O Alforje – Bahiyyih Nakhjavani

Antes de iniciar a leitura de O Alforje, eu estava muito empolgada. Um livro tão bonito e tão elogiado! Parecia que tinha tudo pra ser favoritado. No começo estava curtindo muito o livro, grifando trechos a torto e direito. Mas então, fui me cansando. Por quê?

Será que nesse 1 ano de pandemia, confinada há tanto tempo, todas as narrativas que têm como premissa o circular em torno de si mesmas, ainda que não ad infinitum, reforçam essa sensação de enclausuramento? Como se além de não podermos deixar nossas casas tranquilamente também estivéssemos presos numa espécie de abstração que gira, gira, gira e não sai do lugar? 

Claro que a história caminha. Ela tem seu desenvolvimento. Mas a sensação que tive foi de ficar vagando em círculos.

A história? Bom, correm boatos de que no caminho deserto entre Meca e Medina um rico mercador e sua caravana opolulenta estará de passagem. Um grupo de bandoleiros pretende assaltá-los, mas um desertor do grupo resolve dar uma de esperto e abordar a caravana antes dos demais, fugindo com toda a riqueza e ganhando sua liberdade. Mas o que ele encontra é um homem montado num camelo, com um alforje em seu lombo, e um escravo. O que será que há dentro desse alforje? 

Essa é parte da primeira narrativa: a perspectiva do ladrão, narrada em terceira pessoa, e ela será contada outras 8 vezes, cada uma delas protagonizada por outro personagem. Até aí talvez ok, não fosse o fato de que o estilo de escrita também tornou-se repetitivo demais para mim nas atuais circunstâncias. Frases frequentemente começando no mesmo parágrafo por 3 vezes, por exemplo, com as mesmas palavras, ficaram redundantes e foram me dando um certo desespero. 

Sei que se tivesse lido em outro momento, eu teria gostado muito mais desse livro. Inclusive,  passado um tempo do término, peguei para reler alguns trechos e gostei muito mais. A primeira leitura foi ruim, mas se um dia eu tomar coragem de retomá-la, creio que a experiência será positiva. 

O Alforje foi o romance de estreia da autora, que já possuía à época da publicação outros livros de não-ficção que tratam de sua religião, a Fé Baha’I. Na verdade, mesmo O Alforje mistura ficção com sua crença. Um exemplo? O número 9 (a história ser contada por 9 vezes, por personagens distintos) é considerado para os adeptos o número perfeito. Além disso, eles também dizem que A Verdade é impossível de ser conhecida por nós no seu todo, e cada pessoa só pode, portanto, entendê-la parcialmente, e por isso cada perspectiva do livro vai trazendo mais um fato desconhecido para o leitor, onde cada uma delas se encaixa, como mais uma peça do todo que seria a verdade.

Do ponto de vista cultural, esse livro foi desafiador para mim, mas também cheio de aprendizado. Apesar de ter a versão física, que conta com um glossário ao final, achei muito melhor a leitura no Kindle, pois pude ir pesquisando todos os termos que eu desconhecia conforme a leitura seguia de modo mais rápido.

Agora vou aguardar o debate com o pessoal do @clubedocuringa. Será que vou olhar pro livro com mais carinho ou mais descaso?


Dados Técnicos do Livro:

Capa Comum: 256 páginas
Autora: Bahiyyih Nakhjavani
Editora : Dublinense – 2ª edição (15 outubro 2019)
ISBN-10 :  8583181276 – ISBN-13 : 978-8583181279
Adquira o seu exemplar preferencialmente no site da editora ou em alguma livraria independente.

8 comentários

      1. Finalmente acabei de ler o livro. Não conheço a escritora, mas consegui vislumbrar alguma intertextualidade com Hamlet em Shakespeare com a personagem da Noiva tendo visões certeiras sobre o que vai acontecer da mesma forma o capítulo abordando o Cadáver flerta com o nosso Machado de Assis em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” O título do livro ao invés de ser “O alforje” deveria ser as visões do precipício, porque tudo provém muito mais das visões testemunhadas dos personagens do que propriamente do alforje. Há uma crítica ácida às manobras inglesas no oriente através do personagem Derviche, salientando que o ocidente tem uma outra interpretação dos valores orientais e os subverte para uma conquista pessoal. Este personagem lembrou-me algo do barroco no jogo de sagrado e do profano que ousaria dizer cobre toda a narrativa. Gostaria de saber se alguém concorda com esta ideia. Não é um livro prazeroso de ler, ao contrário, há muita descrição e como a narrativa dos destinos dos personagens se faz através do alforje e o seu conteúdo, dá esta impressão de “déjà vu”. Sem contar o recurso de ver sem ser visto que se aceita fazendo o pacto de leitura mencionado por Umberto Eco. Enfim é uma leitura que exigiria uma pesquisa sobre a religião mulçumana, sobre os costumes no Oriente para absorver melhor a narrativa rica em detalhes.

        Curtido por 1 pessoa

      2. Uau! Adorei a sua opinião sobre o livro, amei as referências. Quanto à minha opinião, eu reforço tudo o que escrevi no post, e hoje acrescentaria que acho muito digno de nota que a autora tenha trazido o ponto de vista narrativo de personagens marginalizados, como o do ladrão, da noiva (mulher), da escrava, e até do cadáver.
        Como relato no post também, essa foi uma leitura coletiva nossa, e essa questão da crítica aos valores ocidentais vs. orientais lembro que foi abordado no debate também. Agora, se você quer saber a opinião de alguém que gostou da leitura, e cuja interpretação eu também achei maravilhosa, recomendo muito que leia a resenha da Carol, que participou do debate também, na época, enriquecendo muito nossas conversas: https://papoliterario.com.br/2021/06/18/resenha-o-alforje/

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