Resenha: Precisamos falar sobre o Kevin – Lionel Shriver

Sinopse: 

Kevin Khatchadourian, 16 anos, é autor de uma chacina na qual matou sete colegas, uma professora e um servente num colégio dos EUA. Neste livro, a autora fez um thriller psicanalítico em que a mãe do assassino escreve cartas ao pai ausente. Discute casamento, maternidade e família, enquanto denuncia o que há com sociedades contemporâneas que produzem assassinos mirins em série, ou ‘pitboys’.


Minhas impressões:

“Precisamos falar sobre o Kevin” é um livro do qual realmente precisamos falar.  Não foi uma piada, não foi um trocadilho, mas uma coincidência praticamente tautológica entre um título e uma brevíssima análise de seu conteúdo. Com certeza a escritora pensou nisso ao escolher o nome de sua obra.

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Mas vamos desenvolver. Por que precisamos falar desse livro?

Primeiro, gostaria de dizer que me é bastante custoso falar desse livro. Justamente porque ele se assemelha em muito àquelas conversas difíceis que vez ou outra temos de enfrentar, que ninguém, de fato, quer tocar no assunto, mas que todos sabem ser necessárias. Nem tudo, porém, pode se dar ao luxo de ficar nas entrelinhas. Algumas dessas “conversas difíceis” precisam uma hora ou outra acontecer. Algumas delas, além de difíceis, são também polêmicas, e é o caso dessa obra de ficção da jornalista Lionel Shriver.

Ainda nos dias atuais, creio que há um certo tabu em relação à maternidade. Ainda se cobra muito de uma mulher que ela seja, eventualmente, mãe, que gere filhos. Nossa conversa difícil já começa desse tópico. Eva Khatchadourian, a princípio, não queria ser mãe. Ela, que sempre estava viajando pelo menos 5 vezes por ano para o exterior, e conhecendo lugares novos, aceita a ideia da maternidade quando começa a se questionar se estava faltando algo em seu casamento. Veja bem, ela aceita a ideia de ser mãe, encarando-a como um desafio. Nas palavras delas, ser mãe seria seu novo “país estrangeiro”.

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Mas então ela engravida, e Eva se arrepende tão logo descobre-se grávida. Mas não vai voltar atrás. Diferentemente também do que se espera, ela não leva a gravidez com o entusiasmo e expectativas que costumam invadir os corações das mulheres. Ela a encara como um fardo, e, em sua cabeça, o bebê soa mais como uma propriedade do que um ser em desenvolvimento; de um lado, o marido Franklin dizendo para que Eva tome mais cuidado com o “meu bebê”, do outro, Eva dizendo que a gravidez é dela, e ela faz o que bem entender.

Quando Kevin, enfim, nasce, Eva não sente as bênçãos da maternidade lhe ocorrerem, como todos diziam: “quando você for mãe, vai ser diferente”. Ela se sente enganada. Nada mudou.

A relação de Eva e seu filho, Kevin, como se pode imaginar, é bastante conturbada.  Ela mesma reconhece isso e a tantas se diz uma mulher “pavorosa”.

Eu entendo mulheres que não queiram ser mães, eu não vejo problema nenhum nisso. Mas é inevitável, nos questionarmos junto com Eva, se ela não teria errado ao assumir o compromisso de se tornar mãe. Em muitos momentos do livro eu realmente ficava chocada com algumas reações (ou com a falta delas) de Eva em relação a Kevin. Mas nem por isso às vezes ela deixava de ter razão, sobretudo quando dirigia críticas à cultura machista “é sempre culpa da mãe”. Será?

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A história nos é contada através das cartas que Eva escreve a seu ex-marido, Franklin, analisando desde a decisão do casal de ter um filho até a quinta-feira que destruiu por completo a família, o dia que jamais se apagaria de sua memória: a quinta-feira em que Kevin mata seus colegas de escola, uma professora e o funcionário da cantina.

