Longa Pétala de Mar – Isabel Allende

Agora em janeiro eu e mais alguns parceiros do Grupo Editorial Record (edição 2019) nos reunimos para fazer a leitura coletiva de Longa Pétala de Mar, o mais novo romance de Isabel Allende.

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Adorei a experiência, e só tenho a agradecer à editora que me permitiu conhecer um pessoal super bacana e que vai continuar interagindo bastante, dentro ou fora da parceria.

Vou deixar a sinopse abaixo antes de trazer minhas impressões sobre o livro:


Sinopse:

“Em plena Guerra Civil Espanhola, o jovem médico Víctor Dalmau e sua amiga, a pianista Roser Bruguera, são obrigados a abandonar Barcelona, exilar-se e atravessar os Pirineus rumo à França. A bordo do Winnipeg, navio fretado pelo poeta Pablo Neruda, que levou mais de dois mil espanhóis para Valparaíso, eles embarcaram em busca da paz e da liberdade que não tiveram em seu país. Recebidos como heróis no Chile — essa “longa pétala de mar e neve”, nas palavras do poeta chileno —, os dois se integrarão na vida social do país durante várias décadas, até o golpe de Estado que derrubou Salvador Allende, com quem Víctor estava ligado por laços de amizade, graças à paixão pelo xadrez. Víctor e Roser se verão novamente desterrados, mas, como diz a autora: “quando se vive o suficiente, todos os círculos se fecham”. Uma viagem pela história do século XX, de mãos dadas com alguns personagens inesquecíveis que descobriram que numa única vida cabem muitas outras, e às vezes o difícil não é fugir, mas voltar.


Começo esclarecendo o título. Que é a Longa Pétala de Mar? É uma alusão ao poema de Pablo Neruda “Cúando de Chile¹”, que é como o poeta descreve seu país: 

“OH Chile, largo pétalo/ de mar y vino y nieve,/ ay cuándo/ ay cuándo y cuándo/ ay cuándo/ me encontraré contigo,/ enrollarás tu cinta/ de espuma blanca y negra en mi cintura,/ desencadenaré mi poesía/ sobre tu territorio.”

Todo o livro, aliás, me parece uma grande homenagem ao poeta chileno, já que cada um dos 13 capítulos tem como epígrafe versos de seus poemas. Eu, que só conhecia a poesia de amor de Neruda, me encantei com seus versos mais sociopolíticos.

Isabel Allende divide o livro em três partes: Guerra e êxodo; Exílio, amores e desencontros; e Retornos e raízes. Não sei dizer se é um recurso comum da escritora, mas os dois outros livros que li também contêm divisões que definem bem diferentes fases ou momentos da história e parecem resumir bem o que o leitor irá encontrar. O certo é que acompanharemos, nas pessoas do paramédico Víctor Dalmau e da pianista Roser Bruguera, os últimos 2 anos da Guerra Civil Espanhola e o início da Segunda Guerra Mundial. É nesse cenário que Víctor e Roser se veem obrigados a deixar a Espanha e a buscar refúgio na França. Não é spoiler dizer (já que mencionado na própria sinopse) que eles chegam à França e lá embarcam rumo ao Chile, no Winnipeg, navio fretado pelo poeta Pablo Neruda. Mais de 2000 espanhóis espremidos num navio que fora “concebido para vinte marinheiros em trajetos curtos”².

Explorando o cenário da Guerra Civil Espanhola e da Segunda Guerra Mundial, Isabel Allende extasia o leitor pela riqueza de informações em sua narrativa que não o cansam nunca. Embora só esse contexto muito bem traçado já bastasse para surpreender, seu talento alcança, juntamente com a chegada dos refugiados espanhóis no Chile, a realidade do país sul-americano nos anos de 1939 a 1973, culminando, então, no Golpe Militar no Chile, com a derrubada do presidente Salvador Allende e a ditadura de Pinochet, que se estendeu por 16 anos.

Todo esse longo percurso da história como pano de fundo torna-se fluido graças à trama, bem envolvente, e aos personagens, muito bem construídos. Roser, aliás, é minha personagem favorita do livro, uma figura feminina forte e destemida. E eu nem poderia esperar menos, vindo de Isabel Allende, uma feminista declarada.

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Gosto muito também como a escritora trabalha, em igual excelência, a verossimilhança na ficção e o lirismo em sua não-ficção. Na verdade, as duas modalidades se conversam muito bem, já que Allende sempre busca inspiração na vida real para seus livros e seus personagens. Víctor Dalmau, por exemplo, é um personagem inspirado em seu amigo Víctor Pey — a quem dedica o livro — e quem lhe contou sobre sua vinda ao Chile a bordo do Winnipeg. Víctor Pey e Isabel Allende se conheceram na Venezuela, quando ambos se encontravam exilados no país. Além disso, convenhamos, a própria vida da autora é recheada de ocorridos que rendem muitas histórias. Quem se impressiona com a riqueza de detalhes em Longa Pétala de Mar, sobretudo acerca da ditadura no Chile, não pode esquecer que a escritora viveu essa realidade e teve de se exilar na Venezuela. Sobre esse período, ela escreveu em seu livro autobiográfico La Suma de los Días: “Vengo de Chile, donde por dieciséis años la tortura estuvo institucionalizada; conozco el daño irreparable que eso deja en el ama de las víctimas, los victimarios y el resto de la población, convertida en cómplice”³.

Este é, portanto, um excelente livro para se ter um panorama geral sobre temas como imigração, refugiados, arbitrariedades e autoritarismo à luz de uma realidade que não nos é de modo algum alheia, porque, ainda que num aspecto fictício, narra fatos que realmente ocorreram, e aqui, na América Latina. A ficção muitas vezes serve não apenas como retrato da realidade, mas como uma reflexão e como um lembrete. Uma leitura que certamente recomendo.


Referências do livro:

¹ Vide p. 103.

² Vide p. 105.

³ ALLENDE, Isabel. La suma de los días. Buenos Aires: Debolsillo, 2016, p. 348.


Dados técnicos do livro:

Capa comum: 280 páginas

Editora: Bertrand Brasil; Edição: 1 (18 de novembro de 2019) *exemplar cortesia da editora – parceria 2019

ISBN-10: 8528624404 – ISBN-13: 978-8528624403

Título original: “Largo pétalo de mar”

Adquira seu exemplar preferencialmente no site da editora.

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