Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

Leitura concluída do mês de fevereiro para o Clube do Curinga!

Pretendo ler todos os livros da Chimamanda, mas sem um prazo definido. Até agora, tudo que li dela achei simplesmente maravilhoso, e com Americanah não foi diferente. Se você quiser saber o que achei das minhas outras leituras, clique nos itens abaixo:

No seu pescoço

Sejamos Todos Feministas

Para Educar Crianças Feministas


Americanah foi o primeiro romance de Chimamanda que eu li. O livro gira em torno de um casal, Ifemelu e Obinze, ao longo de uns bons pares de anos. Enquanto Ifemelu resolve deixar a Nigéria dada às constantes greves nas universidades para tentar a sorte nos EUA, Obinze, filho de uma professora universitária — e quem incentiva a namorada Ifemelu a realmente ir para os EUA—, permanece um tempo no país natal de ambos. Depois que Ifemelu, por motivos que Obinze desconhece, vai pouco a pouco deixando de responder seus e-mails e atender suas ligações, ele resolve também seguir em frente com a própria vida, mas na Inglaterra. É muito curioso analisar as diferenças que cada um leva como imigrante nos respectivos países escolhidos.

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Ifemelu, nos EUA, passa por muitas situações difíceis por um longo período, mas anos mais tarde, acaba criando um blog sobre raça que começa a lhe dar notoriedade e mudando bastante sua vida como negra não americana (nem sempre levando a situações melhores). Não foram todos os textos do blog que aparecem no livro que me fascinaram, mas alguns deles foram verdadeiros mind-blowing*. Até peço que me perdoem pelo termo americanizado, mesmo quando sei que existem expressões em português que seriam tão eficientes quanto; mas talvez eu esteja um pouco sob influência da própria transição sofrida por Ifemelu. Ou talvez eu só esteja com graça, tentando um péssimo trocadilho com o título do livro. Se minha sinopse lhe pareceu insuficiente, sugiro fortemente que leia a apresentação do livro do site da Companhia das Letras.


Minhas impressões sobre o livro (pode conter spoilers):

Primeira coisa que gostaria de chamar atenção é para o fato de que eu, como uma pessoa que possui um blog, achei realmente uma experiência muito gratificante e positiva a de ver uma protagonista que é uma blogueira. Claro que há blogs para todos os gostos, mas o de Ifemelu seria um que eu seguiria sem dúvida.

Confesso que a leitura foi um pouco cansativa para mim, mas eu não me arrependo nem um pouco de ter enfrentado essa sensação de vagarosidade. Na verdade, eu sei muito bem o que me incomodou nessa leitura. Vou até usar uma autocrítica do livro para falar qual é o meu problema (sim, porque é um problema meu, e espero que não seja o seu). Há uma passagem no livro em que outra personagem (e me perdoem se você considerar isso um spoiler) protesta que livros sobre raça são considerados densos demais para pessoas brancas.

“Meu editor leu o manuscrito e disse: ‘Entendo que a questão racial é importante aqui, mas precisamos ter certeza de que o livro vai transcender a raça, para não ser só sobre isso’. E eu pensando: mas por que tenho que transcender a raça? Sabe, como se a questão racial fosse uma bebida que é melhor se for servida diluída, temperada com outros líquidos, ou os brancos não vão conseguir engolir.” (p. 363)

Bom, aqui eu levei um baita tapa na cara. Aqui e em vários outros momentos. Porque foi justamente essa a impressão que eu tive, que era uma leitura densa demais. E ter lido esse livro oportunamente, logo após o livro da Djamila Ribeiro, Pequeno Manual Antirracista, foi não só enriquecedor, mas um evidenciador de que sim, eu sou racista. Algumas críticas de Ifemelu realmente me incomodaram num primeiro momento, mas só me colocando em seu lugar, como uma imigrante e como uma negra num país como os EUA, é que me dei conta de que suas vindicações e desabafos são mais que pertinentes. Posso não concordar com todos seus reclamos, ok, verdade, mas é muito fácil discordar sendo que nunca passei pelas situações de discriminação pelas quais ela passou.

