Amada – Toni Morrison

Sinopse:

“Considerado a obra-prima de Toni Morrison. Amada é ambientado em 1873, época em que os Estados Unidos começavam a lidar com as feridas da escravidão recém-abolida — e o passado parecia uma força mais real e palpável do que o presente. Sethe é uma ex-escrava que fixou moradia nos arredores de Cincinnati e, junto da filha, leva uma vida de recolhimento. Uma visita inesperada, porém, a obriga a encarar traumas que preferia ter deixado para trás e, aos poucos, descortina uma verdade tão terrível que mal pode ser nomeada.”

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Quando se tem um livro do calibre de Amada, não sei me pôr a falar dele senão começando pela própria sinopse. Deixo o livro falar um pouco de si mesmo, e porventura, essa auto-apresentação irradiará um facho de luz, pequeno que seja, para que eu consiga ordenar minhas palavras dentro de mim.

Estou dando voltas, você leitor poderá perceber. Mas há certa tranquilidade nisso, porque a escrita de Toni Morrison em Amada também dá muitas voltas. Assuntos mais difíceis são abordados assim, pelas beiradas, pelos contornos, até que finalmente se possa chegar no seu âmago. Morrison, com o brilhantismo de uma narrativa não-linear, proporciona ao leitor um terreno fértil para que, atingido o ápice da maturação, ele colha os terríveis frutos não de forma menos impactante, mas talvez com um espírito mais fortalecido para suportar o peso de tal terror.

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Confesso que tive bastante dificuldade, principalmente no início da leitura, em compreender como se orquestrava a narrativa de Amada; embora tenha ficado bastante feliz de que essa percepção não me tenha sido exclusiva, acometendo (talvez em menor grau de dificuldade, é verdade), também mentes que considero incomparavelmente mais extraordinárias que a minha. Afinal, além de não-linear, há múltiplas vozes tecendo o fio da história (polifonia) e, não bastasse isso, muitas vezes exploradas em fluxo de consciência dos personagens, recurso ao qual ainda não estou acostumada. Some-se a isso as metáforas; elas estão por toda parte do livro também, demarcando traços de oralidade na escrita de Morrison e porque, como acredito, é sempre penoso demais abordar assuntos pesados com nomes tão certeiros. Mesmo assim, a leitura me prendeu completamente, e fui tocada diversas vezes por passagens que, em meio a todo horror descrito, justamente por conta de tais metáforas, se interpõem poeticamente, traduzindo a intensidade de cada personagem.

Baseada na história de Margaret Garner — uma escrava fugitiva que matou seu bebê pouco antes de ser capturada —, o livro apresenta, de modo sinuoso, a vida e memória da ex-escrava Seth. Boa parte do livro se passa junto à casa do 124 da Rua Bluestone. Nela, vivem Seth, sua filha Denver e o rancoroso espírito de um bebê falecido, também filha de Seth. Mas o terror que assombra o 124 não fica nele confinado e atravessa toda uma sociedade, toda uma cultura, elevando-se a uma ficção que dirige um olhar crítico ao legado da escravidão.

Antes, o 124 era habitado também pela sogra de Sethe, Baby Suggs, e por outros dois garotos mais velhos, filhos de Sethe. Halle, o marido, infelizmente, nunca chegou à casa; Baby Suggs vem a falecer; e os rapazes abandonam a casa, deixando a mãe e Denver entregues aos sinistros fenômenos que ali ocorrem. Um dia, porém, chega Paul D, um velho conhecido de Sethe, dos tempos de escravidão na propriedade Doce Lar. Sua chegada parece apaziguar as assombrações no 124, e paira no ar uma esperança por dias melhores na vida de Sethe. Essa tranquilidade, no entanto, é efêmera, pois logo surge no 124 Amada, a filha morta de Sethe, em carne e osso, obrigando Sethe a confrontar seu terrível passado.

“Vai doer agora […]. Tudo que está morto dói para viver de novo” (p. 59).

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O livro traz inúmeras reflexões sobre o período mais tenebroso da história americana, que eu estendo à nossa história também, porque o Brasil tem um passado escravagista que dificilmente será reparado. Dentre essas reflexões, poderia destacar os inúmeros retratos abomináveis de maus tratos comumente praticados à época. Não sei o que é pior, a bestialização do homem ou sua transfiguração em mera mercadoria. Há desumanidade comparável à de um homem que escuta qual o seu valor, em moeda, por exemplo? Mas há outras reflexões (se estas não forem já suficientemente odiosas) que simplesmente me despedaçaram por inteiro, e estão ligadas ao sentimento de amor.

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A verdadeira liberdade consiste em amar, ter a liberdade de amar. Sethe é a representação da verdadeira vítima da escravidão e de suas consequências, seus escombros, mas todos os personagens, cada um à sua maneira, têm suas opiniões sobre esse sentimento tão intrinsecamente humano.

