Vamos Comprar um Poeta – Afonso Cruz

“Vamos comprar um poeta”, de Afonso Cruz foi a escolha para fevereiro no @clubedocuringa

Um livro tão pequeno mas de uma sensibilidade enorme, que nos faz questionar o “inutilitarismo” da poesia, das artes e tudo mais que não gere lucro. 

Já pensou viver num mundo em que tudo é pautado apenas no que pode ser contabilizado e tenha alguma forma de lucro, utilidade ou negociação? 

Este livro nos traz uma fábula com esse frio cenário distópico, mas cuja crítica, infelizmente, nunca deixa de ser atual, já que na história e na atualidade não nos faltam exemplos de governos que queimam e censuram livros, obras de arte, que querem manter seu povo na comodidade da ignorância e da insensibilidade, que não valorizam a cultura e educação, e que despreza o ensino e pesquisa no campo das humanidades. 

Na fábula, uma menina pede a seu pai que lhe compre um poeta, verdadeiro artigo de luxo, já que ter um poeta é considerado um supérfluo, uma inutilidade, incapaz de gerar qualquer renda e que, ainda por cima, dá despesas. 

A convivência da garota com o poeta faz com que ela seja exposta a resultados que não podem ser mensurados e aferidos estatistica, financeira ou monetariamente, o que irá gerar um desconforto na família ao se confrontar com um aspecto imaterial de suas realidades que até então ignoravam: seus sentimentos.

Um livro que já amo muito e que após nosso debate, meu amor por ele só aumentou e só posso recomendá-lo aos quatro ventos!


***Alerta Spoiler***

Caso você não queira ter acesso a spoilers do livro, basta não ler daqui para baixo, ok? Considere o conteúdo acima como suficiente.

Após o debate, o que achei mais interessante foi ver o abandono do poeta não apenas como o abandono de um animal de estimação, já que parecia que o poeta era como um cachorrinho da família. Pensar assim já seria triste por si só, assim como todo abandono de animal é cruel. Mas foi levantada no debate a ideia de que o abandono do poeta seria como o abandono por nós, adultos, de tudo que o poeta representa.

Amei essa metáfora, e me fez até lembrar de “O Mundo de Sofia”, do quanto vamos perdendo a capacidade de nos maravilhar com o mundo conforme vamos crescendo.

“Vamos comprar um poeta”, assim, seria um apelo pelo resgate dessa capacidade nos adultos: o olhar encantado para o mundo, a alegria das pequenas coisas, a magia que vemos nas artes em gerais, as janelas que são verdadeiros mares, os versos que por vezes são monstros reais debaixo da cama.


Dados Técnicos do livro:

Capa comum: 96 páginas
Autor: Afonso Cruz
Editora: Dublinense (1ª edição (11 março 2020)
ISBN: 978-8583181408

Exemplar adquirido por link da Amazon.

Lembre-se de comprar sempre através de um link de algum(a) criador(a) de conteúdo que você queira apoiar 😉

1 comentário

  1. As experiências, as vivências contribuem para a nossa visão de vida!
    Quanto mais crescemos, menos refletimos e mais competimos. Somos carregados pela multidão e com ela esquecemos muitos valores.
    Conciliar sobrevivência e ver como a vida é bela nem sempre é possível ou fácil.
    Muitos precisam chegar ao leito da morte, outros nem assim.
    Observo os idosos, como minha mãe, e muitas vezes a vejo, parada diante da janela de seu quarto contemplando o por do sol …

    Curtido por 1 pessoa

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