Sobre o Autoritarismo Brasileiro – Lilia M. Schwarcz

Alguns livros são mais difíceis de serem resenhados que outros. É o caso de Sobre o Autoritarismo Brasileiro, de Lilia Schwarcz, e, por essa razão esse post é a conjugação de dois textos, meu e do meu amigo Fernando, que veio somar suas considerações às minhas de forma enriquecedora. Apesar de não ter sido uma leitura conjunta, é sempre muito aprazível o diálogo que uma excelente leitura comum possibilita.

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Eu me deparei com essa edição quando ainda estavam anunciando seu lançamento, e a notícia de sua publicação acendeu em mim a fagulha que eu precisava para levar 2019 adiante, ao menos de forma funcional. Não sei quantos de vocês já vêm perdendo o ânimo e a crença num Brasil melhor desde as campanhas eleitorais de 2018 (ou até antes), mas eu vinha submergindo numa desolação sem precedentes, que parecia não alcançar nunca as trevas da profundeza.

E já na Introdução do livro me deparo com palavras mais que sensatas, advertindo-me de que ele não teria o fim de curar minha desesperança, mas que tudo bem assim o ser:

“História não é bula de remédio nem produz efeitos rápidos e de curta ou longa duração. Ajuda, porém, a tirar o véu do espanto e a produzir uma discussão mais crítica sobre nosso passado, nosso presente e sonho de futuro.”

Com isso em mente, adentramos um exame não exaustivo, como diz a própria Lilia, porém muito eficiente, a meu ver, na apresentação de um panorama geral das origens do autoritarismo no Brasil.

Trata-se, em verdade, de um livro feito sob encomenda. Radicado no cenário político nacional de desfecho do ano de 2018 e início de 2019, a obra insurge como uma demanda de seu tempo. No decorrer de menos de 300 páginas, a professora titular no Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo se propõe a examinar o momento atual a partir das vivências do nosso passado — sem, contudo, prescindir de um olhar também prospectivo. Busca-se fazer notar que a onda autoritária que acomete significativas partes do mundo — o Brasil, inclusive e particularmente — possui raízes de longa data que, conquanto profundas e correntemente reproduzidas, são, também, amenizadas e mascaradas por uma certa mitologia nacional: práticas autoritárias são legitimadas por narrativas que desaguam na naturalização de violências de matizes variados, operando como poderosa força subjacente e obstinada que causa lesão a direitos — arduamente conquistados — sobretudo de grupos minoritários. 


Sinopse:

Valendo-se de uma ampla reunião de dados estatísticos, Lilia M. Schwarcz examina algumas das raízes do autoritarismo brasileiro, bastante antigas e arraigadas, embora frequentemente mascaradas pela mitologia nacional.

Os brasileiros gostam de se crer diversos do que são. Tolerantes, abertos, pacíficos e acolhedores são alguns dos adjetivos que habitam frequentemente a mitologia nacional. Neste livro urgente e necessário, Lilia M. Schwarcz reconstitui a construção dessa narrativa oficial que acabou por obscurecer uma realidade bem menos suave, marcada pela herança perversa da escravidão e pelas lógicas de dominação do sistema colonial.
Ao investigar esses subterrâneos da história do país ― e suas permanências no presente ― a autora deixa expostas as raízes do autoritarismo no Brasil, e ajuda a entender por que fomos e continuamos a ser uma nação muito mais excludente que inclusiva, com um longo caminho pela frente na elaboração de uma agenda justa e igualitária.


Neste livro, Lilia se vale de 8 temas centrais para explorar tais subterrâneos da história do Brasil — escravidão e racismo; mandonismo; patrimonialismo; corrupção; desigualdade social; violência; raça e gênero; intolerância —, discorrendo sobre cada um deles em tópicos próprios, que podem ser lidos de forma independente, dado o caráter ensaístico da obra, mas que estão nitidamente interligados, seja por causa, consequência ou correlação.

Importa ressaltar a riqueza com a qual se conduz cada um dos tópicos supracitados. A ampla bibliografia combinada com o reconhecido capital acadêmico-cultural carregado pela autora, produz uma obra autêntica e que oferece um estímulo de autonomia ao próprio leitor, na medida em que este é convidado a pensar por si as próprias contradições da sociedade, tendo como substrato um livro que reúne um vasto contingente de pesquisa objetiva — estreme de subjetividades por vezes indesejadas —, traduzidas em informações e dados estatísticos. A escritora, todavia, evidentemente não deixa de expressar sua opinião, sem, contudo, rivalizar de forma intransigente com aquilo que lhe é contrário, pugnando, em primeiro plano, por um ambiente de tolerância, pressuposto para o fortalecimento do nosso pacto republicano

Agradou-me bastante a escolha da autora de não incluir notas ao longo do texto, o que tornou a leitura muito fluida e talvez menos intimidadora para os ambientes não acadêmicos. Além dessa opção acertada, a escrita de Lilia é muito tranquila, desembaraçada, o que certamente a torna também mais convidativa para um público leigo (como é o meu caso), e que busca entender os inflamados discursos autoritários no cenário brasileiro; bem por isso, Lilia, em conversa com a editora Carambaia, através do podcast Narrativas, diz que este foi o livro que escreveu mais rapidamente, e eu entendo sua ânsia em querer dar voz à crítica ao autoritarismo.

