A Traveler at the Gates of Wisdom – John Boyne

Sabe quando um livro serve para ilustrar várias coisas, e, não necessariamente, positivas? Por exemplo: que sempre haverá uma primeira vez para você se decepcionar com um livro de seu autor preferido, que muitas vezes, menos é mais, que não se deve ir com tanta sede ao pote (e isso serve tanto para o autor quanto para o leitor). Foram esses os ensinamentos, para mim, que tirei da leitura de “A Traveler at the Gates of Wisdom”, ainda sem tradução por aqui (e sinceramente, achando que nem é necessário, viu, Companhia das Letras?)

Logo no início da leitura desse livro eu decidi fazer o seguinte registro, que deixo abaixo. Quem quiser partir direto para minhas impressões, fique à vontade. Preciso tanto desabafar sobre essa leitura que talvez o post fique um pouco extenso:

“Comecei a ler o livro sem nem fazer ideia do que ele tratava, já que nem sequer fui atrás de uma sinopse. Bastou saber que era um livro do John Boyne para me decidir por lê-lo, mas logo nas páginas iniciais houve um estranhamento. Uma nota do próprio autor alertava para os nomes das cidades que foram utilizados conforme eram chamadas à época em que se passa cada evento narrado, e outras, que continuam com seus respectivos nomes utilizados até os tempos atuais. Até aí, tudo bem, mas não foi com menos espanto que, ao cruzar a linha do real início da narrativa, percebi que ela partia do ano 1 d.C. Terminado o primeiro capítulo, fui levada já ao ano 41 d.C. e para outro lugar, tudo até então sendo narrado em primeira pessoa. Ficou a dúvida quem estava contando cada capítulo.

“Dando uma espiada no sumário do livro, percebi que o avanço da narrativa de dará ainda por muitos outros lugares do planeta e ao longo de dois milênios, o que me pareceu um projeto bastante ambicioso, mesmo para um autor reconhecido por seu enorme talento para a escrita da ficção histórica.

“Como a narrativa dos dois primeiros capítulos estava agradável, porém, decidi levar a leitura adiante, curiosa para saber quando chegaria o momento que unisse tantas épocas e povos distintos.”


Minhas Impressões sobre o livro:

O comentário acima, para quem leu, esclareço, é de alguém que estava muito ansiosa pela leitura de mais um livro do John Boyne, mas ainda não sabia o que estava por vir, e por isso, pode ter sido um tanto ingênuo.

O livro é um romance de formação não convencional, contada pela perspectiva de seu protagonista (anônimo do começo ao fim). Por que não convencional? Pois a cada capítulo é como se sua história se transportasse para um outro ano, em outras terras e cultura, mas com o leitor acompanhando sim o desenvolvimento desse narrador-personagem. A história começa no ano 1 do nascimento de Cristo, na Palestina, e seu desenrolar ultrapassa os dias atuais, num lugar que eu jamais haveria cogitado. Além dessa mudança temporal e geográfica, que se segue repetidamente a cada capítulo, os personagens que orbitam à sua volta também têm seus nomes alterados, com a “conveniência” de Boyne ter mantido as mesmas iniciais para eles: por exemplo, o pai sempre tem um nome com a letra “M”, a mãe com a letra “F”, o irmão com a letra “J”, e por assim vai. Digo conveniência porque são muitos capítulos, e embora seja fácil relacionar a cada “reboot” da história, vamos chamar assim, o lugar correspondente de cada personagem na árvore genealógica do narrador, o resultado poderia ser um pouco mais desastroso sem esse recurso.