Baby Suggs era uma pregadora que conclamava seus semelhantes a se amarem em sua totalidade, porque os brancos não os amavam. Mas, por ser alguém que viveu a maior parte de sua vida como escrava, no final, todo o horror testemunhado e que lhe fora infligido a deixa cansada não até os ossos, mas até o tutano:

“Ao tentar chegar ao 124  pela segunda vez agora, ele lamentou aquela conversa: o tom exaltado que ela [Baby Suggs] assumiu; sua recusa em perceber o efeito de cansaço do tutano numa mulher que ele acreditava ser uma montanha. Agora, tarde demais, ele a entendia. O coração que pulsara amor, a boca que falara a Palavra não contavam. […] Os homensbrancos a tinham esgotado afinal” (pp. 241/242).

Paul D, por sua vez, acreditava que era perigoso “amar alguma coisa tanto assim”. “A melhor coisa, ele sabia, era amar só um pouquinho; tudo, só um pouquinho, de forma que quando se rompesse, ou fosse jogado no saco, bem, talvez sobrasse um pouquinho para a próxima vez” (p. 72). Dizia ele a Sethe que o amor dela era “grosso demais”. E Seth contestava: “Grosso demais? […] Amor é ou não é. Amor ralo não é amor” (p. 223).

Optei por trazer tais trechos porque poucas coisas são tão facilmente apreendidas e universais quanto o amor. Independente da sociedade, dos tempos, da classe social, da ideologia, ele tem uma linguagem universal, e creio que é apenas disso que se precisa para enxergar o “outro”.

Há um excelente artigo de Jesse McCarthy (The Nation) que trata exatamente dessa alteridade. É muito confortável querermos nos afastar das atrocidades cometidas no passado como se aquilo não nos dissesse respeito, impondo a culpa num sistema que não nos pertence, em tempos em que não vivemos. Mas, como bem lembrou Virginia Woolf, a perpetuação dessa invisibilidade (e negar é vendar os olhos também) é nossa responsabilidade coletiva.

Poderia me alongar por horas escolhendo tantas outras passagens para incutir a discussão do racismo, por exemplo, que é só a faceta mais visível do legado da escravidão, mas acredito que só a leitura de Amada o fará com a devida justiça, uma vez que a obra é uma autorrepresentação da coletividade afroamericana, de onde Toni Morrison, destacando-se como uma voz negra, dirige-se à comunidade negra, mas nos lembrando de que há outras vozes em nossos meios que por muito tempo permaneceram silenciadas e submetidas, e que, infelizmente, continuam tendo de lidar com as feridas não cicatrizadas de um período tão triste.

“Algumas coisas vão embora. Passam. Algumas coisas ficam. Eu pensava que era minha rememória […]. Algumas coisas você esquece. Outras coisas, não esquece nunca. Mas não é. Lugares, os lugares ainda estão lá. Se uma casa pega fogo, desaparece, mas o lugar — a imagem dela — fica, e não só na minha rememória, mas lá fora, no mundo. O que eu lembro é um quadro flutuando fora da minha cabeça. Quer dizer, mesmo que eu não pense, mesmo que eu morra, a imagem do que eu fiz, ou do que eu sabia, ou vi, ainda fica lá. Bem no lugar onde a coisa aconteceu” (p. 60).

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Curiosidades:

Amada foi publicado em 1987 e rendeu à autora o Prêmio Pulitzer em 1988. Toni Morrison também foi a primeira mulher negra a receber um Prêmio Nobel, que lhe foi conferido no ano de 1993.

Nasceu em 1931, em Ohio – EUA, e faleceu em 05 de agosto de 2019, deixando obras que a consagraram pela representação da literatura negra (e feminina) descrevendo as dificuldades político-sociais enfrentadas pela comunidade negra.


Dados Técnicos do livro:

Capa comum: 368 páginas

Editora: Companhia das Letras; Edição: 1 (27 de agosto de 2007); 2ª Reimpressão

ISBN: 9788535910698

Título Original: Beloved

Livro adquirido em Livraria da Vila – Loja Aurora (Londrina/PR).

8 comentários

  1. A vontade que eu tenho é deixar de lado todos os livros que estão na lista e começar a ler Toni Morrison. Mas a hora certa vai chegar e eu vou ficar muito feliz de conhecer a escrita dessa autora maravilhosa. Parabéns pela resenha! Magnífica! ♥

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  2. Oies Isa! Eu amei a forma como vc descreveu sua experiência com esse livro que me marcou profundamente quando o li no ano passado. Como vc bem destacou é impossível falar de tudo que o que Toni Morrison retrata nessa obra tão rica e necessária sobre a escravidão e o racismo. Fiquei tão encantada que o meu objetivo é estudar Amada no mestrado…

    Curtido por 1 pessoa

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