As Alegrias da Maternidade – Buchi Emecheta

[PROJETO: MULHERES CONTINENTAIS]

Unindo dois projetos em um, fiz da leitura conjunta do mês de agosto do Clube do Curinga também a minha leitura do continente africano para o desafio #MulheresContinentais. Conheça melhor o projeto Mulheres Continentais clicando aqui.

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Sinopse:

Nnu Ego, filha de um grande líder africano, é enviada como esposa para um homem na capital da Nigéria. Determinada a realizar o sonho de ser mãe e, assim, tornar-se uma “mulher completa”, submete-se a condições de vida precárias e enfrenta praticamente sozinha a tarefa de educar e sustentar os filhos. Entre a lavoura e a cidade, entre as tradições dos igbos e a influência dos colonizadores, ela luta pela integridade da família e pela manutenção dos valores de seu povo.


Curiosidade:

Este é o segundo romance nigeriano que tenho a oportunidade de ler este ano. O primeiro, foi o incrível Fique Comigo, de Ayòbámi Adébáyò. E igualmente incrível e maravilhosa foi minha experiência de leitura com As Alegrias da Maternidade.

Antes de mais nada, queria compartilhar uma curiosidade com vocês, que na verdade, vem descrita na orelha do livro, mas que muitos só realmente leem se toparem com o livro em mãos. O título do livro é irônico. Não que não haja alegria alguma em ser mãe, mas o livro aborda a maternidade de forma nua e crua, sem floreios. Buchi Emecheta nasceu em Lagos, a cidade mais populosa da Nigéria, e passou boa parte da infância em Ibuza. Ambas as localidades são retratadas no romance. Emecheta teve uma infância dura, mas sempre teve ganas de aprender, de vivenciar, e conseguiu uma bolsa de estudos numa escola de elite. Aos 11 anos apenas, veio a se tornar noiva, e aos 16 já se viu obrigada a se casar. Logo vieram os 5 filhos, e a família se mudou para Londres. Seu casamento foi abusivo, e ela passou a escrever quando podia. Um dia, seu marido simplesmente queimou o rascunho da esposa. Aos 22, ela conseguiu o divórcio, mas seu ex-marido renegou a paternidade, entregando a mãe e seus 5 filhos à própria sorte em uma terra estrangeira. Emecheta deu a volta por cima, e logrou graduar-se em Sociologia. As Alegrias da Maternidade foi escrito depois de, devastada, Emecheta descobrir que uma de suas filhas resolvera ir morar com o pai que lhe havia renegado anos atrás.

O livro é divido em 18 capítulos, em geral curtos, que levam títulos, por vezes, também irônicos. A meu ver, pequenos lampejos de genialidade da autora. Quisera eu tais lampejos não tivessem nada a ver com a experiência de vida da própria Emecheta.


Minhas Impressões sobre o Livro:

As Alegrias da Maternidade foi o livro de agosto selecionado pela Day do @leiturela, e, até o momento, eu o considero minha melhor leitura de 2019. Ele, aliás, também é um dos livros mais elogiados da TAG (clube de assinatura de livros), e cuja curadoria foi de ninguém menos que Chimamanda Ngozi Adichie.

Como eu havia lido Fique Comigo meses antes, Lagos e Ibuza já me soavam familiar, e também já estava a par de alguns valores, costumes e tradições adotados na Nigéria — o que, embora de meu conhecimento, não deixaram de me causar impacto e estranheza, e, muitas vezes, indignação.

Nnu Ego, a protagonista, é a filha de um grande líder, mas não consegue gerar filho em seu primeiro casamento. Assim, para evitar maiores comentários, o casamento é desfeito e ela é enviada de Ibuza para Lagos, bem longe de sua família e conhecidos, para um completo estranho, Nnaife, com quem deverá se casar. Assim como a vida da própria autora, o casamento de Nnu Ego é atulhado de abusos, machismo e sofrimento. Mas é com ele que Nnu Ego vem a ter filhos, e passa a ser uma “mulher completa”. Ao longo da vida, que não lhe poupou tormentos, Nnu Ego, porém, começa a entender melhor as implicações de ser mulher, e passa a questionar, ainda que inconscientemente, se sua vida se resume a gerar filhos.

“Deus, quando você irá criar uma mulher que se sinta satisfeita com sua própria pessoa, um ser humano pleno, não o apêndice de alguém?”, orava ela em desespero. “Afinal, nasci sozinha e sozinha hei de morrer. O que ganhei com isso tudo? Sim, tenho muitos filhos, mas com que vou alimentá-los? Com a minha vida.

O livro é permeado por muitos trechos arrebatadores, que nos põem a refletir muito sobre a condição de mulher. Quem já leu algo da literatura nigeriana deve estar familiarizado com a prática comum da poligamia entre algumas comunidades, por exemplo. Nnu Ego é a primeira esposa de Nnaife, ou esposa mais velha. Akaku é outra das esposas, que chega posteriormente, e de forma que eu desconhecia até então (desculpa, leiam o livro para saber como), mas é uma mulher que passei a admirar muito ao longo da leitura. A quote abaixo é uma fala dela:

“Pode ser que você tenha razão, esposa mais velha. Só que quanto mais eu penso no assunto, mais me dou conta de que nós, mulheres, fixamos modelos impossíveis para nós mesmas. Que tornamos a vida intolerável umas para as outras. Não consigo corresponder a nossos modelos, esposa mais velha. Por isso, preciso criar os meus próprios”.

Peço até desculpas se, de alguma forma, essas citações soarem como spoilers, mas eu não seria capaz de apresentar qualquer impressão minha sobre essa leitura sem trazer ao menos uma passagem do livro.

