Orlando: Uma Biografia – Virginia Woolf

Nossa quinta leitura do ano do Clube do Curinga, referente ao mês de setembro, e escolhida pelo Rodrigo, foi certamente a mais difícil até o momento.

Virginia Woolf sempre me pareceu muito desafiador, até que eu tive a grata surpresa da leitura maravilhosa e muito proveitosa de Um Teto Todo Seu. Achei, muito ingênua, que, após já ter tido algum contato, ainda que com um texto ensaístico da escritora, eu estaria mais bem preparada para enfrentar uma obra de ficção sua, com uma escrita bem diferente. Me enganei. Com o livro Orlando: Uma Biografia, Virginia voltou a me parecer muito desafiador, mas não menos surpreendente, e certamente uma experiência tremenda na minha trajetória como leitora.

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Sinopse [edição lida por mim]:

Orlando, um arremedo de biografia, descreve a vida do personagem homônimo, descendente de uma ancestral família aristocrática inglesa, que, no começo da narrativa, vive no século XVI, é homem e tem 16 anos. Acompanhamos sua vida por cerca de quatro séculos, na maior parte dos quais se mantém com a idade de 30 anos. No meio da narrativa, enviado pelo rei Charles II, como embaixador da Inglaterra, a Constantinopla, ele passa por uma transformação radical. Além de homenagear Vita Sackville-West, a aristocrata que serviu de modelo para a figura de Orlando, e de jogar com as convenções da biografia tradicional, Virginia explora aqui alguns dos seus temas preferidos: a incongruência entre, de um lado, o tempo do relógio e do calendário e, de outro, o tempo vivido, subjetivo; o caráter fragmentado, múltiplo e incerto da subjetividade; e, sobretudo, a instabilidade e a artificialidade da identidade sexual. A presente edição, com posfácio de Silviano Santiago, é enriquecida com as ilustrações da edição original e com extensas notas do tradutor.


Para extrair o máximo da leitura de Orlando foi necessária a complementação de outros materiais, tais como podcast sobre Virginia (ouvi o ep. 65 do 30 MIN:Literatura), vídeos sobre o livro (assisti esse e esse, obrigada, Day!), e textos que discorressem sobre Orlando, além das próprias conversas trocadas entre os membros do clube ao longo da leitura e releituras (obrigada, gente, vocês são demais!). Pois, sim, foi um livro que exigiu muita releitura.

Eu tive que voltar diversas vezes alguns parágrafos quando tinha a impressão de que havia perdido alguma coisa. Orlando não é desses livros que você pode ler com os olhos correndo as palavras e a mente divagando alhures. Não, ambos devem caminhar juntos, o tempo todo, sem distrações, caso contrário, será preciso ficar retomando parágrafos e mais parágrafos, e por vezes até páginas, dependendo de quão longe você permitiu sua mente se afastar da narrativa.

Neste livro fictício, como já apresentado na sinopse, Virginia “brinca” com as formas tradicionais de uma biografia e lhe dá seu toque pessoal, com direito a muitas divagações e intromissões do narrador em meio às considerações que seriam propriamente “biográficas”. Veja um exemplo, em negrito, do que eu considero uma “intromissão”:

E aqui podemos nos aproveitar de uma pausa em seu solilóquio para refletir como era estranho ver Orlando ali estendido no chão, apoiado sobre os cotovelos, num dia de junho, […]

E é justamente por isso que não se permite ao leitor que divague também. Divagar não apenas dificulta a compreensão do que está sendo discorrido pelo biógrafo, como também prejudica a imersão exigida pela obra.

Orlando, no início da história, é um jovem, homem, de 16 anos. E, ao longo do recorte feito pelo biógrafo-narrador passam-se mais de 300 anos, dentro dos quais Orlando vem a se tornar mulher, do dia para a noite, e envelhece apenas 20 anos.

Quando Orlando acorda mulher, ao final já do segundo capítulo, ela se lembra de tudo que se passou quando era homem, e é inevitável que Orlando reflita sobre as diferenças.

Lembrava-se de como, quando era um jovem homem, tinha insistido que as mulheres deviam ser obedientes, castas, perfumadas e lindamente apresentáveis. “Agora, sinto na própria pele o quanto custam esses desejos”, refletiu; “pois as mulheres não são (a julgar por minha própria e breve experiência neste sexo), obedientes, castas, perfumadas e lindamente apresentáveis por natureza. Elas só adquirem essas graças, sem as quais não podem gozar de nenhum dos prazeres desta vida, à custa da mais tediosa disciplina. […]”.

Para mim, o melhor capítulo foi, sem dúvida, o quarto, em que Orlando já é mulher há algum tempo, e são feitas diversas considerações sobre ser mulher, e que me lembraram muito o que eu já havia lido em Um Teto Todo Seu (obra posterior a Orlando). O trecho destacado acima, por exemplo, foi extraído do capítulo em questão.

