A terceira vida de Grange Copeland – Alice Walker

Final de 2020 está logo chegando, e eu nem imaginava que ainda este ano iria ler algo tão maravilhoso quanto “A terceira  vida de Grange Copeland”, de Alice Walker. Este é o primeiro romance da escritora, e é também meu primeiro contato com sua escrita. Embora sua obra mais conhecida seja “A Cor Púrpura”, fiquei muito feliz de, ainda que de forma não planejada, ter começado justamente por onde Walker também iniciou sua caminhada (desculpem o trocadilho*). Recebi o livro em parceria com o Grupo Editorial Record, que nos trouxe essa nova e bela edição, e foi assim que me surgiu a oportunidade de ler algo da autora. Muito grata pelo envio, que veio a se tornar uma das minhas melhores leituras do ano (talvez da vida – já está favoritado). 

Sinopse:

A terceira vida de Grange Copeland, primeiro livro de Alice Walker – vencedora do Prêmio Pulitzer de 1983 pelo livro A cor púrpura -, revela o cotidiano de uma família negra no Sul dos Estados Unidos, por três gerações. Oprimido pela estrutura racista do condado de Baker, o trabalhador rural Grange Copeland abandona família e amante para ganhar a vida no Norte, mas retorna, após passar por experiências transformadoras, decidido a nunca mais conviver com pessoas brancas. Grange refaz sua vida, torna-se fazendeiro, mas tem que lidar com as consequências de suas escolhas no passado. Escrito com linguagem poderosa e precisa, o livro trata de violência – racial, social, familiar, contra a mulher -, mas também da força humana, capaz de mudar uma realidade inóspita por meio do amor e da ação no mundo”.          

Grange Copeland estampa o título da obra, mas fica ausente por bons momentos da narrativa, e esse é o retrato perfeito do abandono. Cansado da vida que levava no Sul racista dos EUA, com um ódio crescente dirigido às pessoas brancas como um todo, ele simplesmente deixa a família e ruma iludido ao norte, de onde escutou sempre maravilhas. Lá, porém, não encontra a tão sonhada igualdade. No melhor cenário possível, Grange sentia-se invisível (e aqui, como me lembrei da leitura de “Homem Invisível” Ralph Ellison), mas jamais igual.

Seu abandono tem reflexos, que, no livro, ainda se estendem por mais duas gerações à frente. A primeira delas foca em seu filho Brownfield, que alimenta o mesmo ódio pelos brancos e os culpa por tudo de errado no mundo e na sua vida, reproduzindo com sua esposa Mem e suas filhas o abandono e a violência vivenciados por ele.

Os capítulos em geral são bem curtos, fato ao qual, aliás, sou muito grata, porque essa estrutura nos oportuniza diversas pausas, extremamente necessárias, não para reflexão, mas para digestão do que acabamos de ler. Um dos capítulos que retrata a humilhação e anulação pelas quais Mem passa —  numa ilustração perfeita e horrenda de violência doméstica —  me fez perder o ar e irrigou em mim uma semente profundamente enterrada de ódio.

Deparamo-nos, portanto, com um ciclo de violência que não consegue se romper. E quem sou eu para questionar se esse ciclo poderia ser quebrado se a história nos mostra que as pessoas negras sofreram (e os noticiários nos mostram que elas continuam a sofrer) das mais variadas formas de violência? Parece-me realmente custoso exercer o amor ao próximo se tudo que se recebeu foi ódio. Não se diz que as pessoas dão aquilo que recebem? No posfácio da obra, no entanto, Alice Walker explica que queria de alguma forma comunicar às pessoas negras que o ódio por elas sentido, que acaba por destruir sua própria família e comunidade, é inútil. Nesse ponto, ela se vale de uma figura reverente para reforçar a mensagem, ao mencionar Martin Luther King, sendo o leitor lembrado, ainda que indiretamente, que o ativista político também sofrera inúmeras opressões e mesmo assim pregava a não-violência.

Grange tem o vislumbre dessa inutilidade da violência contínua, mas a vida continuou a lhe bater. O título do livro, assim, me parece fazer referência a três grandes momentos do personagem: o oprimido que se torna opressor (em seu próprio lar); o redimido, que tenta dar à neta o amor que não deu aos filhos; e, por fim, a derrocada.

Termino, assim, o post sem uma resposta para a minha própria pergunta, por não me achar autorizada a respondê-la. Acredito, porém, que devo recomendar a leitura deste pequeno mas impactante romance, para que, pela voz de Alice Walker, ela possa continuar a retumbar, para que cada vez mais pessoas possam se conectar e conhecer outras histórias, outras realidades e formar novas perspectivas e reflexões.

Um livro dolorosamente incrível e maravilhoso! Quem já leu “A Cor Púrpura” também achou a leitura maravilhosa e me recomenda? Deixe nos comentários.


Nota: *Walker, em livre tradução, andarilho, caminhante.


Dados Técnicos do Livro:

Capa comum : 336 páginas
Autora: Alice Walker
Editora : José Olympio; 1ª edição (16 novembro 2020)
ISBN-10 : 8503013800 – ISBN-13 : 978-8503013802
Título Original: The third life of Grange Copeland
Tradução: Carolina Simmer; Marina Vargas
*Exemplar recebido em parceria com o Grupo Editorial Record – adquira o seu preferencialmente no site da editora.

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