Sim, o livro é um desastre. Lá no inicio do post, havia dito que “menos é mais”. John Boyne, para mim, tinha muitas qualidades, mas parece ter abusado delas aqui. Se, por exemplo, “As Fúrias Invisíveis do Coração” -— um livro extremamente lindo — se passa por um longo período de tempo, aqui, Boyne extrapolou esse limite ao se desafiar a percorrer 2 milênios. Da mesma forma, se o forte dele era a ficção histórica, com uma cuidadosa pesquisa, aqui, esse imenso recorte temporal parece ter exigido demais de sua minuciosa tarefa, e saiu um tanto quanto desleixada, pois, além de lhe conferir a inesquecível gafe de mencionar uma técnica de tingimento de tecido retirada diretamente de um tutorial do jogo de “Zelda: Breath of the Wild”, fez com que ele voltasse mais sua atenção para a contextualização histórica de cada capítulo do que para o andamento da narrativa em si. Ainda, se em outros trabalhos do autor era divertido o fato de ele inserir personagens de outros livros, aqui, isso me irritou muito. Quando surgiu um personagem de “O Ladrão do Tempo” na história, minha reação foi de perplexidade: “não acredito que ele fez isso!”, porque a impressão que tive é que essa foi uma de suas maiores preocupações, e que ele não via a hora de poder fazer a brincadeira do Easter Egg, novamente, esquecendo-se da qualidade da história. Um descarrilamento atrás do outro.

Em determinado ponto do livro, achei que tinha encontrado seu ponto-chave, sua proposta, por assim dizer, numa passagem aos 60% do livro, quando o narrador, numa conversa, diz à sua interlocutora:

“[…] as coisas que nos rodeiam podem mudar, mas nossas emoções irão sempre permanecer as mesmas […] O amor não muda, a raiva nunca varia. Esperança, desespero, medo, saudade, desejo, luxúria, ansiedade, confusão e alegria; você e eu suportamos essas emoções exatamente como homens e mulheres têm suportado ou irão suportar […]. O mundo à nossa volta pode estar em constante fluxo de mudança, mas o universo adentro? […]. Nada disso irá mudar algum dia”. *Livre tradução.

Porém, quando chegamos aos capítulos finais, não encontrei nenhuma relação com essa aparente proposta de universalidade de emoções e os fatos descritos, e me vi mais uma vez sem entender qual o propósito do livro, frustrada por mais um descarrilamento. Aliás, como muita pouca coisa realmente acontece ao longo da narrativa, nos capítulos finais, há um novo estranhamento, porque, se antes o ritmo era muito lento e tedioso, no final, ele parece dar uma acelerada que, infelizmente, não se torna sinônimo de empolgação, mas sim de um completo esvaziamento da proposta e que deixa o leitor perdido — e com a sensação de que o próprio autor se perdeu em algum ponto da história.

Enfim, fosse essa ou não a proposta de Boyne, de escrever uma história sobre a universalidade dos sentimentos humanos ao longo dos milênios, em qualquer lugar da face da Terra, ela foi bastante ousada, e o que se nota, porém, é que nem John Boyne estava à altura da execução de tal projeto.

Talvez o único elogio que eu possa fazer é que o autor mantém uma boa escrita, no sentido de escolha de palavras, de nos deixar curioso para dar continuidade à leitura, mas o que se constata é que somente uma boa escrita não se sustenta sem uma boa história. Essa curiosidade pela continuidade da história é frustrada tantas vezes — porque quando se toma gosto pelos eventos de um determinado capítulo, ele logo acaba, e somos levados novamente a uma nova contextualização de tempo e história —, que chega um momento que a vontade é só de largar o livro e partir para outra leitura.

Como alguém que já leu treze de suas obras, sinceramente, acredito que já estava mais do que na hora de ter minha primeira decepção com um livro seu, mas, ainda assim, parecia que esse momento nunca chegaria, e cá estou, experimentando essa frustração.

Mas me conte, você, já teve sua decepção literária com seu autor favorito? Qual foi ela?


Dados Técnicos do Livro:

Formato: eBook Kindle
Autor: John Boyne
Editora : Hogarth (11 agosto 2020)
Número de páginas : 441 páginas – Tamanho do arquivo : 11011 KB
ASIN : B087PLYRLW

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