O Homem que caiu da Terra – Walter Tevis

Em julho, devido à comemoração dos 50 anos da chegada do homem à lua, achei que o mês merecia a leitura de um sci-fi à altura. Assim, propus-me a ler O Homem que caiu na Terra, de Walter Tevis, livro que eu já tinha há um bom tempo aqui em casa, e cuja oportunidade não poderia ser mais feliz, já que eu havia lido há poucos dias a maravilhosa resenha do Lucas Furlan, no blog Valeu, Gutemberg!


Sinopse:

Thomas Jerome Newton veio de Anthea para a Terra em uma missão desesperada para salvar os poucos habitantes que ficaram em seu longínquo e desconhecido planeta. Para isso, precisa construir aqui uma nave que possa trazer os 300 de sua espécie que ainda vivem em um planeta onde a água acabou e os recursos são cada vez mais escassos. Com conhecimento e inteligência muito superior aos humanos, Newton logo se torna um bem sucedido empresário do ramo de patentes tecnológicas e também descobre a solidão, o desespero e o álcool – criando uma delicada parábola sobre as mudanças que estavam ocorrendo entre os anos 1950, com o início da Guerra Fria. Escrito com vigor e com uma prosa carregada de tensão poética, Walter Tevis produziu uma das ficções científicas mais realistas sobre um alienígena que vai absorvendo o dia a dia, o jeito e os vícios humanos aos poucos. Realista o suficiente para se tornar uma metáfora daquilo que todos nós carregamos: uma indescritível angústia e solidão existencial. A trajetória fugaz de Newton em uma Terra que já começava a acelerar seus passos rumo à degradação acaba por dizer algo urgente sobre a nossa vida e o propósito dela aqui, muito mais do que fazer refletir sobre a longínqua Anthea.


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Minhas impressões:

O Homem que caiu na Terra é um livro que aborda com maestria o olhar-apenas-para-o-próprio-umbigo do ser humano; um antropocentrismo ilustrando muito bem a ideia do homem como a medida de todas as coisa, inclusive da inteligência e da burrice. Mesmo T. J. Newton sendo superiormente inteligente aos humanos, as pessoas eram incapazes de tratá-lo com a magnitude merecida.

Nessa mesma esteira, eu diria que o livro acaba por tratar do diferente, do desconhecido, e de como isso assusta o homem, que prefere ignorar (ou torturar) a ter de lidar com aquilo que ele não conhece.

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Detalhe da guarda e da folha de guarda: lindíssimos

Mas o que mais me agradou, com certeza, neste livro, foi a retratação de um dos maiores problemas da humanidade, e que se mostra atemporal, que é a solidão.

Algumas descrições são feitas de modo ao mesmo tempo tedioso e curioso, com uma dureza que ora reduz a complexidade existencial a banalidades sem propósito e ora se põe a examinar a humanidade de forma nua e crua:

Viu diversos esquilos e um coelho. Um peixe pulou no lago, uma vez. Passou por alguns prédios e por um tipo de forja; alguns homens acenaram para ele.

Adoro ficções científicas que tratam mais de temas existenciais e humanísticos, prefiro-os muito mais que às de guerras e aventuras intergaláticas. Essas últimas são divertidas, sem dúvida, mas vejo nos sci-fis um potencial muito além do entretenimento, e me agrada sem igual quando tal potencial é explorado de modo crítico.

A solidão e o sentimento de pertencimento são os as questões humanas por excelência, a meu ver, mais abordados no livro, e cujas consequências focam em vícios também demasiadamente humanos: a embriaguez e os vícios.

“Não é preciso”

“O que não é preciso?”

“Ser de Marte para se sentir sozinho. Imagino que você já tenha se sentido sozinho muitas vezes, dr. Bryce […]”.

Há ainda outras críticas ao homem: a religião, o caráter autodestrutivo, por exemplo. Essa última, bastante propícia para o cenário atual, que preocupa não apenas ambientalistas do mundo inteiro, mas qualquer pessoa que leva em conta ,com a mínima razoabilidade, a finitude dos recursos naturais.

Ah, e, claro, não poderia deixar de falar, mas os fãs de gatos provavelmente irão se deliciar com algumas passagens desse livro também:

Ele pensou, olhando para o gato: se ao menos vocês fossem a espécie inteligente deste planeta… E então, sorrindo ironicamente: talvez vocês sejam.

Enfim, foi uma leitura muito proveitosa, que me trouxe muitas reflexões pertinentes, e que, de agora em diante, sairei indicando para todos, sobretudo àqueles que não se sentem muito atraídos por ficções científicas. Há um uso de jargão científico desprezível para entendimento da história, que realmente foca no drama de Newton e seu propósito na Terra. Mas, para mim, até a matemática tem suas belezas… e Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) parece concordar comigo.

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó – óóóóóóóóó – óóóóóóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora.)
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Detalhe: corte dianteiro na  mesma cor laranja fluorescente

Se você é desses que gosta de encontrar temas existenciais em meio às supostas friezas das ficções científicas, este livro deve entrar na sua lista de leituras imprescindíveis. Agora, eu preciso ver o filme com o David Bowie. Quem viu, o que achou?


Informações adicionais sobre o livro:

Capa dura: 224 páginas

Editora: Darkside; Edição: 1ª (9 de agosto de 2016)

ISBN-10: 8594540051 – ISBN-13: 978-8594540058

Título original: The man who fell to Earth

 

8 comentários Adicione o seu

  1. Monica disse:

    Embora ficcao-científica, o livro parece interessante por tratar de temas contemporâneos e que direcionam à reflexão da dúvida: isso é ou não real?

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  2. Que livro interessante! Apesar de ter sido escrito há alguns anos, ele aborda temas bem atuais. E a sua resenha só veio aumentar o meu interesse por esse livro. Mais um para a listinha interminável. 😀😀😀😀

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    1. Isa Ueda disse:

      Sim, continua muito atual. Hahaha só vamos aumentando nossa listinha

      Curtido por 1 pessoa

  3. Lucas Furlan disse:

    Fiquei feliz que a minha resenha te animou a ler “O homem que caiu na Terra”, o livro é realmente especial! Adorei seu texto e as fotos! 🙂

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    1. Isa Ueda disse:

      Sim, sua resenha foi um acelerador pra ler esse livro! Obrigada!

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  4. Nossa realmente só a capa lembra Laranja Mecânica, rs Eu não sabia nada sobre esse livro, mas fiquei muito curiosa para ler pelas críticas sociais tratadas na obra.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Isa Ueda disse:

      Vai ter musical em SP dele. Teatro Unimed. Só não lembro as datas. Dá uma sondada e vê se te interessa!

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      1. Ahh, valeu pela dica! 😉

        Curtido por 1 pessoa

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