Us Against You (#2 Beartown) – Fredrik Backman

Beartown é uma cidade pequena encerrada no coração de uma gelada floresta na Suécia. A cidade (fictícia) não tem muitos atrativos, exceto pela beleza de suas árvores e pelo esporte que a movimenta: o Hóquei.

Dizem que quando alguém morre em Beartown, escolhem a árvore mais bonita para enterrar a pessoa. Logo no começo do livro, o autor não esconde: vidas serão perdidas; e, eu complemento aqui, tudo em nome do esporte, mas não apenas. Porque nada é tão descomplicado assim.

Hóquei é a alma de Beartown. Mas uma tragédia aconteceu bem próximo à final da temporada do último ano, e esse evento divide toda a cidade.

Essa polaridade vai fazer a cidade afundar. Mas o mesmo esporte que dividiu sua população também tem o poder de unificá-la. É sobre essa queda e essa ascensão que trata o livro #2 da trilogia de “Beartown” (clique aqui para resenha do livro #1).

Eu não favoritei esse livro, mas pode ser que com o tempo essa ideia amadureça e eu acabe por fazê-lo. É que, refletindo muito sobre por que esse segundo livro não me causou tanto impacto quanto o primeiro, embora eu tenha adorado, eu entendi minha relação.

O primeiro livro é passional em muitos níveis, mas de forma bem sintética, envolve o esporte de uma maneira que nos faz escolher lados. Também envolve política, que é muitas vezes mais passional que racional. E eu senti muito ódio (sim), no primeiro livro, diante da postura de alguns personagens e algumas situações, mas em contraste, também senti um amor imenso por outros (ou até pelos mesmos que odiei, mas os perdoei em outras situações). Fato é, não saí com as emoções equilibradas daquela leitura. Acho que saí com um pouco de sede por alguma espécie de vingança.

E o segundo livro? Bom, primeiro que já passou um tempo desde que li “Beartown”, e toda a raiva que eu senti teve tempo de se assentar e ser soterrada por muitas outras leituras e, consequentemente, por outros sentimentos. Não fui ler “Us Against You” com raiva e sede de vingança, fui ler já mais calma, buscando mudanças, quem sabe esperança. Porque Backman promete isso. Ele diz que o livro #2 é uma história sobre como uma cidade desmoronou, mas também é a história de como uma cidade se reergueu.

O começo do livro é tido por muitos como devagar, mas como eu sou péssima para sequências por nunca lembrar exatamente em que ponto uma história parou, eu achei super bem-vinda a breve retomada que Backman faz da história do primeiro livro. Acho até que quem não leu o primeiro pode ir direto para o segundo. Mas, sinceramente, (e já me perguntaram se podia), não recomendo. A leitura de Beartown vai tornar a sua continuação muito mais impactante, porque tem uma tensão muito grande no primeiro livro, que não vai exatamente ceder no segundo, vai ser transformada em outras situações, com outros tipos de tensão.

Assim como no primeiro livro, a rivalidade entre as cidades de Beartown e Hed vai ser explorada. Essa rivalidade acaba sendo enfrentada no principal esporte das duas cidades, o Hóquei. Só que o confronto entre ambas é muito maior que a de um mero jogo ou campeonato. Acaba sendo muita pressão para que os jovens jogadores de Beartown (alguns nem atingiram ainda os 18 anos) tenham de lidar, e sem o devido preparo.

Fora isso, o terrível evento ocorrido no último campeonato não foi de fato resolvido. Ficou um clima bem ruim na cidade, e, como se não bastasse, outro evento irá incitar ainda mais os fiéis torcedores de Beartown a fazerem algo a respeito sobre os rumos de seu clube e de sua cidade. Mesmo que isso signifique machucar outras pessoas. E para piorar, sempre tem um político oportunista, que vai tirar proveito dessa tensão toda. Achei muito pertinente a forma como o autor aborda esse lado mais político ainda no segundo livro.

O drama familiar do primeiro livro aqui também tem sua continuidade, e acho que um dos personagens amadurece muito em sua trajetória, enquanto outro apenas vai ficando cada vez mais perdido.

Falando em personagens, embora toda a história fale sobre a cidade de Beartown, é preciso lembrar que ela é feita de pessoas, e são essas pessoas, cada uma com sua história pessoal, que tornarão este um livro extraordinário.

Benjamin, que já era um personagem pelo qual desenvolvi uma enorme empatia no primeiro livro, aqui, torna-se meu favorito, e o leitor é levado a torcer pelo seu final feliz. Mas é preciso lembrar que Us Against You é apenas o segundo livro da trilogia e muita água ainda irá rolar.

Adorei ter lido este livro e ver, mais uma vez, como Backman é ótimo na leitura de pessoas, e como isso se traduz na sua escrita e desenvolvimento de personagens. A maior lição pra mim nele é que as pessoas carregam dentro de si muitas qualidades, o que as tornam boas e ruins, e que isso pode acontecer inclusive ao mesmo tempo. Tudo é muito mais complexo do que talvez gostaríamos que fosse. É por isso que, ao longo da história, a gente pode odiar tanto um sujeito, mas perdoá-lo. Aliás, acho que é justamente por causa dessa complexidade toda que somos capazes de perdoar. E isso é muito bom.

Também entendi com essa leitura que a busca por pertencimento é um valor muito importante para as pessoas. E é por isso que, mesmo estando do lado que se sabe estar errado, quando há outros tantos juntos com você, é difícil simplesmente abandoná-lo. Às vezes é mais fácil insistir num erro do que ser o primeiro a admiti-lo e querer mudar as coisas. Uma triste constatação, é verdade. Mas que bom que Backman nunca foca só nas multidões. Neste livro, principalmente, vejo como ele mostra a importância das pessoas que, discretamente, quebram esses ciclos e rompem com a inércia de seus grupos. Pessoas que fazem diferente e que, uma a uma, vão influenciando outras pessoas a também romperem ciclos e tornar este mundo um lugar melhor.

Pra cada leitor que conseguir ter essa sacada e sentir também que pode fazer a diferença no mundo, num verdadeiro trabalho de formiga, acho que podemos ter esperança de que tempos melhores virão. E a promessa feita pelo autor é mais uma vez cumprida. Ele cumpre todas as promessas que faz no livro, mas nem sempre da forma como a gente espera.

Obrigada, Backman, por mais esse precioso livro.

Alguns trechos:

“Have you ever seen a town fall? Ours did. We’ll end up saying that violence came to Beartown this summer, but that will be a lie; the violence was already here. Because sometimes hating one another is so easy that it seems incomprehensible that we ever do anything else”. (p. 1 – parágrafo de abertura)

“”Grief is the price we pay for love, Ramona. A broken heart in exchange for a whole one””. (p.111)

“Being a mother can be like drying out the foundations of a house or mending a roof: it takes time, sweat, and money, and once it´s done everthing looks exactly the same as it did before. It´s not the sort of thing anyone gives you praise for.” (p. 208)


Dados Técnicos do Livro:

  • Capa comum: 438 páginas
  • Autor: Fredrik Backman
  • Editora: Washington Square Press (março de 2019)
  • ISBN: 978-1-5011-6080-6
  • Título Original: Vi mot er
  • Idioma: Inglês
  • Tradução: Neil Smith
  • *Edição que ganhei de presente do João

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