O Museu das Coisas Intangíveis – Wendy Wunder

Olá, leitores! Já ouviram falar desse livro com esse nome bem curioso? O Museu das Coisas Intangíveis? Não? Então você precisa conhecê-lo!

Sinopse:

Quando o pai alcoólatra de Hannah rouba suas economias para a faculdade, que ela juntou com a venda de cachorros-quentes, ela finalmente se convence de que nada de bom lhe reserva o futuro na pequena cidade onde mora. Zoe, sua melhor amiga, tem demonstrado sinais cada vez mais fortes e prolongados de transtorno bipolar, a ponto de não sentir sono e apetite, passar dias reclusa em casa, ter pensamentos acelerados e acreditar se comunicar com extraterrestres, o que já a levou a internações forçadas. Cansadas das frustrações cotidianas, tanto na escola quanto no lar, Zoe convence Hannah a embarcarem em uma viagem de carro pelo país. Hannah aceita por notar que a doença de Zoe está piorando e não quer abandonar a amiga à própria sorte. Já Zoe acredita que está cumprindo uma missão de vida, e aproveita a viagem para mostrar à regrada Hannah as intangibilidades com as quais ela tem dificuldade de lidar, como audácia, despreocupação e até o amor. O MUSEU DAS COISAS INTANGÍVEIS é um romance contemporâneo, que irá prender a respiração do leitor ao abordar o significado da verdadeira amizade, principalmente nos momentos mais difíceis da vida.

Esse foi o terceiro livro da leitura conjunta pelo nosso querido Clube do Curinga, dessa vez, o título foi selecionado por mim, e era um livro que eu já queria ler há algum tempo, desde que eu o vi no IG da @clayci. Creio que se o verdadeiro intuito do Clube fosse debater os livros, esse renderia bastante tempo de papo.

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O Rodrigo foi o primeiro a terminar essa leitura, então vou deixar o link aqui do post dele para quem quiser mais opiniões sobre o livro.

Mas vamos às minhas impressões…


O que eu achei da leitura:

O Museu das Coisas Intangíveis é um livro cuja capa pode ser um pouco traiçoeira. Linda, na minha opinião, e bem alegre, pode dar a falsa impressão de estarmos diante de mais uma leitura bonitinha e leve. Não se deixem enganar.

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De um modo geral, o livro atendeu minhas expectativas no sentido de ter sido uma leitura bem proveitosa, mas que me pegou desprevenida, e que não posso classificá-la como uma leitura light.

Senti uma grande empatia pelos personagens da história. A pessoa com que mais me identifiquei foi Hannah, mas só em partes, porque, assim como ela, eu também gosto de que tudo esteja sob meu controle e sou muito “certinha”, o que algumas pessoas, na verdade, chamam de “careta”.

Meu quarto é organizado. Gosto de manter as coisas em ordem. Tenho um jeito especial de dobrar minhas camisetas […]

Minha escrivaninha também é organizada, e passo muito tempo nela. Na parede à direita da minha escrivaninha há um enorme calendário de fundo branco, com ímãs coloridos e anotações com marca-texto, assinalando minhas tarefas do mês. Gosto de ter tudo exposto à minha frente, e não escondido em algum lugar do computador.

Eu adoro pôr tudo no papel. Todo mês eu imprimo aqueles planners gratuitos e escrevo tudo o que eu tenho que fazer ao longo dos dias. Prefiro isso a ficar usando a agenda do celular, por exemplo. Minhas roupas são separadas por cores no armário, mas as que predominam são: preto, cinza e azul. Para tentar colorir um pouco mais, eu uso muito amarelo e vermelho. Em geral, sempre gostei muito de arrumar as coisas. Limpar nem tanto. É mais uma mania de separar, classificar, ordenar. Não é à toa que as matérias que eu sempre gostava eram tipo sintaxe, no Português e Reinos, filos, etc, em biologia.

