Passagens de livros com as quais me identifico

Toda pessoa que já leu um número suficiente de livros, em algum momento, se deparou com determinada passagem que parece ter sido escrita para si própria. Obviamente, os livros não são apenas para confirmar os sentimentos e experiências de mundo que carregamos dentro de nós mesmos, mas é inegável que um de seus efeitos é justamente esse de fazer ressonância com nosso próprio jeito de ser e, consequentemente, nos maravilhar por esse reconhecimento num outro que muitas vezes é apenas ficcional.

Como bem descreve Michèle Petit em “A Arte de Ler ou Como Resistir à Adversidade”, eu expressaria essa sensação com suas palavras: “uma felicidade em encontrar palavras à altura do sentimento que se experimenta.” E, daí, surgiu também a ideia desse meu post, dada à necessidade de trazer algumas dessas passagens que provocaram tal ressonância em mim. Nada mais que “um desejo de compartilhar, de levar correndo ao outro o que se descobriu”.

Assim, pretendo com esse post não apenas deixar soltos alguns trechos de livros, mas também falar um pouco sobre mim, essa pessoa por trás das leituras. Quem se identificar, por favor, me diga se temos algo em comum além da paixão pelos livros!


  • O Dia do Curinga – Jostein Gaarder:

“Mas o interesse de meu pai pelos curingas tinha uma outra razão mais profunda do que essas reflexões de natureza prática: é que no fundo meu pai se considerava, ele mesmo, um curinga. Só raríssimas vezes ele chegou a verbalizar isso assim, de maneira textual; mas eu sabia fazia muito tempo que ele se considerava uma espécie de curinga dentro de um baralho […] Um curinga é […] uma figura diferente de todas as outras […]. É um caso à parte […]. Ele está no mesmo monte das outras cartas, mas aquele não é seu lugar. Por isso pode ser separado do monte sem que ninguém sinta falta dele.”

Claro que eu ia começar com um trecho de “O Dia do Curinga”, livro que, aliás, deu origem ao Clube de Leituras do qual faço parte (todos os 4 membros integrantes fixos, fundadores, etc. do grupo lemos o livro e adoramos): o Clube do Curinga.

Para dizer bem a verdade, não sei se os outros do clube também se sentem ou já se sentiram assim, mas eu me lembro da primeira vez que li este livro e me identifiquei muito com essa passagem. Sempre me achei muito diferente, sabia que eu era diferente das outras crianças, não apenas por ter me tornado uma garota retraída, que vivia num mundo próprio, mas porque sentia que eu tinha uma cabeça realmente muito diferente das de outras crianças. Era introvertida, sim, mas com preocupações muito além das esperadas de uma criança, mas não era apenas isso. Tinha muitos questionamentos sobre a vida, que talvez fossem mais comuns de encontrar na cabeça de uma senhora de 80 anos questionando-se sobre a vida que levara. A diferença era que eu teria ainda uma vida toda pela frente (ou assim ainda espero). Claro que isso provocou em mim – e ainda provoca –, certo distanciamento das pessoas, uma reserva enorme, por não encontrar muitas vezes sintonia na forma de pensar e de ver o mundo: valorizamos coisas diferentes. Mas foi com essa passagem, e muitas outras parecidas, que passei a tomar consciência dessa diferença de forma positiva, a me aceitar como era e sou e até me sentir bem comigo mesma. Hoje, adoro ser essa Isa curinga, autêntica, e que começou também uma coleção de cartas curingas por causa do personagem.

Você também se sente um curinga em meio às outras pessoas?

  • A Livraria Mágica de Paris – Nina George:

“Existem mulheres que sempre olham à outras apenas nos sapatos, nunca no rosto. E outras que encaram as mulheres sempre no rosto e raramente nos sapatos”. Lirabelle preferia as do segundo tipo; ela se sentia humilhada e subestimada pelas do primeiro”.

Justamente por considerar que tenho alguns valores diferentes, é muito comum eu me sentir julgada pelas pessoas – e infelizmente, a maioria das vezes, por mulheres – por causa de como me visto, por exemplo, como se não atendesse as expectativas de aparência e não fosse digna de presença ou até de ser levada a sério. Isso já me chateou bastante em muitos momentos, mas hoje em dia eu penso que tenho muitas outras prioridades na minha vida do que me importar com olhos julgadores. Sei que primeiras impressões são fortes, e reconheço que muitas vezes importantes, mas também penso que quem vê cara, não vê coração e que muitas vezes mais perde quem julga os outros pela aparência do que as portas que eventualmente se fecham para as “foras-dos-padrões” por conta disso. Como? Bom, perde de conhecer muitas pessoas incríveis, tenho certeza, porque pessoas incríveis estão ocupadas demais tentando fazer algo de bom para o mundo em vez de apenas se meter na vida dos outros ou só olhar para o próprio nariz. Claro que você pode ser incrível e ainda atender a essas expectativas sociais, mas esse tipo de gente eu sei que não irá julgar os outros pela aparência.

Você acha que é do tipo que julga as pessoas pela forma como ela se veste? Acha que olhar os sapatos antes de olhar o rosto de alguém é uma postura esnobe?

Tem resenha do livro aqui.

