A terra inteira e o céu infinito – Ruth Ozeki

Antes mesmo de expor a sinopse desse livro, acho importante deixar o alerta de que a obra contém descrições de cenas de violência sexual e física, além de inúmeros outros assuntos sensíveis que podem funcionar como gatilhos.

Até pouco tempo atrás eu não me preocupava tanto em fazer esse tipo de aviso, porque não me parecia algo tão relevante assim. Acontece que o assunto surgiu num dos debates do Clube do Curinga, e na ocasião eu havia dito que não tinha ainda um posicionamento sobre a necessidade de o autor ou autora sinalizar alguns conteúdos, tais como fazem os filmes ao dar a classificação por faixa etária. Mas isso era antes; foi justamente este livro que me ajudou a formar uma opinião. Acredito que é importante, sim, o alerta, e, se não do autor, autora, ou da editora, ao menos de nós, leitores que gostam de compartilhar as impressões de nossas leituras e acabamos por influenciar outras pessoas a lerem determinada obra também. Por outro lado, entendo que o assunto é muito mais complexo do que parece. Afinal, o que pode servir de gatilho para uma pessoa pode não servir para outra. Mas aqui entendo que deve prevalecer o velho ditado: “quem avisa, amigo é “. Para livros que tocam em assuntos indiscutivelmente mais delicados, deixe o alerta. Caberá à pessoa o poder de decidir se irá ler ou não.

Estou dizendo tudo isso antes da sinopse porque ela já explicita alguns temas sensíveis, e talvez haja quem preferisse nem ter de lê-la, razão pela qual, caso leia, se ela não lhe agradar, não recomendo a leitura do livro. Mas se não for um problema para você, siga firme lendo o post e o livro também.


Sinopse:

“O QUE ACONTECE QUANDO UM DIÁRIO PERDIDO ENCONTRA O LEITOR CERTO? Numa remota ilha do Canadá, a escritora Ruth cata mariscos com o marido na praia quando se depara com um saco plástico coberto de cracas que envolve uma lancheira da Hello Kitty. Dentro, encontra um livro de Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, e se surpreende ao descobrir que o miolo, na verdade, é o diário de uma menina japonesa, Nao. A sacola misteriosa, segundo os rumores dos habitantes, é mais um dos destroços do último tsunami que devastou o Japão e foi levado pelas correntezas até a ilha.Desde então, Ruth é tragada pela história do diário de Nao, uma menina que, para escapar de uma realidade de sofrimento – de bullying dos colegas e de um pai desempregado e suicida –, resolve passar seus últimos dias lendo as cartas do bisavô, um falecido piloto camicase da Segunda Guerra Mundial, e contando sobre a vida da avó, uma monja budista de 104 anos. O que Ruth não esperava era que o diário iria levá-la a uma viagem onde ela e Nao podem finalmente se encontrar fora do tempo e do espaço.”


Minhas impressões:

O livro apresenta duas linhas narrativas, sendo que uma delas, na verdade, está contida na outra. Ruth, uma escritora que vive numa isolada ilha da costa Oeste do Canadá, na Colúmbia Britânica, caminhando um dia pela praia, encontra uma sacola e a leva para casa. Instigada pelo marido, Oliver, Ruth abre a sacola e encontra um diário, escrito por uma adolescente japonesa chamada Naoko. Como o diário teria atravessado o oceano e ido parar lá é um mistério, mas uma teoria é levantada pelo casal.

Os capítulos, portanto, irão se alternar entre o diário de Naoko e o cotidiano de Ruth depois que ela o encontra e começa a lê-lo. O livro já se inicia com o diário de Naoko, o que acaba sendo um verdadeiro convite ao leitor para ingressar numa jornada desconhecida.

As partes do diário de Naoko começam de forma descontraída e com um toque de humor, mas não se deixe enganar por isso. Ele vai ficando pesado, e inúmeras situações ali descritas são muito tristes. Além do mais, há muita autodepreciação, às vezes até feita de forma irônica, mas que eu também achei de cortar o coração. Ainda assim, foram justamente nos trechos do diário que encontrei uma sensibilidade enorme, principalmente porque Naoko fala muito sobre sua bisavó de 104 anos (a sinopse está errada, não é avó), Jiko, uma monja zen budista; estes trechos sim me fizeram verter lágrimas. Que bom que as coisas bonitas ainda são as que mais me atingem.

Já os capítulos de Ruth são mais lentos, densos e até difíceis, quando surgem determinados assuntos ligados a filosofia e ciências (física e biologia) de um modo geral. Oliver, seu marido, por exemplo, é um personagem que contracena com ela e serve de gancho para tais assuntos. Ainda que algumas pessoas possam se entediar nessas partes, eu achei tudo muito bem dosado, fazendo da obra uma experiência muito agradável de leitura, que abarca desde o zen budismo a teorias da Física, passando ainda por dilemas morais das tecnologias. Que grata surpresa tive com esse livro! Em muito momentos ele me lembrou um pouco “A Elegância do Ouriço” e “O Mundo de Sofia”, e, caso você já tenha lido algum deles e gostado, acho que poderá gostar desse também, lembrando, claro, que este livro, diferente de “O Mundo de Sofia”, é mais voltado para um público adulto.

Outro ponto que nem sempre destaco nas resenhas mas pelo qual gostaria de parabenizar a editora, são as notas do livro. Que zelo! Até os kanjis (ideogramas) são colocados, o que achei muito curioso e útil, do ponto de vista de alguém que tem intenção de aprender mais sobre a língua japonesa. Mas mesmo quem não tem, elas são muito boas para entender algumas coisas da cultura do país asiático, além de que achei interessante a opção por deixar de traduzir algumas expressões ou palavras.

Este é um livro doloroso, mas belo à sua maneira. Com passagens que adentram a cultura japonesa e suas crenças, ganha toques também de realismo fantástico, mas diferentemente daquele encontrado na escrita de Haruki Murakami, por exemplo, parece haver um propósito metafórico em suas aparições, o que torna tudo ainda mais bonito e significativo (li que se trata de um metaromance). É uma leitura que vou carregar muito tempo ainda comigo, do tipo que nos faz querer sempre tornarmo-nos melhores e nos enche de esperança.


Dados Técnicos do Livro:

Formato : eBook Kindle
Autora: Ruth Ozeki
Editora: Casa da Palavra (1 de abril de 2014)
Número de páginas : 464 páginas – Tamanho do arquivo : 1991  KB
ASIN : B00JBQZIRE

Título original: A tale for the time being

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