Ideias para adiar o fim do mundo – Ailton Krenak

Sinopse:

“Ailton Krenak nasceu na região do vale do rio Doce, um lugar cuja ecologia se encontra profundamente afetada pela atividade de extração mineira. Neste livro, o líder indígena critica a ideia de humanidade como algo separado da natureza, uma “humanidade que não reconhece que aquele rio que está em coma é também o nosso avô”.”


Cheguei até este livro por indicação da Lara (@litelaratura) em seu Instagram, ao divulgar livros escritos por indígenas. Confesso que eu nunca tinha me atentado para isso, até ver o post dela. E é por isso que amo tanto seguir Igs literários! Sempre tem um conteúdo que nos faz sair da nossa bolha.

“Ideias para adiar o fim do mundo” é a reunião adaptada de duas palestras e uma entrevista em Portugal com Ailton Krenak, um dos maiores líderes indígenas do Brasil, responsável pela inclusão do capítulo sobre a proteção e direitos indígenas em nossa Constituição Federal, após seu discurso na Assembleia Constituinte de 1987, em que pinta sua face de tinta preta de jenipapo (símbolo de luto em sua tribo, Krenak) como forma de protesto, caso a emenda protocolada pelo Núcleo de Cultura Indígena (do qual foi Fundador e Coordenador Nacional), não fosse aprovada.

O título surgiu de forma não pensada, mas carregada de indubitável provocação. Quando foi convidado para um encontro na UnB sobre desenvolvimento sustentável, avisaram-no que ele precisava dar um título a sua palestra, e ele respondeu, absorto com outras atividades “Ideias para adiar o fim do mundo”, o que foi levado a sério pelo pessoal da UnB e colocado como título na programação do evento.

O livro é extremamente curto, dando até a sensação de que mais poderia ter sido dito, mas acredito que a intenção do ambientalista nunca foi o de dar todas as respostas (muito menos ideias para adiar o fim do mundo), e sim de plantar uma semente naqueles que tiverem interesse em entender sua crítica quanto à ideia de a humanidade estar de um lado e a natureza do outro. A primeira pergunta, aliás, que ele joga no ar em seu livro é: “como é que, ao longo dos últimos 2 mil ou 3 mil anos, nós construímos a ideia de humanidade?” E daí parte para defender que, até o início do século XXI, a ideia que se tinha de humanidade, na verdade, justificava o uso da violência: “A ideia de que os brancos europeus podiam sair colonizando o resto do mundo estava sustentada na premissa de que havia uma humanidade esclarecida que precisava ir ao encontro da humanidade obscurecida, trazendo-a para essa luz incrível.” E aos efeitos dessa colonização assistimos até hoje, não é mesmo?

Mas levei um tapa na cara com o que veio adiante, quando o autor dirige suas críticas inclusive para instituições não só consolidadas, como ele diz, mas também muito respeitadas: universidades, organizações mundiais, etc., e também quebra o mito da sustentabilidade. Achei todas suas críticas muito pertinentes, e adoraria que ele tivesse desenvolvido ainda mais o assunto. Acredito, porém, que esse também nem é o papel dele. Deveria ser do interesse de qualquer pessoa refletir sobre a ideia de natureza, já que ela permeia tudo e todos, e não se limita a espaços de preservação, como um museu a céu aberto, para que as futuras gerações possam apreciar como amostras de tempos de outrora.

A crítica que Ailton Krenak lança com este livro, na verdade, me veio como vislumbres através dos textos da Eliane Brum, quando ela destaca que não poderia falar dos povos da floresta sem de fato estar no centro de seu tema, e então, muda-se para Altamira – PA. Em muitos de seus artigos, em sua entrevista com Bruno Torturra, em parte de seu livro “Brasil, Construtor de Ruínas”, ela aborda sua tentativa de descolonizar-se para tratar da humanidade na mesma concepção de Ailton. Porém, só após ler “Ideias para adiar o fim do mundo” é que, de fato, consegui ter uma melhor compreensão do assunto. Na ideia de humanidade vs. natureza, a qual somos ensinados, pensamos apenas como consumidores; os seres humanos só se ligam à natureza numa relação de consumo: preservemos os recursos naturais, pois deles dependemos para sobreviver, como se o mundo (e a natureza) deixassem de existir sem o homem (ah, sempre o homem como a medida de todas as coisas, certo?). Em outras culturas, porém, não apenas é clara a ideia de que o homem é apenas parte da natureza, como também de que tem com ela uma relação familiar, de ancestralidade, e a destruição de seus elementos o torna órfão. É passar a pensar sobre essa relação que torna possível construir um verdadeiro significado para “humanidade”. Enquanto, em nome do progresso econômico, se permitir que florestas e terras indígenas sejam exploradas, continuaremos a tirar a verdadeira riqueza dessas pessoas e a torná-las uma população urbana pobre, sem recursos, marginalizada e desamparada de seus entes queridos não humanos.

Não espere deste livro respostas ou lições para adiar o fim do mundo, mas sim choques de realidade para repensar nossa relação com ele, com a natureza, da qual somos ínfima parte. Se o leitor se permitir ser atingido por tais choques, creio que ele conduzirá a mais perguntas e dúvidas que esclarecimentos. Isso não é o suficiente, mas é o imprescindível para o começo de toda boa mudança.


Dados Técnicos do Livro:

Formato: eBook Kindle

Autor: Ailton Krenak

Editora: Companhia das Letras (5 de julho de 2019)

Número de páginas: 61 páginas – Tamanho do arquivo: 1819 KB

ASIN: B07RNQB854

Exemplar lido através da plataforma NetGalley, em parceria com a editora Companhia das Letras. Adquira o seu preferencialmente pelo site da editora.

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