Eu Sei Por Que O Pássaro Canta na Gaiola – Maya Angelou

Quem é Maya Angelou?

Perdoem-me aqueles que chegaram a este texto já sabendo um pouco sobre Angelou, mas constatei que, embora ela seja uma figura ilustre principalmente nos EUA,  onde nasceu, sobretudo com relação ao ativismo dos direitos das pessoas negras, ainda há muitos aqui no Brasil, que pouco ou nada sabem sobre essa mulher que foi múltipla em sua existência.

Enquanto faço minha breve apresentação sobre Angelou, já estarei dando um pouco mais de informações sobre o livro Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola”, e, por mais que possa dar spoilers, eu o faço de livre consciência, porque jamais um relato meu substituiria a experiência indescritível de ler o que Maya Angelou escreveu.

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Marguerite Ann Johnson, ou Maya Angelou, como viria a ser conhecida, nasceu em 4 de abril 1928, em St. Louis, Missouri EUA. Quando Maya tinha apenas 3 anos de idade, seus pais se separaram e ela e seu irmão mais velho, Bailey, (4) foram mandados sozinhos de trem da Califórnia para o Arkansas, para serem criados pela avó paterna, Annie Henderson, a quem Maya e Bailey chamariam de Momma.

“Anos depois, descobri que os Estados Unidos foram atravessados milhares de vezes por crianças Negras assustadas, viajando sozinhas até seus novos e prósperos pais em cidades do norte, ou de volta até os avós em cidades do sul quando o norte urbano faltou com sua promessas econômicas”. (p. 20)

Aos 7 anos de idade, depois de já ter criado para si uma narrativa de morte como justificativa da ausência de notícias de seus pais, seu pai aparece para pegar tanto Maya quanto Bailey e levá-los para morar com a mãe, Vivian Baxter.

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Quando tinha apenas 8 anos, sob o teto de Vivian Baxter, Maya é abusada sexualmente pelo namorado de sua mãe, o Sr. Freeman. O homem é julgado e condenado, mas não fica mais que um dia preso. Poucos dias após ser solto, Freeman é brutalmente assassinado, provavelmente pelos parentes de Maya. Tudo isso na cabeça de uma garotinha de 8 anos, porém, lhe leva a pensar que foi o fato de ela ter contado quem lhe estuprara que ocasionou a morte de uma pessoa, e, então Maya emudece por cinco anos, com medo do poder de sua voz. Nesse período, ele se refugiou nos livros, e chegou a ler todos os volumes da biblioteca para Negros de Stamps, pequeno povoado onde volta a morar com a avó, Momma, após o episódio traumático do abuso.

Uma professora e amiga da família, Sra. Flowers, é quem ajuda Maya a recobrar a fala. Ela levava a garota para sua casa e a fazia ler poesia em voz alta:

“”Sua avó diz que você lê muito. Em todas as oportunidades que tem. Isso é bom, mas não é o suficiente. Palavras significam mais do que é colocado no papel. É preciso a voz humana para dar a elas as nuances do significado mais profundo.”

“Decorei essa parte sobre a voz humana dar nuances às palavras. Pareceu muito válido e poético.

“Ela disse que me daria alguns livros e que eu devia não só lê-los, mas lê-los em voz alta. Sugeriu que eu tentasse fazer uma frase soar do máximo de jeitos diferentes possível.” (pp. 122-123)

Aos 14, Angelou volta a morar com sua mãe, em São Francisco, na Califórnia, onde, aos 15 anos, vem a se tornar  a primeira negra condutora de bondes (os famosos cable cars de São Francisco).

Aos 16 ela engravida, e o recorte autobiográfico de Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola” encerra logo após o nascimento do bebê.

Maya escreveu ainda outros 6 livros autobiográficos, o último deles, publicada ainda enquanto estava viva (a autora faleceu em 2014), fala sobre a relação entre ela e sua mãe (“Mamãe & Eu & Mamãe”, Editora Rosa dos Tempos), já que Maya viveu sentimentos contraditórios com Vivian Baxter.

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E a vida continuou lhe desafiando com o nascimento e a responsabilidade de uma criança para cuidar, tanto que além de empregada doméstica, sujeitou-se inclusive à prostituição. Quem conhece um pouco mais sobre Maya Angelou, sabe que ela veio a se tornar uma das principais vozes femininas negra nos EUA, e uma grande ativista dos direitos civis negros no país, além de escritora, poetisa, cantora, dançarina, atriz, diretora, cozinheira, etc, e por isso, no início deste post, a descrevi como uma mulher múltipla. Ela também foi indicada a um Prêmio Pullitzer, recitou seu poema “On the Pulse of Morning” na posse do presidente Bill Clinton, sendo que sua gravação lhe rendeu um Grammy.