Há duas outras coisas que creio que é preciso se ter em conta ao ler o livro. A primeira delas é que a história tem apenas a perspectiva dos fatos através dos olhos de Eva. A segunda é que, mesmo assim, muito provavelmente, ela irá convencer o leitor de que sua análise é sincera, pois ao mesmo tempo em que faz elogios ao marido, também faz duras críticas, e faz o mesmo com ela própria. Novamente, impossível ignorar que ela se reconhece como uma pessoa pavorosa, e em vários momentos ela diz que não está tentando se eximir de culpa alguma. Ainda assim, me questiono se em outros momentos, ela não estaria fazendo justamente o contrário, tentando buscar outros culpados. Há uma cadeia de contradições bem sutis nesse sentido para mim. Mas é uma das coisas que também mais me encantou na obra.

Além de tudo isso, os personagens são muito bem trabalhados, ainda que partam apenas da ótica imparcial de Eva. Kevin é um personagem intrigante, senão um dos mais intrigantes que já conheci até hoje. A forma que as cartas narram os fatos também impulsiona a leitura naturalmente, já que o leitor se vê tão envolvido na trama e sempre quer saber mais.

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Para mim, o livro não tem uma conclusão, é você quem deve tiras as suas próprias. Ainda assim, o final é de uma emoção sem tamanho para mim. Chorei bastante nos momentos em que Eva escreve sobre os dias de visita a Kevin na casa de correção de menores.

Por mais odiosa que seja um assassinato, a história de Kevin traz uma reflexão importante. O livro é um verdadeiro soco no estômago. Visceral. Leia-o e vamos conversar mais. Todos precisamos falar sobre o Kevin.


Informações adicionais sobre o livro (edição que eu li):

Formato: eBook Kindle

Tamanho do arquivo: 2069 KB

Número de páginas: 484 páginas

Editora: Intrínseca (13 de novembro de 2012)

Vendido por: Amazon Servicos de Varejo do Brasil Ltda

 

 

 

 

 

7 comentários Adicione o seu

  1. Eu já comecei a ler esse livro 2 vezes e parei.
    Me pareceu uma leitura muito maçante, e a narradora se demorava muito na explanação sobre os detalhes de seus problemas conjugais.
    Mas sei que são informações importantes para pintar o quadro e entendermos como se desenvolveram os problemas de Kevin.

    Com a sua resenha despertou a vontade de dar mais uma chance ao livro.
    Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Isa Ueda disse:

      Confesso que fiquei bastante empolgada no começo, achando a escrita dela um tanto quanto elegante e às vezes rebuscada pra quem estava apenas escrevendo cartas pro marido. Não parecia a linguagem de alguém conversando com uma pessoa íntima, próxima, parecia mais alguém tentando impressionar. Essa empolgação se transformou em dois momentos que eu me lembro numa leitura bastante enfadonha e sonolenta. Mas depois ela retoma um ritmo que me empolgou de novo, e então já não queria mais largar. Espero que dê uma nova chance, e que termine 😉

      Curtido por 1 pessoa

      1. Descreveu muito bem o mesmo processo de leitura que eu passei.
        Infelizmente eu desisti antes de alcançar a parte empolgante.
        Mas sim, não me darei por vencido. Retomarei o livro ainda este ano.

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      2. Isa Ueda disse:

        Ah, fico feliz em saber que não desistiu! E mal posso esperar pela sua resenha!

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  2. Monica disse:

    Apesar de ficção, a leitura do post remete a fatos reais revelados em filmes ou notícias. Recentemente, assisti um filme na Netflix em que dois jovens matam colegas, a professora e depois se matam …
    Assumir compromissos significa responsabilidades.
    Sempre ouvimos “os frutos são resultado de nossas ações ou omissões”. E concordo com isso.
    Quero ler o livro.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Eitaa! Mais um livro que está na minha listinha infinita de livros para ler!

    Curtido por 1 pessoa

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