Pequeno Manual Antirracista – Djamila Ribeiro

Esse post é para você também que mal leu o título e pensou “mas eu não sou racista”.

A filósofa Djamila Ribeiro parte do ponto de que o racismo é um problema estrutural, e, portanto, pouco importa se você, em sua individualidade, não se considera racista. Não há nada a se ganhar com essa autoformulação. Afinal, o que cada um nós — que se intitula então como não-racista — está fazendo para combatê-lo?

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Sinopse:

“A noção de que o racismo é um sistema de opressão que nega direitos e não um simples ato voluntário individual vem se solidificando nos últimos anos.

Reconhecer que o racismo estrutura a nossa sociedade, criando desigualdades e fraturas, pode ser paralisante.

Afinal, como enfrentá-lo? Djamila Ribeiro argumenta que a ação antirracista é urgente e se dá nas atitudes cotidianas. E mais: é uma luta de todas e todos.”


Pequeno Manual Antirracista foca no combate ao racismo contra pessoas negras, e assim, como o próprio nome e a autora sugerem, não tem a intenção de esgotar o tema, ou discorrer sobre todos seus desdobramentos, percepções e interseccionalidades, mas é um excelente livro para entender o racismo como parte da estrutura social e assumir nossa responsabilidade diante disso. Afinal, como Djamila bem nos lembra: “é impossível não ser racista tendo sido criado numa sociedade racista. É algo que está em nós e contra o que devemos lutar sempre” (p. 38).

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Tão pequeno que nem tem desculpa para não ler

A autora relaciona 11 tópicos para discutir o racismo de forma sucinta, mas contundente, fomentando também práticas antirracistas, que, sim, são mais simples e aplicáveis ao cotidiano do que parecem, mas que exigem assumir que esta é uma luta de todos. Com a leitura deste livreto, percebemos como o racismo está enraizado em nós e como reproduzimos os discursos dos privilegiados; o que exige um exercício constante de lançar sobre nós mesmos um olhar crítico para rompermos com essa estrutura.

Os 5 primeiros capítulos concentram-se em explicar o sistema racista e apresentar reflexões que permitem reconhecer o racismo: informe-se sobre o racismo; enxergue a negritude; reconheça os privilégios da branquitude; e perceba o racismo internalizado em você.

É nesta parte que alerto para frases como: “Não enxergo cor”. “A cor não é um problema para mim”. Afirmações assim fazem com que o racismo não saia de sua invisibilidade e não seja combatido. Afinal, pensar assim cria inércia, e é ela quem fornece a solidez necessária para a perpetuação de um sistema opressor criado por brancos em prol dos brancos. Não se sinta mal ainda se você nunca se questionou acerca do racismo estrutural. É assim mesmo que ele opera, com sua habilidade em passar despercebido. Por isso mesmo, despertar para o privilégio do qual determinados grupos sociais historicamente vêm desfrutando, ainda que inconscientemente, é uma das formas de desconstruirmos a violência do sistema e pode ser transformador.

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Alguns conceitos importantes também são trazidos no livro, ainda que brevemente, como lugar de fala, apropriação cultural, epistemicídio, etc., mas conhecê-los pode servir de base para outras leituras mais aprofundadas, cujo desejo por fazê-las espero sinceramente que, após este pequeno manual, seja inevitável no leitor. Neste caso, a própria filósofa recomenda, tanto ao longo do livro como através das referências bibliográficas,  alguns escritores que também tratam do racismo sob outras facetas.

Quanto às práticas antirracistas, que podem se dar nas atitudes mais cotidianas, temos os tópicos: apoie políticas educacionais afirmativas; transforme seu ambiente de trabalho; leia autores negros; questione a cultura que você consome; conheça seus desejos e afetos; e combata a violência racial.

Ao fim, como um reforço nem um pouco desnecessário, Djamila nos convoca a todos: sejamos todos antirracistas. O racismo é uma luta de todas e todos:

“Pessoas brancas devem se responsabilizar criticamente pelo sistema de opressão que as privilegia historicamente, produzindo desigualdades, e pessoas negras podem se conscientizar dos processos históricos para não reproduzi-los.” (p. 108)

Que a leitura e a luta, portanto, comecem.

Leitura altamente recomendada e necessária!


Dados Técnicos do Livro:

Capa comum: 136 páginas

Editora: Companhia das Letras; Edição: 1 (6 de novembro de 2019)

ISBN-10: 8535932879 – ISBN-13: 978-8535932874

1 comentário Adicione o seu

  1. Monica disse:

    A resenha aguça a vontade de ler o livro para reflexões “não sou mesmo racista” ?
    Adorei !!!

    Curtido por 1 pessoa

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