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Leitura rendeu muitos post-its colados

Mais que evidenciar as raízes do autoritarismo no Brasil, porém, o mérito do livro é (re)lembrar aquilo que o Brasil costuma varrer para baixo do tapete, em vez de problematizar e buscar soluções, como bem dito por Rafael Cardoso (em “O moderno e o arcaico em J. Carlos” – exposição J. Carlos: Originais IMS Paulista – novembro/2019):

“Nosso sonho de modernidade sempre trouxe em seu bojo uma porção arcaica. Faz parte das contradições de uma sociedade que prefere varrer os pecados para debaixo do tapete a discutir abertamente seu passado. Faz parte de uma tradição cultural que silencia sobre os defeitos de seus grandes vultos, por melindre de incomodar quem ainda enxerga as falhas como virtudes.”

Ao longo da obra, Schwarcz se mantém em diálogo permanente com a vida pregressa brasileira, mostrando que se “o presente não é absoluta continuidade do passado”, também não deixa de ser verdade que, ao menos, ele está repleto de passado. Em linguagem metafórica, frise-se a função da história: “‘deixar um lembrete’ sobre aquilo que se costuma fazer questão de esquecer”. 

Assim, ora patenteando o que é continuidade, ora o que é ruptura, a autora eleva a memória como uma das tônicas de seu trabalho, algo bem ilustrado desde a imagem de capa do livro — obra da artista mineira Sonia Gomes —, a qual, em alusão à prática tradicional da costura feminina, também “evoca a ideia de puxar fios e tecidos da memória, os quais, assim reunidos, resultam numa força nova, pois se apresentam no nosso tempo atual e interpelam a nossa própria contemporaneidade”. É de se destacar, ainda, que o exercício de olhar para trás para entender o agora possui uma ressalva importante — também acentuado pela autora —, qual seja: o estabelecimento de conexões e a identificação de raízes antigas não deve resultar em uma culpabilização exclusiva do passado, sob pena de se incorrer em uma atitude muito passiva em relação ao nosso presente. Vale dizer, o fato de termos herdado, há muito, determinadas práticas viciadas não nos exime de responsabilidade alguma — tampouco deve servir de pretexto a uma atitude resignada. Tais desajustes devem ser confrontados desde logo, sob o risco de se perpetuar ainda mais o atraso da agenda ética em nosso país. 

O epílogo, intitulado Quando o fim é também o começo: Nossos fantasmas do presente, por sua vez, conclama pensar a história não apenas como a capacidade de lembrar, mas também pela aptidão de esquecer, reiterar erros e injustiças e ser utilizada em prol do interesse de (todos) os governos em detrimento de outros interesses e demandas. Para não frustrar o leitor, porém, há sim um convite a se pensar o desfecho do livro inevitavelmente recordando-se de sua advertência inicial, da qual já extraí que “a história não é bula de remédio”, mas que podemos voltar nossos olhos de modo crítico, sem negar nosso passado e sem perder o foco por um futuro melhor. Nas palavras do escritor Ítalo Calvino:

“A memória conta realmente — para os indivíduos, as coletividades, as civilizações — só se mantiver junto a marca do passado e o projeto do futuro, se permitir fazer sem esquecer aquilo que se pretendia fazer, tornar-se sem deixar de ser, ser sem deixar de tornar-se”. (em As Odisseias na Odisseia – Por que ler os clássicos).

Por derradeiro, Sobre o autoritarismo brasileiroconstruído sob o prisma crítico da antropóloga Lilia M. Schwarcz, é a contribuição que instiga a ação, não só contempla, mas age por meio da palavra. Que possui a responsabilidade moral e a franqueza exigidas sobremaneira pelas circunstâncias atuais. É um livro para se ter à mão, fazendo-a trabalhar no caminho da consolidação de uma postura ativa, sensível e corajosa no enfrentamento das contradições não só do nosso presente, mas igualmente de todo o passado que o acompanha. 


Informações adicionais sobre o livro:

Capa comum: 288 páginas

Editora: Companhia das Letras; Edição: 1 (24 de maio de 2019)

ISBN-10: 8535932194 – ISBN-13: 978-8535932195