Sinopse:

“RACISMO. ABUSO. LIBERTAÇÃO. A vida de Marguerite Ann Johnson foi marcada por essas três palavras. A garota negra, criada no sul por sua avó paterna, carregou consigo um enorme fardo que foi aliviado apenas pela literatura e por tudo aquilo que ela pôde lhe trazer: conforto através das palavras. Dessa forma, Maya, como era carinhosamente chamada, escreve para exibir sua voz e libertar-se das grades que foram colocadas em sua vida. As lembranças dolorosas e as descobertas de Angelou estão contidas e eternizadas nas páginas desta obra densa e necessária, dando voz aos jovens que um dia foram, assim como ela, fadados a uma vida dura e cheia de preconceitos. Com uma escrita poética e poderosa, a obra toca, emociona e transforma profundamente o espírito e o pensamento de quem a lê.”


Falando um pouco mais sobre o livro em si…

Alguns críticos classificam as autobiografias de Maya Angelou como de ficção, devido à forma que a autora narra os fatos, fugindo dos padrões impostos. Sinceramente, nem sabia da existência de tal gênero, desconheço quais são os rigores de uma autobiografia mais técnica, mas devo dizer que me encantei com sua escrita, que num dado momento está me carregando o peito de um peso que parece insuportável, e pouco depois me fazendo abrir um daqueles sorrisos indisfarçáveis quando se lê em público.

“Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola” teve o título inspirado no poema “Sympathy” de Paul Laurence Dunbar, e não consigo pensar num título mais perfeito que este, justamente porque Maya nos encoraja com suas palavras, com sua história.

Maya cresceu e foi criada no sul dos EUA em pleno período segregacionista. Sabemos que no Sul a situação era ainda pior para os negros. O livro já começa com a narrativa de um episódio humilhante, e uma das passagens logo me chamou a atenção:

“Se crescer é doloroso para a garota Negra do sul, estar ciente do seu não pertencimento é a ferrugem na navalha que ameaça a garganta. 

“É um insulto desnecessário”. (p. 18)

Embora eu ainda não tenha lido, o episódio me lembrou muito a premissa do livro “O Olho mais Azul”, de Toni Morrison, já que Maya relata suas fantasias de que na verdade ela era uma garota branca, de olhos azuis, transformada em negra por uma bruxa má.

Mais à frente, na leitura do livro, achei o episódio do estupro desconcertantemente doloroso, mas Maya nos mostra que ela não é apenas seus traumas.

Foi aliás, depois de ler este livro que passei a entender melhor seu poema A Vida não me Assusta” (DarkSide books).

P_20200207_083113_vHDR_On_1E como em vários momentos de sua vida, a literatura foi transformadora para Maya Angelou. Principalmente na adolescência, Maya passa a tomar ciência do racismo mas passa também a, além de superar seus traumas, ter orgulho de ser Marguerite Ann Johnson, graças à presença ativa de Bertha Flowers (a que lhe fazia ler poemas). Sobre a Sra. Flowers, Maya escreve:

“Durante quase um ano, fiquei pela casa, pelo Mercado, pela escola e pela igreja como um pãozinho velho, sujo e impossível de comer. Então, conheci, ou passei a conhecer, a moça que jogou a primeira boia salva-vidas da minha vida.

“A sra. Bertha Flowers era a aristocrata da Stamps Negra. […]

“Ela foi uma das poucas damas que conheci e permanece em toda a minha vida como medida do que um ser humano pode ser.” (pp. 117-118)

“Enquanto eu comia, ela começou a primeira do que mais tarde viemos a chamar de “minhas lições de vida”. Disse que eu devia sempre ser intolerante com a ignorância, mas compreensiva com o analfabetismo. Que algumas pessoas, mesmo sem poderem ir à escola, eram mais educadas e até mais inteligentes do que professores universitários.” (p. 124)

Com prefácio duplo por Oprah Winfrey e Djamila Ribeiro, esta autobiografia é uma obra atemporal, que narra os desafios de sentir o não pertencimento, o preconceito, o racismo (infelizmente, ainda gritante), a dor de uma infância problemática, mas também mostrando-nos por que mesmo enjaulados, os pássaros cantam, com medo, sem medo, juntos, a todo um bando de outros pássaros, para que saibam que não estão sozinhos, que são compreendidos, que juntos têm força, que individualmente são importantes e também podem cantar sua própria canção.


Dados Técnicos sobre o livro:

Capa comum: 336 páginas

Editora: Astral Cultural; Edição: 1ª (6 de novembro de 2018)

ISBN-10: 8582467141 – ISBN-13: 978-8582467145

Título original: I Know Why The  Caged Bird Sings

2 comentários

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