O Peso do Pássaro Morto

Quando terminei de ler O Peso do Pássaro Morto foi inevitável me sentir invadida por um sentimento real de fardo. Depois de um tempo razoável para digeri-lo, consegui finalmente articular, ainda que apenas mentalmente: O Peso do Pássaro Morto é o peso do mundo. No livro, podem não ser apresentadas todas as tristezas e todos os infortúnios da vida, mas, de alguma forma, eles estão ali representados; um livro que parece abraçar todas as dores do mundo, e o que se conclui é que “a cura não existe”. Da orelha do livro extraímos o seguinte questionamento: “Quantas perdas cabem na vida de uma mulher?”, e é ele o fio condutor deste pequeno romance.

Porém, ainda que adentre um tema delicado, declarando que o sofrimento é irremediável, há uma beleza inegável no livro: a placidez da resignação ao se compreender que a vida — essa mesma que inflige a dor —, segue seu curso, com novas dores, novas perdas, mas também com momentos de alegrias, com outros começos, outros recomeços, novas oportunidades.

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O Peso do Pássaro Morto, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2018, é um romance escrito em verso, e marca a estreia da autora paulistana Aline Bei.


Sinopse:

“A vida de uma mulher, dos 8 aos 52, desde as singelezas cotidianas até as tragédias que persistem, uma geração após a outra. Um livro denso e leve, violento e poético. É assim O peso do pássaro morto, romance de estreia de Aline Bei, onde acompanhamos uma mulher que, com todas as forças, tenta não coincidir apenas com a dor de que é feita”.


Como se denota da sinopse, acompanhamos o recorte da vida de uma mulher, cujo nome permanece anônimo do começo ao fim (muito embora seus conhecidos e amigos sejam devidamente apresentados ao leitor). Embora tal delineamento cubra um período relativamente longo (8 a 52 anos), há nítidos e deliberados marcos temporais — a própria idade da protagonista —, que se encontram, inclusive, estampados na capa: 8, 17, 18, 28, 37, 48, 49, 50 e 52 anos e impulsionam a história. Estas demarcações etárias são como breves pinceladas; a vida fazendo as vezes de tela, pronta para receber cada demão de tinta, e as pinceladas, a própria narrativa: artísticas, com a destreza se traduzindo em pura poética, mas ao mesmo tempo impetuosas, com a marca indelével da violência.

Interessante, ainda, já que iniciei essa analogia artística, como a autora brinca com a escrita, quebrando frases ao meio, utilizando-se de letras maiúsculas para substantivos e minúsculas para nomes próprios. Há, assim, uma plasticidade nas palavras, que ganham ora ênfase, ora novo significado. É como se a autora se pusesse a contar uma história que já está dada, mas sob nova roupagem, ressignificando os eventos da vida, inclusive os mais devastadores:

“– o que é morrer?

ela estava fritando bife pro almoço.

– o bife

é morrer, porque morrer é não poder mais escolher o que farão com a sua carne.

quando estamos vivos, muitas vezes também não escolhemos.

mas tentamos.

almoçamos a morte e foi calado.”

O Peso do Pássaro Morto é desses livros de rápida leitura, mas cujas impressões  ficarão ainda por muito tempo reverberando na memória do leitor.


Dados técnicos do livro:

Capa comum: 168 páginas

Editora: Nós (1 de junho de 2017)

ISBN-10: 8569020236 – ISBN-13: 978-8569020233

Livro adquirido em Livraria da Travessa – Loja Pinheiros (São Paulo/SP)

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