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Falando em discriminação, gosto muito também do fato de o livro abordar racismo de um modo mais amplo, embora parta do ponto de vista de uma personagem feminina negra imigrante. Acho que é a primeira vez que de fato vejo essa problemática ser levantada tão explicitamente, e foi muito bom me encontrar ali representada também. Para todos os efeitos, sou considerada branca quando se fala em racismo contra pessoas negras. Mas é um pouco mais complexo que isso. E o livro conseguiu me trazer essa sensação de acolhimento, respeitando e lembrando também minhas origens, ainda que Ifemelu tenha um ponto um pouco agressivo sobre isso (e olha eu aqui de novo falando sem saber como é estar na pele de uma negra):

“As minorias raciais americanas — negros, hispânicos, asiáticos e judeus — todas sofrem merda na mão dos brancos, merdas diferentes, mas merda mesmo assim. Cada uma secretamente acredita que sua merda é a pior. Então, não, não existe uma Liga Unida dos Oprimidos. No entanto, todos os outros acham que são melhores do que os negros porque, bem, eles não são negros.” (p. 223)

Realmente, não há uma competição para ver quem sofre mais opressão — e por que haveria? Mas não, não concordo que eu acho que minha merda (pra usar a expressão de Ifemelu) seja a pior, nem perto disso. Mas sim, é muito mais fácil (mas não melhor) ser amarela que ser negra.

Esse tipo de enfrentamento acima eu tive ao longo de toda a leitura, e foi por isso que foi mais demorada do que eu imaginava e também mais cansativa. Não porque pensar canse (embora sim, claro, cansa, mas é necessário), mas porque ganhar novas perspectivas demanda muita energia, como qualquer crescimento. É um crescimento, e crescimento bom e sadio (que aqui significa que a estrutura só tende à melhora) não deve ser apressado.

Como talvez já tenha sido possível perceber, embora a história traga como narrativa o desdobramento da relação entre Ifemelu e Obinze, e embora eu tenha do fundo do meu coração torcido pelo futuro da relação entre ambos, não foi a história de amor deles o grande atrativo para mim, obviamente, com tantos assuntos importantes acontecendo (sim, a raça é o assunto crucial, nem um pouco diluído, mas a imigração também é outro que vale a pena refletir sobre).

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E também aqui, Chimamanda mantém sua linguagem jovem e tranquila. Ainda que o tema do livro possa parecer sério demais por sua importância, a escrita de Adichie é completamente acessível. Eu diria que foi um ótimo complemento à leitura do já mencionado Pequeno Manual Antirracista. Tantas situações do livreto aparecem muito bem exemplificadas em Americanah.

Os personagens são muito reais, não daquele jeito superficial que ou só nos faz cair de amores completamente ou odiá-los do começo ao fim. Não. Sentimos uma complexidade de emoções com relação a eles, assim como na vida real, pois personagens com dimensão provocam um emaranhado de sentimentos nos leitores, às vezes até ambíguos. Ifemelu me conquistou justamente por isso. É uma mulher que desperta tanto admiração como antipatia, amor e frustração.

Uma leitura fundamental para quem gostaria de refletir mais sobre questões raciais e ver a empatia aflorar dentro de si.


Nota:

*Tão incrível que é como se sua cabeça explodisse – e segundo dizem, “a mente que se abre a uma nova ideia nunca volta ao seu tamanho original”.


Dados Técnicos do livro:

Capa comum: 520 páginas

Editora: Companhia das Letras; Edição: 1 (25 de agosto de 2014)

ISBN-10: 8535924736 – ISBN-13: 978-8535924732

Título Original: Americanah

3 comentários

    1. Obrigada, Gio.
      A linguagem é super tranquila, como você já deve ter percebido em Sejamos Todos Feministas, o difícil mesmo, eu achei, é como cada capítulo, embora curto, aborda uma reflexão que nos incomoda porque nos tira da nossa zona de conforto e mostra o quanto somos privilegiados. Como eu disse, verdadeiros tapas na cara, mas que servem pra tornar a leitura um aprendizado.

      Curtido por 1 pessoa

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