Mas no caso de Hannah, acredito que seu comportamento se deve por conta de seus pais. O pai de Hannah é um apresentador do tempo medíocre e alcoólatra, e é bem fácil ficarmos indignados com ele no livro. A mãe, após o divórcio e a chegada à meia-idade perdeu o encanto com a vida. Passa os dias enclausurada em casa assistindo à TV. Hannah teve que lidar com essa “perda” dos pais tornando-se de alguma forma responsável por si mesma. Não é spoiler também dizer que Zoe, a melhor amiga de Hannah, tem transtorno bipolar e que seu irmãozinho, Noah, é portador da síndrome de Asperger.

Livros que tratam de saúde mental em geral, e principalmente com essas duas temáticas me atraem bastante, porque são assuntos que eu gostaria muito de entender melhor e que acho que todas as pessoas deveriam se informar mais também sobre eles. Já falei aqui de um livro que aborda o transtorno bipolar, mas sobre a síndrome de Asperger, embora eu tenha lido alguns livros a respeito, percebi que no blog ainda não teve resenha de nenhum deles. Espero resolver um pouco disso agora, com o livro de hoje.

A síndrome de Asperger é um Transtorno do Espectro Autista. No livro A Diferença Invisível”, uma HQ de utilidade pública, encontramos a definição:

A Síndrome de Asperger é uma forma leve de autismo, sem atraso de linguagem nem deficiência intelectual. […] Um aspie, ao longo da vida, cria seu “dicionário de expressões”, o qual enriquece pouco a pouco. Mas sempre terá dificuldade com o duplo sentido, o que muitas vezes dificulta o entendimento de instruções, seja na escola ou, mais tarde, na vida profissional¹.

O comportamento de Zoe, me assustou um pouco, principalmente quando em crise, mas é uma demonstração do quanto ainda eu (e provavelmente a maioria das pessoas) ainda não saberia lidar com pessoas que são bipolares. É necessária a ajuda de um profissional. Ainda assim, é lindo ver o que ela faz pelo irmãozinho dela, o Noah, um Aspie (nome carinhoso que se dá às pessoas portadoras da síndrome de asperger). Aliás, o título do livro leva o nome de uma criação da própria Zoe, que inventou uma espécie de Museu, pela qual poderia explicar a Noah sentimentos e emoções que ele não consegue compreender; uma das características de sua condição de Aspie, ele não consegue entender seus próprios sentimentos. Esse é O Museu das Coisas Intangíveis, e, a cada “exposição” ela e Hannah tentam trabalhar o conceito de uma palavra intangível. Achei a ideia maravilhosa, pois assim como Zoe, também gosto muito de museus, e acho que, na verdade, é uma ideia bem legal e que todo mundo poderia tentar de vez em quando, principalmente nas escolas. Por exemplo, como você tentaria passar a alguém que é incapaz de entender as próprias emoções o que é sentir “orgulho”, “gratidão”, “medo”?

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Cada capítulo (que são bem curtos) leva o nome de uma dessas palavras intangíveis. Para “orgulho”, Zoe, por exemplo:

“moldou um tronco humano com papel machê e tinta têmpera de cor pêssego. Uma marionete de pavão caminhava para frente e para trás sobre um arco-íris colorido do orgulho gay, enquanto um vídeo exibia a gravação de uma mãe observando seu filho se formar na faculdade, um nadador ganhando uma medalha de ouro e uma atriz recebendo um prêmio da Academia”.

Não necessariamente cada capítulo vai trazer uma exposição da palavra no Museu, mas certamente haverá uma situação em que a palavra pode ser traduzida no sentimento de algum dos personagens.

A história em si, porém, acaba saindo do Museu das Coisas Intangíveis, e se torna uma verdadeira road trip a partir do momento que Zoe decide fugir de casa. Hannah topa ir para não deixar sua amiga ir sozinha (e ela sabe que Zoe iria sozinha), já que seus sinais de transtorno bipolar só parecem se agravar.

