas e do Embaixador da França à época. Infelizmente, os  tudo parece evoluir muito rápido para a tensão dos dias que antecedem a noite de 9 e a manhã de 10 de novembro de 1938, a partir de quando Frenkel deixa sua livraria para sempre:

“Vaguei de estante em estante, acariciando com ternura a lombada dos livros […] Reli as dedicatórias dos autores[…] Todos esses tesouros ficariam para trás. Que mãos tomariam conta deles?”

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Gosto de pensar, assim como publicado num artigo de 1946 [1], que Frenkel é uma dessas “heroínas anônimas”, que, buscando um lugar no mundo, encontrou, e ainda encontrará, seu lugar no coração de muitas pessoas, sobretudo de leitores apaixonados como ela.

O livro conta, ainda, com um belíssimo prefácio do Prêmio Nobel Patrick Modiano, e, ao fim, uma cronologia dos percursos de Frenkel, além de um adendo com fotografias, mapa e processos.

Vale muito a pena a leitura para aqueles que se interessam pelo tema da Segunda Guerra Mundial.


Informações Adicionais Sobre o Livro:

Capa comum: 256 páginas

Editora: Bazar do Tempo; Edição: 1 (23 de fevereiro de 2018)

ISBN-10: 8569924321 – ISBN-13: 978-8569924326

Título original: Rien où poser sa tête 


Nota: 

[1] Artigo publicado no Le mouvement féministe: organe officiel des publications de l’Alliance nationale des sociétés féminines suisses (disponível nos adendos da edição desse livro).

1 comentário Adicione o seu

  1. Que livro incrível e com essa resenha já me conquistou. Também sou fascinada pelas histórias sobre a Segunda Guerra Mundial.

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