  • Um Milhão de Finais Felizes – Vitor Martins:

“Essa é a terceira vez que vou ao apartamento de Isa desde que ela se mudou para lá, há mais ou menos um ano. Não me sinto muito à vontade porque tenho quase certeza que uma das colegas de Isa me odeia porque uma vez eu pisei de tênis no tapete do banheiro. O nome dela é Tamara e as únicas palavras que ela me disse até hoje foram “Eu não acredito que você pisou de tênis no tapete do banheiro”, então tenho motivos reais para acreditar que a garota não gosta de mim.”

Essa frase é do narrador, e sim, ele tem motivos reais para acreditar que a garota não gosta dele. Eu também não gostaria se alguém pisasse no meu tapete de banheiro de tênis. Aliás, não gosto, fica a dica.

Gente, esse livro é maravilhoso, de fazer rir e de fazer chorar. Tenho certeza que há muitas passagens muito mais dignas de menção do que essa, mas eu ri por dentro quando li esse trecho, porque se tem alguma coisa que eu realmente detesto é as pessoas carimbarem o chão (da cozinha ou do banheiro, que são áreas que geralmente pinga água ou têm certa umidade) com a sola de seus calçados. Aqui em casa não entramos com sapato da rua. É preciso tirá-los assim que entra e não me importo que fiquem entulhados na porta enquanto a pessoa, visita ou quem quer que seja, estiver em casa. E para piorar (sim, porque sempre se pode ser mais chato, reconheço), no banheiro eu gosto que entre com os pés descalços. Mesmo no inverno (e o piso fica geladíssimo). Não pensem que sou a maníaca da limpeza, porque realmente não sou, embora chão sujo dentro da minha própria casa me incomode muito, há muitas outras coisas que não me incomodam.

Vocês têm alguma chatice dentro da própria casa?

Tem resenha do livro aqui.

  • Do que eu falo quando falo de corrida – Haruki Murakami:

“Correr tem muitas vantagens. Em primeiro lugar, você não precisa de ninguém mais para fazer isso, e não precisa de nenhum equipamento especial. Não precisa ir a nenhum lugar especial para fazê-lo. Contanto que disponha de um par de tênis de corrida e uma boa pista ou rua, pode continuar correndo enquanto sentir vontade. Jogar tênis é completamente diferente. Você precisa se deslocar até uma quadra, e precisa de alguém para jogar com você. Nadar é algo que dá para fazer sozinho, mas mesmo assim é necessário ir até uma piscina”.

Dada minha personalidade de alguém que se sente bem confortável tendo somente eu mesma como companhia, não encarando isso como solidão, não é nenhuma surpresa que minhas duas atividades esportivas favoritas sejam a corrida e a natação. A natação abandonei já alguns anos, exatamente pelos motivos apontados por Murakami: é preciso uma piscina. E uma piscina digna de natação demanda você se inscrever numa aula de academia – e pagar por isso –, ou num clube – e pagar por isso.

Adoro a sensação de correr, principalmente na rua. Não sou uma corredora veloz, o importante é sempre a meta, o percurso. Atualmente, em tempos de pandemia e final de gestação, não estou nem correndo, mas assim que puder retomar minhas corridas, ficarei muito satisfeita. E a ideia é levar o marido junto para caminhar com o bebê, afinal, embora eu possa ir sozinha correr (e quase sempre o fiz), é sempre um bônus trazer alguém sedentário junto para incentivá-lo a mudar seu estilo de vida.

Você pratica algum esporte? Prefere os esportes coletivos ou individuais?

E também quero saber: tem alguma passagem que te marcou muito enquanto você lia, por uma enorme identificação também?

9 comentários

  1. Que ideia de post bacana! Eu também detesto ver o chão do banheiro sujo, principalmente depois que lavei. Não entendo qual a necessidade de entrar no cômodo calçado hahahaha E quanto aos esportes, confesso que sou beeem preguiçosa – mas se fosse para começar a praticar um, escolheria a corrida!

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  2. Amei o post! Me identifiquei com o segundo trecho, que neste caso eu sempre me senti a pessoa julgada. Quanto à questão da limpeza do chão, não me incomodo muito com essas coisas e com relação ao último trecho, amo estar em minha própria companhia. Sou muito sedentária, estava fazendo pilates, mas aí veio a pandemia e já era…:) 🙂

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  3. Eu me identifiquei tanto com seus comentários sobre O dia do curinga e a Livraria Mágica de Paris, que até já coloquei esses livros na minha lista de desejos de leitura. Também sou introspectiva e já me senti um peixe fora d´água em várias situações, por me sentir e pensar um pouco diferentes dos demais. Felizmente agora eu consigo lidar melhor com isso… Também sou do time dos esportes individuais, inclusive preciso voltar ao meu projeto de corrida rsrs.

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  4. Pratiquei vários esportes na infância e adolescência. Nem sempre era a melhor, mas era boa em tudo. Rsrsrs. Gostava de correr, justamente pelos motivos mencionados. Atualmente, estou impossibilitada de correr.
    Também sempre me senti diferente. Participo, sim, de vários grupos, rodas. Respeito a forma como as pessoas pensam, valoram a vida, mas pouco me identifico com elas, salvo em raras situações.
    A forma de viver é fruto de escolha.
    Não sou aquela dona de casa da mística feminina, mas não gosto que carimbem o tapete do banheiro ou o chão da cozinha. Na verdade, não gosto de bagunça. Me incomoda!
    Não há como negar que presto atenção no conjunto de uma pessoa. Isso inclui, o jeito de ser, agir, modo de pensar, falar, vestir, etc… A boa aparência é agradável, mas não significa que se trate de boa pessoa.

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