A elegância do ouriço – Muriel Barbery

O ano de 2020 já começou com excelentes escolhas! E não foi diferente com o livro selecionado pelo @rodrigoeoslivros, A elegância do ouriço, para retomarmos nosso clube de leituras, o Clube do Curinga. Abaixo vou deixar os links para as resenhas dos demais participantes, e atualizo conforme elas forem sendo postadas.

Resenha do Rô (vídeo)

Resenha da Day


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Sinopse:

Publicado em 2006, A elegância do ouriço logo se transformou numa das melhores surpresas da literatura contemporânea, com mais de 850 mil exemplares vendidos na França. A receita de Muriel Barbery pode parecer esquisita: reunir, num prédio sisudo de um bairro elegante de Paris, uma zeladora de meia-idade, culta e desconfiada, uma adolescente  calada e pensativa, um senhor japonês misterioso e sorridente; acrescentar um cocker lúbrico, um crítico de gastronomia à beira da morte e uma faxineira portuguesa que nasceu para rainha. Mas o resultado é o mais delicioso dos romances filosóficos. Repleto de humor e birra, de crise adolescente e melancolia madura, A elegância do ouriço conduz seus personagens e seus leitores às questões que nenhuma vida vivida a fundo deveria evitar: o tempo e a eternidade, a justiça e a beleza, a arte e o amor.


Começo dizendo que este talvez seja um daqueles livros que todo mundo deveria ler e, de preferência, reler, em vários momentos da vida, porque é justamente dessas leituras que, espreitando a vida alheia (ainda que ficcional), nos faz pôr em perspectiva nossa própria existência.

Renée Michel é a concierge no prédio localizada no número 7 da Rue de Grenelle, em Paris. Em suas próprias palavras, Renée diz: “Sou viúva, baixinha, feia, gordinha tenho calos nos pés, e, em certas manhãs autoincômodas, um hálito de mamute […] Não estudei, sempre fui pobre, discreta e insignificante”. Optando por manter a crença social de que concierges não são dadas ao estudo, à cultura e às artes, Renée deixa audivelmente a TV do hall de seu apartamento ligada todas as noites, depois de desempenhar com sucesso o papel perfeito servindo aos ricos moradores do palacete onde mora. O porém é que isso se trata apenas de um disfarce para poder se embrenhar em suas leituras, com uma  forte inclinação para os livros de filosofia (edições Vrin), sem ser incomodada por ninguém, sem despertar suspeitas ou, pior, interesse das pessoas. Ninguém desconfia de sua autodidaxia e sua inteligência acima do comum. E ela prefere que assim seja.

Neste mesmo edifício, conhecemos Paloma, uma pré-adolescente de 12 anos. A garota, assim como Renée, é dona de uma inteligência excepcional, mas, como comumente ocorre com aqueles de intelecto muito alto, não alimenta nenhuma ilusão quanto ao sentido da vida, e, assim, colocou na cabeça que iria se suicidar ao completar 13 anos e tocar fogo no apartamento. Mas isso, obviamente, também é um segredo, assim como não deixa transparecer toda sua inteligência, porque acredita que “[…] numa família em que a inteligência é um valor supremo uma criança superdotada nunca ficaria em paz […]”.

Até que chega ao prédio um misterioso novo morador, o Sr. Kakuro Ozu, que logo de cara põe por terra a máscara de ambas as personagens, e a história torna-se ainda mais intrigante.

O tom da narrativa, assim, segue entre Renée como nossa protagonista, contando-nos de sua vida, de forma não cronológica, alternados com os registros de Paloma, que acompanhamos através de seus dois diários, um sobre os movimentos do mundo, onde ficam seus apontamentos sobre coisas bonitas que ela viu; e o outro sobre seus pensamentos profundos, que são textos bastante críticos sobre a vida, as pessoas, o mundo em si.

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Quem costuma não gostar de histórias cujas vozes se interpolam pode encontrar alguma tranquilidade ao se deparar com a curiosa escolha tipográfica marcando os diferentes discursos. Além disso, embora cada capítulo contenha passagens por vezes densas e vultosas, eles são bem curtos, o que nos permite ir digerindo sua narrativa ainda que inconscientemente ao longo de cada uma dessas pequenas pausas.

A história pode parecer de início bastante enfadonha para quem aprecia verdadeiras tramas ao invés de romances mais reflexivos, mas sua beleza está justamente em enxergar toda a vida acontecendo quando nada parece estar acontecendo. Quem não for capaz de atingir essa intensidade ainda não está pronto para esta primeira leitura, e sugiro gentilmente que tente outra vez daqui alguns anos. Não que a pessoa tenha que terminar o livro apaixonada como fiquei, mas se ele não a tocar de alguma forma, creio que não era o momento certo.

Pontuado com um conteúdo bastante crítico, sobretudo em relação à estratificação social, o livro nos faz questionar muito sobre os valores da sociedade em confronto com os valores pessoais, e o resultado disso foi o da imagem: um livro cheio de post-its.

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De minha parte, portanto, confesso que amei o livro e chorei horrores, de ficar deformada. E não foi ao longo de todo o livro, mas uma desolação que veio de repente, num turbilhão, e só foi crescendo ao final da leitura. Não me recordo de ter demorado tanto a me recuperar como dessa vez. Ainda assim, é preciso lembrar que essa mesma história possibilitou minha imaginação criar cenas belíssimas em minha mente, fortalecendo minhas esperanças no mundo — um deleite de leitura.

Sem spoilers, que cena linda a vida permitindo o encontro improvável de pessoas fascinantes! Me faz pensar realmente como as amizades surgem nos lugares mais inesperados, inclusive no número 7 da Rue de Grenelle. Inclusive em minha, e (por que não), na sua rua.


Dados técnicos do livro:

Capa comum: 352 páginas

Editora: Companhia das Letras; Edição: 1 (18 de fevereiro de 2008) – 22ª reimpressão

ISBN-10: 9788535911770 – ISBN-13: 978-8535911770

Título original: L’élégance du hérisson

 

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