Curiosidades de “Androides sonham com ovelhas elétricas” e Blade Runner

Eu havia feito um vídeo sobre o livro “Androides sonham com ovelhas elétricas”, do Philip K. Dick. Infelizmente, o canal do qual eu participava encerrou suas atividades e ficou um pouco solto esse post aqui no blog. Mas mesmo assim eu optei por deixar para vocês o conteúdo dele, falando sobre outras coisas do livro. Aqui, lhes trago, então a inevitável comparação livro vs. filme.

Espero que vocês gostem.

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Bom, em primeiro lugar, no livro, a história se passa numa decadente San Francisco, enquanto o filme é assentado em Los Angeles. Existe um fator muito óbvio que deve ter contribuído para a escolha dessa localização no filme: custo. Hollywood está toda lá, afinal! O Studio da Warner Bros fica em Burbank, uma cidade que pertence ao Condado de Los Angeles – Califórnia. Muitos filmes e séries de Hollywood, obviamente, são gravados em Los Angeles, mesmo quando, supostamente, o filme ou a série se passe em outra cidade, como Nova York no seriado Friends ou no filme Torre Negra (2017).

Independente do motivo, é bem verdade que o cenário criado é o que mais importa. Optaram por Los Angeles no filme, mas poderia ser qualquer metrópole entulhada, suja, degradada, pós-guerra mundial nuclear.

Mas, tendo sido Los Angeles a eleita, muito acertada foi a ideia de incluírem um protagonista de outra categoria no filme: o Bradbury Building. Este prédio foi concluído no ano de 1893, mas antes mesmo de ser descoberto pelos historiadores da arquitetura, foi um achado dos cinematógrafos. Em 1943 o prédio faria sua primeira aparição num filme (China Girl), ao que se seguiu inúmeros outros na lista. Blade Runner é um deles.

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Aqui parece uma boa oportunidade para falarmos de uma segunda diferença. No livro, temos J.R. Isidore, um humano cabeça-de-galinha, assim chamado por seu baixo Q.I, e que não conseguiu emigrar para as colônicas de Marte, justamente por ter tido a mente afetada pela poeira radioativa. Ele é um dos funcionários de um hospital veterinário de fachada, que atende casos de animais elétricos. Como é vergonhoso ter um animal elétrico, até a empresa que faz o serviço de manutenção dos pets elétricos tem um disfarce; no filme, a personalidade e personagem de J.R. Isidore são substituídas pelas do gênio J.F. Sebastian, um designer genético dos androides da Corporação Tyrell.

(O que nos leva à terceira diferença: a Corporação Tyrell faz as vezes da Associação Rosen, empresa responsável pela produção de androides; tanto no filme como no livro, temos Raechel como uma das funcionárias do escritório da empresa.)

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No filme, J.F. Sebastian reside num prédio entulhado e decadente, assim como J.R. Isidore. Isidore levanta no livro a teoria da bagulhificação (do termo “kipple“, no original, que significa: entulho, lixo, porcaria). Na tradução, foi escolhida a palavra “bagulho” pela sonoridade. O filme não fala explicitamente da bagulhificação, mas ela está muito bem representada no filme todo: no prédio onde Sebastian mora, na própria Los Angeles repleta de prédios altíssimos e gigantescos, com as ruas lá embaixo mergulhadas na sujeira (do mar de pessoas da ralé e do mar de objetos) e uma poluição visual proporcionada pelos inúmeros hologramas e neons da cidade.

E o que é a bagulhificação? 

Segundo Isidore, a Terra está sendo tomada pelo fenômeno da bagulhificação, em que objetos sem importância, que só servem para acumular entulhos, crescem espontaneamente da noite para o dia. Bagulho atrai mais bagulho, levando  a processo em que o fim só pode ser o bagulho, o lixo, o entulho (zoado, eu sei). Uma análise muito bacana é feita sobre isso no breve texto do Bressane, que é um dos materiais extras da edição comemorativa da editora Aleph.

Ainda que infestado por todo esses “bagulhos”, em Blade Runner 2019, reconhece-se facilmente o famoso prédio pela claraboia no átrio central,  e também porque na fachada do edifício, em tons bem cinzentos, aparece o seu nome: Bradbury Building. Mas, na vida real, o interior do prédio é lindo! Basta ver as fotos.

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O prédio é aberto a visitas, mas só é possível ficar no primeiro piso. Pode-se subir alguns degraus apenas, mas onde o visitante encontrar uma faixa restringindo acesso, é ali que ele deve parar.

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Lá dentro, inclusive, há um cartaz sobre o edifício, rememorando seu uso como cenário no filme Blade Runner. Para os fãs, vale a pena uma visita, já que não se paga nada para entrar. Aproveitem e tirem muitas fotos!

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Outra diferença, é que, o filme, de 1982, se passa no futurístico ano de 2019. Enquanto no livro, como já disse no vídeo, se passa, em 1992, na versão original de Dick, e, depois alterado para 2021. Essa diferença é só em termos de curiosidade mesmo, já que em nada afeta, exceto se pensarmos que já estamos quase em 2019 e ainda não andamos de hovercar (carros flutuantes, para quem não assistiu ao filme).

Vamos falar de diferenças mais relevantes então. Na verdade, quanto mais me ponho a analisar o livro, mais vejo que o filme é somente inspirado no romance de PKD. Vejamos por quê.