Muitos temas podem ser debatidos a partir da leitura de Orlando, mas o que eu mais gostaria de destacar é justamente essa “instabilidade e artificialidade da identidade sexual”, tão bem apontada na sinopse, pois é um dos assuntos prediletos da autora. Orlando, quando acorda mulher, não se espanta, não tem nenhum sobressalto, estranheza ou sequer aborrecimento com seu novo sexo. As implicações, todavia, advindas do que se espera e deduz dele como mulher é que o amolam mais tarde. Porém, ao se cansar das limitações impostas à figura feminina, graças à sua androginia, Orlando, cumprindo as expectativas sociais de vestimenta, consegue se passar por homem e driblar tais chateações. Ainda assim, segundo posfácio de Silvano Santiago, Orlando não apenas oscila entre o masculino e o feminino, mas é paradoxalmente plural:

“A mudança de sexo, embora lhe alterasse o futuro, em nada contribuiu para lhe alterar a identidade. O rosto, como provam seus retratos, continuava praticamente o mesmo” (p.93). A identidade não se altera com a mudança de gênero. Não se redefine, pois, por meras “fantasias”. […] A divertida passagem em que o Duque se traveste de Duquesa Harriet para se aproximar apaixonadamente de Orlando e se revelar homem (p.76) é bom exemplo do que Orlando não é.

A título de curiosidade, mas que faz toda a diferença na leitura, a meu ver, Vita Sackville-West foi amante de Virginia Woolf, e a obra é um tributo à sua amada, ainda que quando foi publicado o livro, o relacionamento de ambas já houvesse esfriado. É um tributo em muitos sentidos. Segundo o livro Virginia Woolf: Retratos da Vida, Vita tinha um casamento aberto com casos passionais com outras mulheres e uma predileção por vestir roupas masculinas. Logo se vê que Orlando foi não apenas uma homenagem a Vita, mas também inspirado nela. Além disso, Vita também era uma escritora, e a obra citada, com alguns trechos reproduzidos em Orlando, é uma obra real sua.

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Na foto, o livro Virginia Woolf: Retratos da Vida

Há também no livro um extenso uso de referências históricas, geográficas e literárias (afinal, 300 anos é bastante coisa), algumas utilizadas com licença poética por Virginia, mas a maioria denuncia corretamente a época e lugar que Virginia quis representar, e outras, ainda, vêm com uma carga irônica que demanda um certo conhecimento que eu não possuo/possuía. Confesso, portanto, que a maioria das referências me passaram batidas porque a narrativa em si já demandou muito de minha atenção, e creio, por isso, ser necessária outra leitura para apreciar essas pequenas pistas deixadas por Virginia. Na verdade, muitas delas, mesmo numa releitura, irão continuar passando despercebidas, até porque eu não teria em 3 séculos todo o extraordinário conhecimento que Virginia teve em sua breve vida de apenas 59 anos.

Virginia fazia parte de um grupo intelectual que se reunia com frequência para discutir política, artes, filosofia, literatura e afins, chamado Bloomsbury. O mais engraçado é que, coincidentemente, um amigo meu e do meu marido, mesmo sem saber que eu havia acabado de ler um livro de Virginia, começou a falar desse grupo outro dia, dizendo que deveríamos nos reunir com um propósito parecido. Foi falado na brincadeira, claro, mas a ideia de se reunir para falar de tais temas me parece bem sedutora, ainda mais se permeado com muito humor, e com certeza aumentaria um pouco meus conhecimentos, tornando mais proveitosa uma releitura de Orlando.

Finalizando, gostaria de indicar muito essa edição que eu li, da Autêntica, principalmente se for seu primeiro contato com Virginia Woolf, porque há realmente extensas notas do tradutor e um posfácio muito elucidativo para melhor compreender a obra.

Quem tiver mais dicas sobre Virginia em geral, ou mesmo quiser trocar figurinhas sobre Orlando, estou à disposição, aqui, no IG, pessoalmente, em todos os lugares possíveis.


Informações adicionais sobre o livro:

Capa dura: 288 páginas

Editora: Autêntica; Edição: 1ª Edição, 1ª Reimpressão (2017)

ISBN-10: 8582176287 – ISBN-13: 978-8582176283

Título Original: Orlando: A Biography

4 comentários Adicione o seu

  1. Monica disse:

    A resenha torna o livro bem interessante. Parabéns

    Curtido por 1 pessoa

  2. Nossa, imagino que deve ter sido essa leitura, eu quase surtei lendo “Mrs. Dalloway”, e tive que fazer um processo semelhante ao seu: voltar e reler alguns trechos, além de tentar identificar as vozes que surgem sem qualquer marcação textual. Essa edição está linda ❤ ❤

    Curtido por 1 pessoa

    1. Isa Ueda disse:

      Hahaha, isso que me falaram que Orlando era o mais de boa… Gente, imagina Mrs. Dalloway 😨

      Curtido por 1 pessoa

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