Essa parte da road trip para mim tem seus altos e baixos. É cheio de referências americanas, que podem ser interessantes ou enfadonhas, dependendo do leitor. No meu caso, me diverti muito por ter tido a oportunidade de conhecer a maioria delas: Marshalls, Ikea, Taco Bell, etc. Aliás, da Ikea, para quem não conhece e ficou curioso, fica aqui uma foto de uma das refeições de Hannah:

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Almôndegas suecas com geleia de frutas vermelhas

Eu particularmente gosto quando nas ficções aparecem lugares reais, até porque eu gosto muito de viajar e até uma das propostas do blog são os percursos literários, ou seja, aqueles em que a gente pode experimentar um pouco do mundo fictício no mundo real. Nesse quesito, esse livro foi um deleite para mim!

Há uma crítica, também, em O Museu das Coisas Intagíveis, ainda que não gritada, sobre a seriedade com que as doenças mentais devem ser encaradas, e reconheço que a forma impactante como isso é tratada, embora não seja agradável, e seu percurso possa incomodar a maioria das pessoas,  é um dos méritos da escritora.

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A escritora Wendy Wunder

Gostaria de criticar algumas coisas, não em termos de técnica de escrita, mas de conteúdo, o que não irei fazer para evitar spoilers. Quem quiser papear sobre o livro, estou sempre à disposição no IG.

Enfim, o livro não era aquilo que eu esperava, mas isso não quer dizer que foi uma leitura ruim, na verdade, foi um choque. E mesmo agora, enquanto escrevo esta resenha, estou tentando processar alguns fatos do livro, me perguntando se a história poderia ser diferente. Ao mesmo tempo, porém, não foi daquelas leituras arrebatadoras e incríveis que a tornam a melhor leitura do ano.

Minha nota foi 4 estrelas. Eu o resumiria como uma leitura importante, impactante mas cujo meio da história deu uma desandada e ficou um pouco cansativa. Mas tem mais a ver com meu perfil de leitora que com a história em si, acredito. De qualquer forma, toda essa ideia do Museu, (que, infelizmente acaba ficando de lado ao longo da história), em conjunto com os temas da saúde mental, já vale a leitura! Outra questão abordada no livro, que também é muito pertinente, é a falta de perspectiva dos personagens frente às dificuldades financeiras e a precariedade do sistema de ensino público.

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Uma leitura proveitosa que rendeu muitas marcações de post-its

A título de curiosidade, por fim, a escritora Nicola Yoon o avaliou com 5 estrelas no Goodreads. Tanto Yoon quanto Wunder têm seus livros voltados para um mesmo público, de jovens e jovens adultos, mas Yoon ainda é mais aconselhável para uma leitura mais leve.

Você se interessa por algum dos assuntos abordados nesse livro? Se sim, considere ler esse livro. Ele também poderá te surpreender.


Nota:

DACHEZ, Julie. A Diferença Invisível. 1ª edição. São Paulo: Editora Nemo, 2017, p. 184.


Informações Adicionais sobre O Museu das Coisas Intangíveis:

Capa comum: 256 páginas

Editora: Novo Conceito; Edição: 1ª (22 de outubro de 2018)

ISBN-10: 8581638740 — ISBN-13: 978-8581638744

Título Original: The museum of intangible things

3 comentários Adicione o seu

  1. Mas que mulher certinha! 🙂 🙂 🙂
    Que proposta interessante essa de abordar temas como o Asperger e o transtorno bipolar, pois são assuntos que precisam ser do conhecimento de todas as pessoas. Amei o significado do título! ♥♥

    Curtido por 1 pessoa

    1. Isa Ueda disse:

      Hahahaha, sou, né? 😂😅 Realmente, ainda são poucos os livros que abordam tais temas, embora eu tenha lido alguns maravilhosos (Em Algum Lugar nas Estrelas, por exemplo, embora não seja mencionado em momento algum, o protagonista tem síndrome de Asperger, mas a autora explica que na época que a história se passa, a doença ainda não havia sido diagnosticada). Enfim, que bom que vc tbm gostou da origem do título! 😊

      Curtido por 1 pessoa

  2. Monica disse:

    Também tenho manias, tipo pendurar roupas com os prendedores da mesma cor … separar as roupas por cores … o livro parece interessante. Conhecer a mente e suas nuances pode ajudar a compreender melhor as pessoas.

    Curtido por 1 pessoa

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