Para começo de conversa, Deckard é casado no livro, em vez daquele caçador com ares “noir” interpretado por Harrison Ford. Também, me parece, que o Deckard do livro é um sujeito mais articulado que o quase inexpressivo Harrison Ford. No livro, Deckard entabula conversas sobre suas preocupações pessoais com o vizinho (até lhe confessa que sua ovelha é falsa!), consegue uma negociação com a Associação Rosen e negocia também com os androides. No livro, Deckard se mostra, como eu disse no vídeo, inicialmente satisfeito com seu trabalho, ao passo que no filme, ele já se mostra desde o início cansado de sua “vidinha” de Blade Runner (termo que aliás foi inventado somente para o filme).

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Também, as implicações que levam Deckard a se questionar quanto à diferença de um humano e de um androide são bem mais complexas no livro, embora o efeito prático seja alcançado no filme.

Alguns personagens só existem no livro, e isso inclui a complexidade que eu acabei de falar.

Deckard ganha momentaneamente um parceiro para caçar os androides. Mas a verdade é que, tanto Deckard quanto o próprio colega caçador de recompensas começam a se questionar se seria esse último um androide também.

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Há ainda as figuras muito simbólicas de Buster Gente Fina – um apresentador de comédia cujo programa é a única coisa que passa na Tv, diariamente, o tempo todo –, e Wilbur Mercer, que leva a um verdadeiro culto dos humanos, chamado de “mercerismo”.

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Há outros personagens, mas creio que estes tenham seu destaque. Wilbur Mercer principalmente. A questão do Mercerismo não é tratada no filme.

Os seres humanos se diferenciam basicamente dos androides pela capacidade de empatia que possuem. Androides, no livro, não sentem empatia por animais, por humanos e nem sequer por outros androides.  Então, como se quisessem se lembrar a todo momento de sua superioridade em relação aos androides, os humanos se agarram a essa diferença, a ponto de terem desenvolvido todo um culto em torno disso. Para isso, um dos objetos mais preciosos de todo ser humano é a sua caixa de empatia. A caixa de empatia não é muito bem explicada por PKD, mas o que se pode entender é que o usuário da caixa de empatia mergulha numa verdadeira realidade virtual, assistindo à figura de Wilbur Mercer. Mercer é um sujeito velhinho, que está eternamente subindo uma colina e começa a ser apedrejado, até que cai. Quando ele cai, todas as pessoas ligadas à caixa de empatia compartilham todos do mesmo sofrimento, inclusive do de Mercer. Ali esgota-se o ardor, e a pessoa se desconecta da caixa e volta à sua vida normalmente. Sobre o “mercerismo” também tem uma análise rápida mas muito boa do Bressane.

Por fim, mas não menos bacana, é o Easter Egg no livro que PDK faz com seu próprio gênero literário. Enquanto os humanos têm a caixa de empatia, os androides têm uma outra espécie de culto. Está mais na verdade para uma tendência entre os androides. Eles têm uma verdadeira fixação sobre a literatura de ficção científica, que é chamada de “ficção pré-colonial” – basicamente tudo que foi escrito na Terra de Literatura Sci-fi antes da Guerra Mundial Terminus. É material proibido nas colônias de Marte, mas contrabandeado e muito apreciado por eles.

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Enfim, com tudo que foi relatado aqui, é possível perceber que achei o livro em muito SUPERIOR ao filme, mas este tem também seus méritos, viu? Por exemplo, eu gosto mais do Roy do filme, não apenas pela exímia interpretação do ator, mas pelo tom espiritual e filosófico agregado ao personagem e completamente ausente no livro. Aliás, a fala final de Roy nem estava no roteiro. Foi espontâneo do ator. Uma salva de palmas para sua brilhante atuação!

O filme vai resolvendo as dificuldades encontradas na adaptação justamente com essa carga de humanidade e dignidade dos androides. Como situações mais complexas foram cortadas do filme, creio que a solução foi muito boa. Como disse, os efeitos práticos foram o mesmo: levaram Deckard, e o espectador a se questionar realmente o que nos define como seres humanos.

Acredito que, assim como esse post faz parte de uma análise conjunta, dividida aqui no blog e no vídeo no canal, da mesmíssima forma, é interessante ler o livro e complementar suas reflexões vendo os filmes e vice versa. Se puder ler essa edição comemorativa da Aleph, creio que vale muito a pena. É um material bastante denso, mas com certeza, quanto mais você for analisando, mais vai chegando à conclusão de que Philip K. Dick era realmente genial.


Informações adicionais sobre o livro:

Capa dura: 336 páginas

Editora: Aleph; Edição: 1ª (29 de setembro de 2017)

ISBN-10: 8576573849 – ISBN-13: 978-8576573845

Título original: Do androids dream of eletric sheep? 


Informações adicionais sobre o Bradbury Building: 

Endereço: 304 S Broadway, Los Angeles, CA 90013, EUA

Aberto diariamente, das 09:00 às 18:00 de segunda à sexta e até às 17:00 aos sábados e domingos. Entrada gratuita.

2 comentários Adicione o seu

  1. Monica disse:

    Embora andróides não integrem a minha lista favorita de leituras e filmes, seu post é espetacular. Conduz a uma viagem interessante; aguça a curiosidade, desperta a vontade … Parabéns!!!
    Ah, sim, o edifício é lindo!!!

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