Sinopse:
Como tigres na neve se passa na Coreia já tomada pelo domínio japonês, a partir dos anos 1917, mas a história em si retoma pontos mais remotos, como da Dinastia Joseon, e atravessa os tempos, findando somente no ano 1965, deixando, porém, fortes marcas no leitor do presente.
Como tigres na neve acompanha os destinos entrelaçados de uma jovem vendida para uma escola de cortesãs e o filho pobre de um caçador, em uma narrativa notável por sua força vigorosa e ainda mais impressionante por se tratar do romance de estreia de Juhea Kim. Ao adotar o conceito de inyeon – fio humano – para tecer uma bela história, na qual o acaso, a fortuna e o destino são costurados pela turbulência dos eventos históricos ocorridos na península coreana durante o século XX, Kim entrega um livro espetacular, imersivo e elegante, que nos revela um mundo onde amigos se tornam inimigos, inimigos se tornam heróis, heróis são perseguidos e feras podem assumir as mais diversas formas.

Minhas Impressões e um pouco mais sobre a leitura:
Esse foi mais um livro lido com o Clube Namanita, do qual faço parte já há algum tempo. Adoro ler livros acompanhada de outras pessoas para depois poder saber de suas impressões também. E, ainda, uma coisa que para mim é muito importante, é que eu sei que vou encontrar na Nádia, a CEO do clube (vamos exaltá-la assim mesmo) um olhar voltado para a perspectiva de raça e gênero, sobretudo (mas não exclusivamente) em leituras com personagens asiáticos.
Acho que estamos vivendo um momento inédito que destaca a cultura e pessoas sul-coreanas, com o Oscar por exemplo premiando uma animação sobre k-pop e sua icônica música Golden, desbancando inclusive a Disney. Isso tudo é ótimo, porque, em outros cenários, como o da literatura, faz chegar até nós também mais traduções de autores coreanos. Devo dizer que para mim foi um caminho sem volta, desde minha primeira incursão nesse rico universo, com Por, favor, cuide da mamãe.
Como tigres na neve foi, porém, apenas meu terceiro livro de ficção lido que retrata a história da Coreia com destaque para a ocupação japonesa. E o interessante de tudo isso é que os três livros que li foram justamente lidos pelo Clube Namanita. São eles: Pachinko, Herdeiras do Mar e agora, Como tigres na neve. Cada um tem seu ponto forte. Na minha opinião, Pachinko é mais fluida a leitura, embora seja o maior livro dos três, e foca na adaptação e migração de coreanos ao Japão; Herdeiras do Mar é uma leitura talvez mais austera e sombria, porque foca na Segunda Guerra Mundial e na abordagem sobre “as mulheres de conforto”, trazendo ainda uma perspectiva mais voltada ao núcleo familiar, a uma história transgeracional e dando ênfase à cultura das mergulhadoras da Ilha de Jeju. Tigres na neve, por sua vez, tem personagens mais esparsos, com pouco vínculo familiar, mas que, entre os horrores e dificuldades de uma guerra, acabam por criar laços afetivos semelhantes a de uma família. Também trata das mulheres de conforto, chamadas de cortesã à época, e ainda que haja uma protagonista, o maior interesse da autora parece ser a narrativa em si.
Como o conceito de inyeon (conforme sinopse acima) no livro é carregado por toda a história, acaba que os fatos históricos se destacam muito ao longo da narrativa. É mais que o destino unindo duas pessoas. É um forte laço invisível que as torna eternamente ligadas. Isso faz com que suas vidas se cruzem em diversos momentos. E é com muito talento e naturalidade que Juhea Kim retrata tempos difíceis e belicosos ao abordar o inyeon entre a protagonista Jade e filho de um caçador, Jung Ho. Mas o fio invisível não une apenas duas pessoas no sentido romântico. O inyeon também aparece entre pessoas aparentemente inimigas, separadas por uma nação e por ideais. Mas essa abordagem tão sutil e diluída ao longo da narrativa, ao mesmo tempo permanece tão forte e tão impactante, que foi o que eu sinceramente mais gostei no livro. A relação entre estes opositores começa antes mesmo de eles se conhecerem, e o nó desse fio invisível que os envolve, ao finalmente se atar, me trouxe aquela imensa euforia que a boa literatura é capaz de nos provocar.
No debate do Clube, foi enfatizado o tigre como um típico símbolo do folclore coreano, e a escolha acertada para a tradução do título do livro, que parece ter saído melhor que o original. Sobre essa figura animal, tem-se inclusive a primeira nota de rodapé. Lá o leitor é informado do porquê o livro inicia-se com a expressão “Quando os tigres fumavam cachimbo…”. “[O tigre está] presente desde o mito de Dangun, o mito fundador da Coreia”. Em vez de “era uma vez”, era assim que os contos folclóricos coreanos se iniciavam.
Embora o livro traga um cenário trágico em quase toda sua extensão, ela tem um retrato de algum modo mais brando que Herdeiras do Mar, por exemplo, ainda que haja sim cenas pesadas com gatilhos de violência e abuso sexuais. Afinal, boa parte da história envolve a criação de Jade como cortesã e as mulheres como ela ao seu redor, com quem constrói um verdadeiro sentido de família e amizade. Ele é também mais abrangente, embora também exponha de forma tímida sobre as haenyeo de Jeju, e gosto muito como Juhea Kim mostra o envolvimento político, ideológico e financeiro das mulheres em prol do movimento de independência da Coreia. Enquanto os homens batalham abertamente ou concebem alianças visíveis entre poderosos, às mulheres resta uma atuação menos visível (e nem por isso menos importante), mas que, ainda assim, muitas vezes é deixada de lado na literatura e no retrato histórico, mas não em Como tigres na neve. A resistência das cortesãs me comoveu bastante e foi um fato que me marcou muito nesta leitura.
É uma história muito boa e intrigante de se ler, ainda que eu tenha demorado a me afeiçoar aos personagens. É até minha razão para não tê-la favoritado. Gostaria de ter me delongado menos para achá-los interessantes, sobretudo Jade. Porém, de alguma forma, assim como seus inyeon, o livro soube me prender até que eu também encerrasse meu ciclo com ele. Vale a leitura.
Dados Técnicos do Livro:
- Formato e-book para Kindle: 454 páginas
- ASIN: B0BJW3B6VX
- Autora: Juhea Kim
- Editora: Editora Melhoramentos, 1ª edição (15 novembro 2022)
- Tradução: Alessandra Esteche
- Tamanho do arquivo: 8.1 MB
- ISBN-13: 978-6555395846
*Disponível no Kindle Unlimited (em março de 2026)