As Madonas de Leningrado – Debra Dean

[Cortesia do editor — parceria do blog em 2018 com a HarperCollins]

Mais um livro que consegui finalmente tirar da pilha dos atrasados. E como é gratificante quando o livro se mostra uma verdadeira joia!

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Sinopse:

Guerra, amor e vida se unem neste drama profundamente sensível, que visita as lembranças da Segunda Guerra Mundial de uma idosa russa, em uma emocionante homenagem à memória, ao amor e, acima de tudo, à vida. Marina foi guia turística no Museu do Hermitage nos anos 1940. Com a idade, ela não consegue mais se lembrar de eventos diários ou datas importantes―como o casamento de sua neta―, mas lembra-se de maneira vívida dos seus anos na Guerra. Em meio à doença, a mente cansada de Marina é invadida por imagens de sua juventude em uma Leningrado sitiada pelo exército nazista durante a Segunda Guerra, uma época de fome, dor e medo. A realidade se mistura com suas lembranças da guerra de forma que ela já não consegue distinguir presente e passado, indo em uma direção que pode colocar em risco sua vida.


Minhas impressões sobre o livro:

As Madonas de Leningrado pode ser considerado por muitos um livro de narrativa parada demais, mas eu discordo e só consigo ver beleza onde a maioria vê monotonia. Muitos elementos do livro me atraíram bastante. Em primeiro lugar, o fato de abordar a memória. Desde que eu li O Gigante Enterrado, do Kazuo Ishiguro, eu passei a gostar muito desse tema. Em Madonas, não temos a retratação de uma memória coletiva em jogo, mas a da memória singular, mais especificamente, a de uma mulher idosa vivenciando seus conflitos entre a realidade (tempo presente) e seu duro e traumático passado, efeitos do Mal de Alzheimer que lhe assoma. Além disso, há o próprio fato de trazer uma protagonista de idade mais avançada, fugindo um pouco do lugar-comum e cujo papel costuma ser entregue a personagens mais jovens. Eu particularmente gosto muito de protagonistas mais maduros. Sempre há muita sabedoria em suas trajetórias de vida (mesmo fictícias) que me põe a refletir intensamente. Também, o próprio título, fez-me supor, corretamente, que haveria referência a pinturas neste livro, um assunto que me fascina muito. Dentre os artistas citados, meu favorito é, sem dúvida, Rembrandt.

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Há ainda outros pontos que se somam à qualidade do livro e que me fazem ignorar a fastiosidade que muitos alegam. A genial exploração do recurso do “Palácio de memória” foi o meu ponto favorito. Não é o primeiro livro que leio que aborda Palácio de Memória, mas nunca havia visto ele ser trabalhado com tamanha maestria, mesclando-se belamente com o enredo, que, a meu ver, existe. Palácio de Memória, para quem não sabe, grosso modo, é uma técnica mnemônica, na qual a pessoa deve criar um lugar imaginário e armazenar as informações que deseja reter como se as colocasse cada uma delas num “cômodo” específico desse lugar.

Marina, nossa protagonista, durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhando no Hermitage, começou seu Palácio de Memória para que as obras que haviam no museu não se perdessem eternamente pelo tempo com seu sumiço. Ela as memorizou tão bem que conseguia descrevê-las sem elas sequer estarem presentes, e foi uma das coisas mais lindas e emocionantes do livro para mim.

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É curioso refletir também como a memória acaba por se tornar a essência de quem somos aos olhos de outras pessoas. Marina quase não fala de seu passado para seus filhos, e é um pouco triste ver o quão pouco eles conhecem sua própria mãe. Lembrou-me até do livro Por favor, cuide da mamãe, da sul-coreana Kyung-Sook-Shin; os filhos, por um certo descaso, parecem nada saber sobre a mãe, mas, no caso de Marina, foi ela mesma quem sempre se recusou a contar sobre seu passado. Os pais têm que contar suas histórias a seus filhos. Marina chega a se ver obrigada a memorizar a lembrança alheia de outras obras, para que elas jamais caiam no esquecimento. E não é assim conosco também? Se seus filhos não sabem a sua história, não morrerá ela com você?

[…] eles não estarão aqui para sempre, e parece estranho saber tão pouco de suas histórias.

— Alguém deve lembrar, senão tudo desaparece sem deixar rastros, e então podem dizer que nada existiu.

Também achei muito belo como Debra Dean retrata o Alzheimer, em cada pequena passagem, pela perspectiva de Marina, e por isso, resolvi trazer algumas delas aqui como forma de finalizar este post:

Marina sabe o que está acontecendo com ela; ela não é tola. Algo está devorando sua memória.

Há tantos rostos para lembrar, para nomear e ordenar por salas. Às vezes, quando ela olha, tudo o que vê é uma parede vazia. É assustador esse esquecimento, como se mais um pedacinho de sua vida estivesse escapulindo. Se ela deixar todas as pinturas desaparecerem, terá ido com elas.

Mais perturbador do que perder as palavras é a maneira como o tempo se contrai e fratura, lançando-as em lugares inesperados.

É como desaparecer por alguns instantes de cada vez, como uma luz sendo apagada. Pouco tempo depois, a luz misteriosamente reacende.

Hoje, ontem, mesmo uma hora atrás, são um espaço em branco. Ela está suspensa no momento presente e se sentindo estranhamente efêmera, como se à deriva em um mar aberto.

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Espero que minhas impressões e essas belas citações tenham despertado algum interesse pela leitura dessa obra. É um livro tão valioso que eu o guardaria no meu próprio Palácio de Memória. E caso um dia tais memórias dessa história venham a se perder, espero que haja outras pessoas dispostas a contá-la.

2 comentários Adicione o seu

  1. Monica disse:

    Nossa, adorei a resenha!!! Enquanto lia, a imaginação fluía.
    Nossas histórias são contadas em palavras, comportamentos, fotografias, entre Outros.
    Um pouco de mim, conto pelas fotografias.
    Adoro fotografias. Contam um momento. Aquele momento. Um dia, as imagens também se perderão.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Isa Ueda disse:

      Tem que ler então 🙂

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