Impossível também é ler este livro e não querer discutir sobre a pressão existente sobre as mulheres, no mundo todo, de terem filhos. Isso foi algo, inclusive, levantado no nosso clube, e, de fato, foi a primeira vez que chegamos a debater um livro, porque esse é um dos poderosos efeitos de As Alegrias da Maternidade. Por isso, já deixo a pergunta aqui no ar para você que é mulher e não tem filhos: existe pressão na sua família ou por parte de amigos, de que você se case e tenha filhos?

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Além da questão de condição de mulher, da maternidade, é interessante ainda o viés político e o contexto histórico em que se passa a narrativa, já que nos vemos diante de uma Nigéria ainda colonizada pelos britânicos, e cujos homens são convocados a lutar uma guerra que nem é deles, a Segunda Guerra Mundial.

“Não há nada que a gente possa fazer. Nós pertencemos aos britânicos, assim como pertencemos a Deus, e, como Deus, eles podem se apropriar de qualquer um de nós quando tiverem vontade”. Naquele tempo as coisas funcionavam assim: os nigerianos não tinham vontade própria. Nenhum jornal relataria o acontecido; e mesmo que o fato fosse noticiado, quantos dos afetados sabiam ler, quantos tinham dinheiro para comprar um jornal?

Também gostei muito da escrita de Emecheta. Não sei se foi possível perceber somente com esses trechos que trouxe, mas há uma certa continuidade entre as falas dos personagens e à do narrador em terceira pessoa exercida com muita habilidade, tornando a narrativa, em seu conjunto, bastante fluida, tanto que eu simplesmente não conseguia parar de ler.

Para esta leitura coletiva, eu separei os capítulos, como de costume, em páginas para eu cumprir minhas metas semanais, mas foi a primeira vez que não as segui ou sequer me baseei nelas, segui o fluxo da curiosidade e o li, atipicamente, sem qualquer outra leitura paralela.

As Alegrias da Maternidade é um livro que vai ficar marcado eternamente em mim, e que quero agora que o maior número possível de pessoas leia. E aliás, peço que não leiam apenas a minha resenha. Há inúmeras por aí. Leiam pelos olhos de um homem, mas leia principalmente pelos olhos de uma mulher, de uma mulher casada, de uma mulher solteira, de uma mãe, de uma avó, leiam várias resenhas, e depois leiam o livro, e por favor, não deixem também de compartilhar as suas impressões. Não precisa ser num texto, embora seja louvável, basta comentar sobre o livro com a sua amiga, a sua companheira, sua mãe, sua filha. Este é um livro que merece notoriedade.

Como puderam ver, As Alegrias da Maternidade inaugurou algumas “anomalias”: me fez desrespeitar minhas próprias metas semanais e gerou debate no grupo. Creio que são assim as melhores leituras, elas saem da mesmice, do ordinário, quebram as regras e ascendem  rumo ao único destino possível, ao topo.


Informações adicionais sobre o livro: 

Capa comum: 320 páginas

Editora: Dublinense; Edição: 2ª (31 de outubro de 2018)

ISBN-10: 8583181101 – ISBN-13: 978-8583181101

Título original: The Joys of Motherhood

6 comentários Adicione o seu

  1. Monica disse:

    As pressões, principalmente da sociedade, ditaram o comportamento das mulheres da minha geração.
    Nem sempre foram por mim cumpridas.
    Quebrei regras e continuo quebrando … e assim continuo aprendendo com os acertos e erros.
    Difícil chancelar o que é certo ou errado. Cada um tem um modo de ver a vida e essa visão geram os pensamentos que se traduzem nos comportamentos.

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    1. Isa Ueda disse:

      Você é uma mãe e tanto, uma mulher e tanto! Mas acho que esse livro serve justamente pra nos questionar sobre o que acreditamos ser certo ou não. Vc vai ter que ler hahaha

      Curtido por 1 pessoa

  2. Que resenha perfeita e que vontade de ler este livro.
    Quando a mulher não é pressionada diretamente pela família, ela não escapa da pressão social. Na cidade onde nasci, mulheres com a mesma idade que eu (38), se casaram aos 16 anos. Eu me neguei a isso, me casei quando achei que deveria. Sou casada há 11 anos e não tenho filhos, felizmente meu marido nunca me pressionou por isso, mas a sociedade e alguns familiares sim.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Isa Ueda disse:

      Quando fui morar um tempo com a minha mãe em Rondônia, eu notei que lá na cidade dela as mulheres se casavam muito cedo também, e isso me assustou um pouco. Ainda há realmente muito o que se mudar no pensamento da sociedade, porque é difícil que alguma mulher dentro de uma certa faixa etária e sem filhos não tenha em algum momento se sentido pressionada. Se não pela família, como vc disse, pela sociedade.
      Que bom que vc e seu marido estão em sintonia quanto a isso. É fundamental pra uma vida a dois.

      Curtido por 2 pessoas

  3. Oies Isa! Esse livro está na minha listinha infinita de livros para ler, pq além de ser indicação da Chimamanda, tenho me interessado muito pela literatura africana no geral. Como vc perguntou, sim, eu sinto a pressão ao dizer que não quero ter filhos, tanto pela minha família, quanto pelas pessoas da igreja que eu frequentava: afinal, como eu poderia negar esse dom que Deus me concedeu por eu ser mulher? Muita ousadia e blasfêmia minha, segundo eles. Enfim, adorei a resenha e me despertou ainda mais a curiosidade dessa obra 😉 Bjos

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  4. Conversamos bastante a respeito desse livro! Só queria deixar aqui meu comentário de que eu adoro nosso clube e principalmente debater sobre nossas leituras!

    Curtido por 1 pessoa

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