A Morte de Ivan Ilitch – Liev Tolstói

Novamente, com a leitura de outra obra de Tolstói, começo o post agradecendo as meninas do mesmo grupo #LendoAnnaKarenina2020, organizado pela @leiacarlaleia, meninas com as quais tive o prazer de ler “A Morte de Ivan Ilitch”. Aliás, quem tiver interesse em Leituras Coletivas, principalmente de obras mais clássicas ou volumosas (e daquelas que geralmente ficam muito tempo estacionadas nas nossas estantes), sugiro que deem uma olhada no perfil da Carla para ver as próximas leituras que irão rolar. O grupo até mudou de nome, passando a se chamar: “Às Vezes, Calhamaços”. Por enquanto, para 2021, está programado a leitura de “Memorial do Convento”, de José Saramago. Espero poder participar.

Sem mais delongas, vamos falar desse pequeno romance incrível que é “A Morte de Ivan Ilitch”.


“A Morte de Ivan Ilitch” é a prova de que grandes obras não necessariamente são longas. O que é bem dito, pode ser dito em poucas palavras. Essa minha edição da @antofagica, por exemplo, conta com um total de 312 páginas, mas deve-se lembrar que: a) é uma edição de bolso, b) contém ilustrações ao longo de todo o livro e, c) contém material extra – 1 texto de introdução e mais 4 textos de apoio. Algumas edições possuem uma média de 80 páginas, uma leitura, portanto, muito rápida, mas que tenho certeza que marcará seu leitor por muito tempo, e, se persistir seu efeito, por toda a sua vida.

A morte é o tema deste livro, mas quando a morte se delineia no horizonte, a vida também com ela caminha, de mãos dadas. Não há como se debruçar sobre o caixão do defunto Ivan Ilitch sem rever sua vida. A morte destaca-se já no título, e seu evento, inclusive, abre o livro, com a notícia num jornal sendo lida por um colega magistrado durante o intervalo entre-sessões do tribunal.

Tudo é muito cru neste livro, como a verdade. Ivan Ilitch mal partira do mundo e já começaram as especulações de quem o substituirá no cargo; seus colegas são visitados também pela sensação incômoda de ter de ir ao velório prestar condolências à viúva, e mesmo lá estando, ninguém parece estar presente de alma no lugar, já estão apenas pensando em cumprir logo o encargo, despedir-se de Praskóvia (esposa de Ivan) e se reunirem para a próxima partida de vint (um jogo de baralhos).

Para entender essa atmosfera do velório, cheia de aparências e convenções sociais, o narrador retoma a vida de Ivan Ilitch, dizendo que a sua história pretérita “era a mais simples e comum e também a mais terrível”, ponto a partir do qual o leitor recebe o convite de dar as mãos à vida e à morte, não só de Ivan, mas à própria também.

A história de vida de Ivan, por mais elevado que seja seu cargo, ainda é preenchida por um vazio que incomoda tanto o personagem quanto o leitor ao vislumbrar o fim: a morte. Dizemos que a vida não tem um roteiro exato, embora todos saibamos onde ela acaba. Mesmo assim, há um padrão esperado: almeja-se uma carreira que garanta um estilo de vida estimável, um bom casamento que renda status e filhos, e um lar digno de abarcar e sinalizar todas essas conquistas. Ivan galga todos esses degraus, mas ao se deparar com a morte, torna-se impossível afirmar que viveu sua vida conscientemente da melhor forma. Esse tormento, junto com as dores da doença que o acomete, é um tormento também ao leitor, que deverá começar a se questionar sobre o propósito de sua própria vida, ainda que sem compartilhar das dores de Ivan.

Tudo não passa de aparências, essa é a impressão que fica. E tão vazia é a vida que pode ser narrada em tão poucas páginas, onde o ápice é o encontro com o fim da vida e o fim da morte. O brilhantismo de Tolstói cumpre-se, entretanto, nessas poucas páginas, pela universalidade de seu tema, pela perfeição das situações descritas e por reflexões que atingem o leitor da mesma forma que atingiu o próprio escritor.

Os textos de introdução e apoio já conduzem o leitor para tais reflexões, mas também fornecem outras perspectivas (histórica, biográfica e psicológica) muito válidas e interessantes, que enriquecem ainda mais o valor desta obra atemporal.


Dados Técnicos do Livro:

Capa dura: 312 páginas
Autor: Liev Tolstói
Editora: Antofagica Editora (15 de julho de 2020)
ISBN-10: 6580210168 – ISBN-13: 978-6580210169
Título original: Смерть Ивана Ильича*
*Tradução do russo por: Lucas Simone
Edição adquirida online da Livraria Martins Fontes.

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