Homem Invisível – Ralph Ellison

Sinopse:

“Obra fundamental na formação intelectual de Barack Obama, um dos romances seminais do cânone afro-americano, livro que resume a experiência de ser negro nos EUA, Homem invisível narra a história de um jovem negro que sai do sul racista dos Estados Unidos e vai para o Harlem, em Nova York, nos primeiros anos do século XX. Com o passar do tempo, entre experiências frequentemente contraditórias, o protagonista conhece um mundo muito diferente daquele que idealizara. Invisível para brancos racistas e também para negros, ele deseja apenas ser como é.”


O livro inicia com um prólogo, em que o protagonista, um jovem negro, já adianta que se tornou “melancólico”, vivendo num buraco subterrâneo, mas em meio à muita “luz” que, segundo ele diz: iluminou a “escuridão de minha invisibilidade”, e pede paciência também ao leitor para a história que irá contar do porquê de tanta melancolia e por que ama tanto a luz: “sem luz, sou não apenas invisível, mas também desprovido de forma, e não ter consciência da própria forma é viver uma morte”.

Estamos diante de um narrador-personagem, mas que, reforçando o título do livro, permanece anônimo a todo tempo. Há vocativos, certamente, que outros personagens se utilizam para lhe dirigir a palavra, mas o efeito de tais vocativos também se prestam apenas a amplificar sua condição de invisibilidade. E o estranhamento de um dos vocativos, “irmão”, não passa despercebido por ele nem pelo leitor, utilizando-o inicialmente de forma irônica, e, com o tempo, desprovido de seu real significado. Enfim, ele nunca é visto em sua individualidade, sendo também constantemente inserido dentro de dois coletivos e distintos “nós”.

Acompanha-se o recorte da vida do protagonista por um tempo que não me parece muito longo, mas que certamente deixa a impressão no leitor de uma passagem vagarosa, lenta, tal como, a meu ver, se dá realmente o aprendizado do próprio personagem.


Por causa de um discurso, o protagonista consegue uma bolsa para estudar numa universidade, mas é dela expulso após um incidente de que não teve culpa e cujos argumentos que o levaram a agir como agiu são completamente ignorados. Assim, ele é enviado para Nova York, com 7 supostas cartas de recomendação para um novo emprego.

Chegando à nova cidade, dirige-se aos potenciais empregadores com as respectivas cartas, mas nenhum deles o retorna, até que descobre o porquê: não se tratavam de cartas de recomendação, mas de cartas destruidoras de reputação. Ainda assim, consegue um emprego numa fábrica de tintas, que, ironicamente, se orgulha de produzir a tinta branca mais branca de todas. Lá enfrenta já muitas dificuldades com seu superior, e também se envolve, sem querer, numa confusão sindical. Tudo pelo que passa ali e até mesmo anteriormente, quando frequentava o campus universitário no sul, lhe serve de aprendizado. Até que ele testemunha o despejo de um casal de negros no Harlem. Assistir a esse despejo o faz discursar em público, e seu discurso chama a atenção de uma organização, que o convida a integrá-la. Trata-se da irmandade que o coopta e que passará a tratá-lo pelo já dito vocativo “irmão”. Esse grupo se diz trabalhar “para um mundo melhor para todo o povo”, mas a verdade é que se incomodam que ele levante a questão do racismo:

“— Por que seus colegas falam sempre em termos de raça? — detonou ele, com os olhos em brasa.”

— Que outros termos você conhece? — indaguei, confuso. — Você acha que eu me aproximaria dali se eles fossem brancos?

Ele levantou as mãos e riu.

— Não vamos discutir isso agora — disse. — Você foi muito eficiente em ajudá-los. Não posso acreditar que seja tão individualista quanto pretende. Você me pareceu ser um homem que conhece seu dever para com as pessoas e o cumpre bem. O que quer que pense disso pessoalmente, você foi um porta-voz de seu povo e tem o dever de trabalhar no interesse dele.”

Essa irmandade é um dos “nós” ao qual o protagonista vem a se juntar, o outro “nós” são os negros, onde, uma vez inserido, infelizmente vem a se dissolver apenas como parte de um todo, e sua individualidade, representada por suas ideias, parece não importar.

Ele nunca consegue ser, aos olhos dos outros, como ele realmente é. Seja por fazerem uma suposição equivocada, seja por esperarem dele determinado comportamento, que ele acaba por incorporar, atendendo às expectativas alheias, seja ao impedi-lo mesmo de deixar se expressar quando tem vontade de fazê-lo. Quando realmente consegue se expressar, não é para seu entorno, mas sim como narrador, numa espécie de desabafo com seu leitor, a quem ele, obviamente, não tem como efetivamente dialogar, interagir.

Ao longo da narrativa, portanto, vários são os episódios narrados que explicitam como se desencadeou a frustração do protagonista, por sucessivos mal entendidos, condescendência, racismo e injustiças, que ele então prefere viver “enterrado” em meio à claridade de suas epifanias.

Não foi um livro fácil de ler. Embora eu estivesse compreendendo a narrativa, sentia o tempo todo que estava fazendo uma leitura muito rasa, e que havia sempre algo mais sob a superfície, escondido junto do narrador, além de se tratar de uma história densa, em que muitas coisas acontecem em pouco tempo, mas são explorados por muitas páginas, imprimindo um ritmo lento à narrativa que pode não agradar muitas pessoas, mas que certamente irá provocar muitas reflexões sobre a condição de ser negro, e não apenas nos EUA. Tendemos a negar o racismo no Brasil, apontando sempre os fatos abomináveis ocorridos em outros países ou representados em outras literaturas, mas precisamos olhar de dentro também, talvez até de uma toca cravada no solo de nossa existência. É esse olhar que será nossa luz.


Dados Técnicos do Livro:

Capa comum : 574 páginas
Autor: Ralph Ellison
Editora : José Olympio; 2ª Edição (31 agosto 2020)
ISBN-10 : 8503013797 – ISBN-13 : 978-8503013796
Título Original: Invisible Man
Tradução: Mauro Gama
*Exemplar recebido em parceria com o Grupo Editorial Record – adquira o seu preferencialmente no site da editora.

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