Por que Gritamos – Elisama Santos

Sinopse:

“Elisama Santos, em Por que gritamos, compartilha com seus leitores e leitoras sua caminhada como mãe e educadora parental em busca de uma educação em que o diálogo entre mães, pais e crianças dá o tom. Longe de romantizar a relação entre pais e filhos, mostra que respeitar é diferente de ser permissivo e ajuda você a acessar a chave para lidar com os sentimentos escondidos atrás do grito, fazendo as pazes consigo e criando filhos emocionalmente saudáveis.”


Quis ler “Por que gritamos: como fazer as pazes consigo e educar filhos emocionalmente saudáveis” porque me preocupo muito com a educação que eu e meu marido daremos para nosso filho. Confesso que até ler o primeiro capítulo, não estava impressionada com o livro, não parecia que ele iria me surpreender. Mas continuei lendo e entendi que este não é um livro escrito para impressionar ninguém. Muito pelo contrário, é o tipo de livro que vai conversar com nosso íntimo, que vai nos pegar pela mão e chamar para debater alguns pontos que na verdade sabemos que são importantes, mas que constantemente deixamos de lado para podermos seguir com nossas vidas.

E essa é a questão. Conhecemo-nos como ninguém mais. Sabemos do nosso próprio passado como nenhuma outra pessoa: o que nos frustrou, o que nos marcou, positiva ou negativamente, sabemos das expectativas de nossos pais a que correspondemos ou não, sabemos por que ficamos chateados, tristes, magoados… mas apenas saber não muda nada; ou, pelo menos, não se não fizermos nada a respeito de tais emoções, se só as varrermos para baixo do tapete. Não trabalharmos nossas emoções originadas no passado faz com que uma voz interna nossa nunca seja realmente silenciada. E na maternidade, na paternidade, essa voz pode ser despertada com um ímpeto não desejado, e sair como um grito, uma forma de violência na comunicação, e repassamos nossas frustrações, nossos medos, nossas reprimendas e nossos traumas a quem não tem culpa alguma por toda essa gama de sentimentos: nossos filhos.

Elisama também nos lembra que não é porque fomos educados aos berros e mesmo assim acreditamos que não temos traumas que, então, não há nada de errado nisso e podemos continuar fazendo o mesmo com nossos filhos. Afinal, trauma é algo muito particular e pode nos atingir em graus e proporções diferentes. Não significa sempre ficar paralisado, ter dificuldades financeiras na sua vida adulta ou sofrer de ansiedade, depressão, por exemplo. Pode ser apenas um sentimento de uma ferida que simplesmente não se cura, e que vamos empurrando indefinidamente vida à frente. Quando li isso, pensei imediatamente na minha avó. Nossa família adora ir a karaokês para se divertir. Ninguém ali é cantor profissional, é só uma forma de soltar a voz, distrair-se um pouco e fazer bagunça. Ninguém está julgando a afinação e talento de ninguém. O propósito não é esse. Mesmo assim, minha vó nunca canta. Perguntamos uma vez o por quê dela não querer cantar, já que sabemos o quanto ela gosta de ouvir música, como outra pessoa qualquer. E então ela nos contou que uma vez, quando criança, sua mãe lhe dissera que ela cantava mal. Não sei em que tom isso foi dito, mas realmente não importa. Esse único julgamento (porque bastou um único episódio) fez com que minha vó desde então nunca mais cantasse.

Veja bem, não estou criticando minha bisavó. Tenho certeza que ela educou seus filhos na época com os recursos e conhecimentos que possuía e que acreditava serem os melhores e mais bem intencionados. Mas se hoje temos mais ferramentas para entender a infância e seus reflexos na vida adulta, por que não utilizá-las?

Ler este livro não significa que você estará livre de ter momentos em que irá gritar com seu(s) filho(s), ou que nunca terá o impulso de fazê-lo, mas Elisama nos ajuda a entender por que o fazemos, e, consequentemente, como podemos lidar com isso, tentar evitar isso, e educar nossos filhos de forma emocionalmente saudável.

A linguagem de Elisama Santos é facilmente assimilável, com relatos (com nomes fictícios) que ajudam a compreender ainda mais os pontos que ela trabalha no livro. Cada um dos 7 capítulos é bem curto, com recapitulações dos pontos nele levantados, o que torna a leitura, além de dinâmica, um convite ao exercício constante e diário de reflexão pelo leitor.

Como trazido pela própria sinopse, Elisama Santos não romantiza em momento algum a maternidade/paternidade. Na verdade, ela nos lembra constantemente dos desafios que a relação mãe/pai-filho(s) traz, mas também aborda a importância de não enxergamos apenas por meio de rótulos tal relação:

“Enxergamos os nossos pais apenas como pais faz com que os desumanizemos” (p. 78). Acho que um livro que li que ilustra muito bem essa ideia é Por favor, cuide da mamãe”. Nele, a mãe, que tem Alzheimer, se perde do marido numa estação de metrô e não é mais encontrada. O livro é contado de várias perspectivas, e o que se percebe é que os filhos veem que não conhecem quem é a mãe deles de verdade, não como uma pessoa, com gostos, vontades, sonhos e medos próprios, apenas como a mulher que é a mãe deles. No sentido inverso, porém, enxergar os filhos apenas como filhos também os desumaniza. Nesse ponto, importante ela ter levantado também que só num passado recente é que surgiu o conceito de infância tal qual o conhecemos hoje. Nossa legislação mesmo sobre o assunto, o Estatuto da Criança e do Adolescente tem apenas 30 anos (Lei 8.069/1990). Ainda estamos aprendendo o que é a infância e sobre a educação de nossos filhos. A caminhada é longa e contínua, e com certeza ler livros sobre o assunto podem ajudar muito.

Este é o primeiro livro sobre educação de crianças e parentalidade que eu leio, e gostei muito tanto da escrita quanto do conteúdo. Até quem já tem filhos grandes e “criados”, como se diz por aí, pode se beneficiar muito desta leitura, já que ela garante muitas reflexões sobre a sua própria infância, e quem sabe possa até fazê-lo(a) libertar-se da criança ferida que existe ainda dentro de você.

Se você se interessou e também nunca leu nada a respeito, deixo todas minhas recomendações de “Por que gritamos”. Se você já está mais familiarizado(a) com livros sobre o assunto, por favor, me indique alguns nos comentários!


Dados Técnicos do Livro:

Capa comum: 168 páginas

Editora: Paz & Terra; Edição: 1 (4 de maio de 2020)

ISBN-10: 6555480009 – ISBN-13: 978-6555480009

Edição recebida em parceria com o Grupo Editorial Record.

Adquira o seu exemplar preferencialmente no site da editora, ou em alguma das livrarias abaixo:

1 comentário

  1. Você tem razão! É um livro muito interessante!!! Traz muitas reflexões sobre os nossos comportamentos.
    Já li algumas matérias a respeito que, de certa forma, trouxeram reflexões no meu modo de encarar e seguir a vida .

    Curtido por 1 pessoa

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